Dona Cecília, em Glória:Herança preciosa

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Manoel de Barros e a herança de Cecília

Janio Ferreira Soares

O poeta Manoel de Barros, falecido semana passada, dizia que o saber está nas primeiras percepções da infância – dos dois até os cinco, seis anos, por aí -, quando temos contato com a primeira pedra, com o primeiro cheiro de goiaba, com os primeiros cantos dos pássaros, enfim, com todas essas ocorrências materiais e abstratas que são bastante comuns às gerações analógicas, cujo modo de acessá-las, veja que bacana, dava-se pelo simples ato de conectar-se com os acontecimentos do nosso dia a dia (na linguagem de hoje viraria uma espécie de #touchnateladoseumundo). Pois muito bem.

Poucos dias antes de sua morte eu fui ao cartório assinar o inventário de minha mãe, falecida há quase dois anos, e lá me aconteceu algo que tem muito a ver com a teoria do poeta e que conto a seguir.

Acompanhado de minha irmã, de um advogado e sem a mínima ideia de como seria o processo, assim que a jovem tabeliã começou a ler o que ela imaginava ser a minha verdadeira herança, deu-me uma vontade daquelas de interrompê-la, dizendo: “pera lá, dona notária, que a minha história com Cecília vai muito, mas muito além de terrenos, sapatas de concreto e paredes medindo não sei quantos metros de frente por sei lá menos ainda de fundo. Para ser sincero com a senhorita, eu esperava receber aqui algum tipo de baú contendo pedaços da minha infância (o som da chuva nas telhas da nossa casa nas noites em que ficávamos agarradinhos embaixo do lençol esperando o toque da zabumba valente – que era como minha irmã referia-se ao trovão; a varinha que ela fez só para que eu, ainda no seu colo, também participasse das pescarias com os meninos no rio que corria atrás do nosso quintal; ou quem sabe páginas soltas manchadas de tamarindos com as peripécias de Pedro Malasartes e a turma de Monteiro Lobato…), que foram essenciais para a formatação da personalidade deste velho ladino. Portanto, não assino porcaria nenhuma!”.

Contudo, em nome do bom senso – mas sob velados protestos internos disfarçados por sorrisos de falso consentimento – achei melhor relevar a afronta e, ao ser perguntado se concordava com o arrazoado descrito, pronunciei um exclamativo “sim, senhora!”, com dois cês bem grandes, de cinismo.

Mas, voltando ao velho bardo pantaneiro, neste momento em que escrevo, fim de tarde de quinta-feira, o cenário está fazendo jus às suas conjecturas. É que apesar desse calor infernal que ora aquieta águas, pausa árvores e estimula este locutor a cometer o prazeroso ato de uma vagabundagenzinha atemporal regada a chope e rock do bom (ou quem sabe jazz!), anteontem choveu por aqui.

E quando este raríssimo fenômeno acontece, sabem muito bem aqueles que, como dizia o poeta, mantêm com a natureza uma relação de erotismo e inocência, a passarinhada muda o tom, os urubus alteram os planos de voo e as mangas – ah!, as mangas –, caem dos seus pés diretamente nos meus, já praticamente lavadas e implorando leves mordisquelas em suas cascas ligeiramente orvalhadas e em vias de rompimento, que obviamente serão dadas e acompanhadas por delicadas buriladas com a língua na sua macia e delicada polpa destilando prazer e mel.

Beijos, dona Cecília. Valeu, seu Manoel.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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