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DEU NO ESTADÃO

Roldão Arruda

Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, ex-presidente fala sobre as perseguições que sofreu e compara o exílio a um “caviar amargo”. O ex-presidente Lula também deve ser ouvido

A Comissão Nacional da Verdade ouviu nesta quarta-feira, 26, Fernando Henrique Cardoso. Durante duas horas, o ex-presidente falou sobre o período da ditadura, a ordem de prisão que foi expedida contra ele logo após o golpe militar, seu afastamento da Universidade de São Paulo (USP) e a vida no exílio.

Fernando Henrique também recordou a volta ao Brasil, no período da distensão política e a prisão a que foi submetido, quando o levaram ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para prestar depoimento. Ali, segundo suas declarações, chegou a ser encapuzado.

O ex-presidente falou ainda sobre sua atuação no Centro Brasileiro de Análise de Planejamento (Cebrap), que se tornou uma espécie de reduto de intelectuais que se opunham à ditadura. Lembrou as ações das quais participou para denunciar as torturas no Brasil e no exterior e sua atuação no movimento pela redemocratização do País.

Sobre o período no exílio, o ex-presidente disse: “O exílio é estranho. Estão ali te servindo caviar, mas é um caviar amargo. Isso é o exílio. Você vive o tempo todo na expectativa da volta.”

O depoimento foi gravado pela manhã na residência de Fernando Henrique, em São Paulo. Estavam presentes o advogado José Carlos Dias e o sociólogo Paulo Sérgio Pinheiro, integrantes da Comissão Nacional da Verdade. Também participou o advogado Luiz Francisco Carvalho Filho, que presidiu a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos durante o governo do ex-presidente tucano.

A Comissão Nacional pretende ouvir ainda o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Perseguido na ditadura por suas atividades sindicais, ele chegou a ficar preso na sede do Dops, em São Paulo.

Até ontem ainda não havia sido confirmada uma data para o depoimento de Lula. A previsão é de que ocorra ainda nesta semana.

O objetivo da comissão é incluir os dois depoimentos no capítulo do relatório final que trata dos perseguidos políticos. Também fará parte do capítulo um depoimento da presidente Dilma Rousseff.

No caso da presidente a comissão pretende reproduzir o longo relato que fez, no início da década passada, à Comissão da Anistia de Minas Gerais. Trata-se do mais longo e detalhado testemunho da presidente sobre sua prisão e torturas que sofreu. É ali que explica como os socos dos torturadores acabaram deformando sua arcada dentária.

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