Roberto Gómez Bolaños, ‘Chaves’. / TELEVISA

DO JORNAL ESPANHOL EL PAIS (EDIÇÃO DO BRASIL)

Poucos usaram a ironia como Roberto Gómez Bolaños, ator, escritor, comediante, diretor e dramaturgo mexicano. O Chavo del Ocho para milhões de lares na América Latina; Chaves para tantos brasileiros; o Chómpiras, um ladrão nobre; Chapolin Colorado – um herói “mais ágil do que uma tartaruga, mais forte que um rato, mais nobre do que uma alface, seu escudo é seu coração” – conhecido no México como Chespirito. O criador desses personagens queridos de sotaque mexicano, que está nos corações de muitos latino-americanos, morreu hoje. Tinha 85 anos.

Mas quando Gómez Bolaños quis se aventurar nos palcos, o assunto não foi fácil. Primeiro quis subir a um ringue (como pugilista amador e depois de alguns socos decidiu que não era para ele), cumpriu o serviço militar – contra sua vontade – e decidiu estudar engenharia na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Nunca exerceu, claro. Finalmente terminou trabalhando em uma agência de publicidade e como roteirista de filmes, muitos de Viruta y Capulina, uma popular dupla de cômicos dos anos cinquenta.

Destes tempos vêm seu apelido, Chespirito. Ele é atribuído ao diretor Agustín Delgado. A questão é que o mexicano transbordava criatividade, junto com sua baixa estatura, o cineasta carinhosamente disse que ele era como um Shakespeare, mas pequeno. Um Shakespearecito. O apelido, mexicanizado, se transformou em Chespirito.

Em sua autobiografia, Gómez Bolaños também confessa que era primo do ex-presidente Gustavo Díaz Ordaz (1964-1970 e presidente em 2 de outubro de 1968, dia em que ocorreu o massacre contra estudantes na praça de Tlatelolco). Diz que era um primo de sua mãe, que tocava violão, tinha uma ótima voz e era muito bom contando piadas. E sim, era político. “Mas neste mundo ninguém é perfeito”.

O grande momento de Chespirito chegou no final dos anos sessenta. Nasceu Os Supergênios da Mesa Quadrada, uma espécie de reunião social, onde compartilhava a mesa com María Antonieta de las Nieves, Rubén Aguirre e Ramón Valdés. Os espectadores mandavam perguntas de atualidades e os participantes respondiam de maneira absurda. “Problema discutido, problema resolvido”, era seu lema. Sucesso imediato.

A criatividade de Gómez Bolaños, que seus primeiros professores tinham diagnosticado como própria de um gêiser, fez com que o programa fosse aumentado para uma hora e passou a se chamar Chespirito. Transformou-se então em um espaço de esquetes. Aí nasce o Chapolin Colorado e em 1971 chegou El Chavo del Ocho (Chaves).

O Chaves era uma criança que vivia em um barril em uma vila que poderia existir na Cidade do México ou talvez, podemos nos aventurar a dizer, em qualquer metrópole da América Latina. Chaves não tinha nome, mas um sonho: um sanduíche com presunto. Era humilhado, mas sua engenhosidade o salvava. Os personagens do bairro faziam uma paródia do enraizado classismo da sociedade mexicana. “Gentalha, gentalha!”, gritava Quico, o suposto bom menino daquela peculiar tropa, que na realidade era um garoto com enormes bochechas que se refugiava atrás da saia de sua mãe.

O Chapolin Colorado foi criado separadamente. O México é um país que, apesar de sua vocação épica, tende a olhar com uma sobrancelha levantada, de incredulidade, para o surgimento de um herói autoproclamado. Por isso Chespirito teve a ideia de criar um herói peculiar. Suas “antenas de vinil” detectavam qualquer coisa errada. Era muito (muito) desastrado. Mas tinha um grande coração. Sua “marreta biônica” (que era a sua arma) vencia os malvados, suas “pílulas de nanicolina” ajudavam a escapar de situações incômodas e “buzina paralisadora” servia para imobilizar inimigos e escapar de novo, deixando seu público, como sempre, fascinado. “Não contavam com a minha astúcia!”, falava para a câmera.

Falta descrever Chómpiras, o ladrão honrado; o doutor Chapatín, um veterano dos Supergênios da Mesa Quadrada que carregava uma sacola de papel que ninguém sabia o que tinha dentro ou Chaparrón Bonaparte, o louco mais ajuizado do pedaço.


Torcedores mexicanos fantasiados de ‘Chapolin’,
na Copa do Mundo de 2014. / diego/El Pais

Seus programas, sob nomes diferentes, foram transmitidos por décadas pela televisão mexicana e em todo o continente pela Televisa. Lotava estádios em toda a região. Nem tudo é um mar de rosas. Sempre pairou sobre ele a suspeita de ter atuado em uma festa infantil para um narcotraficante colombiano (ele negou com firmeza até o fim) e o fato de se apresentar no Chile enquanto o país amargava o sangrento regime de Pinochet. Chespirito dizia que ele não visitava governos, mas “os povos que desfrutavam de seu trabalho”.

Mas acontece que a América Latina de Roberto Gómez Bolaños o amava, e o sentimento era mútuo. Fossem salvadorenhos, chilenos, brasileiros ou peruanos. “Vocês, mexicanos, acreditam que por terem inventado Chaves inventaram o mundo, não?”, dizia um peruano em Madri há pouco mais de
um ano.

Gómez Bolaños casou-se duas vezes, primeiro com Graciela Fernández, mãe de seus seis filhos, e que morreu em agosto de 2013. E depois em 2004 com Florinda Balance, sua companheira por décadas e outra presença obrigatória no amplo leque de personagens do mundo do Chespirito.

Chespirito gostava de contar um caso. Um dia, em um hospital, um senhor de idade avançada não podia falar. Mas seus olhos brilhavam quando passava o programa de Gómez Bolaños e ainda mais quando aparecia o Chapolin Colorado. Passaram dias e semanas. Finalmente, os médicos ficaram fascinados. O paciente falou. Só disse uma palavra: Chapulín.

No México, o amor por Chespirito está internalizado. Não é comum que se declare, mas o fato é que seu programa não parou de ser transmitido e os direitos por suas personagens geram tantos lucros que provocaram brigas terríveis entre os outrora amigos do elenco.

Mas ele, no serviço militar, recordava que um dia ficou dormindo quando era momento de fazer honras à bandeira. Quando se hasteia o lábaro pátrio e todos os jovens que cumprem a tarefa devem estar firmes e sérios. Pois Gómez Bolaños estava dormindo e quando o acordaram, a única coisa que lhe ocorreu dizer foi: “E eu com isso, caralho!”. Erro crasso. Seu superior, já acalmados os ânimos, disse-lhe: “Antes não te mandei fuzilar”. Chespirito refletia: “Possivelmente eu merecia algo assim. Mas a verdade é que não só amo visceralmente o meu país, como também adoro nossa bandeira e sinto algo muito bonito quando a vejo”.

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