Executivos do caso Lava Jato deixam PF em Curitiba
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Angelo Calmon de Sá:no tempo de Geisel

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ARTIGO DA SEMANA

Imprensa e o caso Petrobras: Da Política e Economia à Polícia

Vitor Hugo Soares

Nestes dias incríveis de altos funcionários de estatais detidos em celas comuns da carceragem da Polícia Federal, no Paraná, ao lado de milionários executivos das maiores empreiteiras do País, uma história de jornalismo vivida na antiga redação de A Tarde, na Praça Castro Alves, em Salvador, não me sai da cabeça.

Na época era o general Ernesto Geisel quem mandava na Bahia e no Brasil. E ele acabara de escolher o banqueiro presidente do Grupo Econômico, Ângelo Calmon de Sá, para ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio do seu governo. Festa na Bahia, porque Ângelo Sá, então, era uma espécie de príncipe da elite local, misturado com a fama de empresário prodígio das finanças, da indústria e dos negócios em seu estado e da economia nacional.

Alvoroço na redação do jornal onde eu trabalhava, na época, e o novo ministro era considerado “um filho da Casa”. Nervosismo e corre-corre para produzir “uma edição de primeira sobre a grande escolha”. O chefe da Fotografia, Romualdo Bahiense, entrega ao editor da primeira página, Fernando Rocha, as melhores imagens disponíveis do novo ministro, incluindo as do Arquivo. Fernando “Bananeira” escolhe algumas e devolve o envelope amarelo.

Walmir Palma, notável e saudoso repórter de Polícia, observa a cena e aparenta ser o único tranquilo no meio da tensão infernal do fechamento da edição histórica. Sentado na sua mesa habitual ele trabalha na edição da última página, a de Polícia. Vê Romualdo saindo com o envelope de fotos de Ângelo Sá e o chama discretamente ao lado da sua mesa. Pede o pacote, retira uma fotografia do ministro e a guarda rapidamente na gaveta6. Devolve o envelope e Bahiense deixa a sala com “as sobras”.

Observo tudo sentado na mesa de redator, ao lado de Fernando, e não resisto à curiosidade. Vou até Palma e, cheio de dedos, pergunto o motivo da foto do novo ministro guardada a chave na sua gaveta. A resposta é direta e sábia.

– É só precaução para poupar trabalho depois. Essa turma de “porretas” da economia e da política começa na primeira mas pode acabar na última, a minha página de Polícia. Aí, em geral, as fotos somem do arquivo.

Na mosca, anos depois, no caso do ministro baiano Ângelo Sá.

Na reportagem assinada esta semana por Pedro Cifuentes, o enviado especial do El Pais a Curitiba – olho do furacão do escândalo sem tamanho da Petrobras -, temos uma narrativa fora do usual das aspas retiradas dos inquéritos policiais, nas confissões premiadas, nos “vazamentos” da PF e na louca ginástica verbal de advogados pressurosos em redesenhar perfis no esforço para tirar seus clientes das celas de detenção, ponto de partida crucial na montagem de qualquer defesa.

Onze deles já caíram fora esta semana. Alguns deixaram a carceragem da Polícia Federal com os rostos escondidos em casacos de grife, improvisados como capuzes protetores da desonra. A edição brasileira do importante diário espanhol cumpre uma pauta preocupada em revelar, também, aspectos da convivência pessoal de mais de duas dezenas de acusados de envolvimento no caso que, só pelos ingredientes já revelados até aqui (e mais alguns ainda a saber), tem tudo para ocupar o primeiro lugar no ranking das mais espantosas falcatruas da história do Brasil. Incluindo o recente Mensalão, que nas palavras do ministro do Supremo, Gilmar Mendes, não passa de “pequenas causas” diante do Lava Jato.

El Pais fala dos milionários executivos acusados de organização criminosa, corrupção, fraude na Lei de Licitações e lavagem de dinheiro no caso Petrobras, “lavando sua roupa sob o sol, com a permissão de caminhar pelo recinto penitenciário até o começo da noite”. O texto tem mais revelações “de conteúdo humano”, que leio com atenção, observando as fotos dos personagens e recomendo.

Mas paro por aqui. Depois, recordo com saudade, muita saudade de Walmir Palma. Sábio e visionário mestre do jornalismo de Polícia da Bahia.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luís augusto on 22 novembro, 2014 at 7:33 #

Caro Vítor, apresso-me em ser o primeiro a comentar, não tanto pelo Eixo Petrobras-Empreiteiras-Partidos, que me interessa apenas pelo aspecto profissionalmente asséptico, sem maiores envolvimentos.
Mas o lado Walmir Palma tocou meu coração. Olhe que muito ouvi falar dele antes de conhecê-lo, numa palestra que fez mais de 40 anos atrás na Escola de Comunicação, onde se referiu à pirâmide invertida dos nossos livros sobre texto como “triângulo de cabeça pra baixo”, causando muitos risos com seu jeitão.
Representante do jornalismo de antanho, que não exigia formação de seus quadros, tinha no entanto a sabedoria citada por você.
Fomos colegas também, claro, na Redação de A Tarde, e foram muitos os casos que colecionei, mas, dentro do espírito de seu maravilhoso artigo, vou lembrar somente rápido diálogo com ele.
De passagem por minha mesinha (vale o diminutivo), provocou-me: “A ocasião faz o…?”
Respondi-lhe: “O ladrão”. E ele: Não, a ocasião faz o roubo, porque o ladrão já nasce feito”.


vangelis.a on 22 novembro, 2014 at 8:08 #

Tem a do seu Porreta, jornalista que “cobria o crime”, que às 3 horas da matina acorda com um telefonema de um agente de polícia lhe chamando para a cobertura de um crime que acabara de acontecer, dizendo:
– Seu Porreta, venha logo que o corpo ainda tá quentinho.
Seu Porreta entre sonolento e irritado responde:
– Você me acordou pra isso! Mais tarde por volta das 11 horas passo no Nina e pego os registros.
Atônito o policial pergunta:
– Mas, seu Porreta, por quê?
Seu Porreta responde:
– Porque não sou médico legista sou jornalista e às 11 ainda dá tempo de fechar a matéria pro jornal. Boa Noite!


luiz alfredo motta fontana on 22 novembro, 2014 at 8:36 #

Caro VHS

No país do “antes nunca visto”, mitos perdem a validade sem aviso prévio.

Santa ingenuidade, a que nos acometeu em 2005, quando Renata Lo Prete entrevistou Roberto Jefferson.

Nunca antes neste país um escândalo tão forte e viril, seria a redenção, nem mesmo o queridinho da mídia escaparia, o mensalão seria o divisor de águas.

Ledo engano, o Batman togado não ousou ir além de Dirceu, mesmo assim com o serviço pela metade, de quadrilheiro a mero coadjuvante, com direito aos suspiros de românticas senhoras, que até hoje ecoam sua dor novelesca, em textos pálidos, aqui e acolá.

Mas, como país dos campeões, ignora-se o 7 x 1 e cultua-se a amarelinha.

E agora?

Sai mensalão, entra Petrolão!

Ficaremos em Paulo Costa?

Continuaremos chamando de empreiteiros meros mafiosos?

Aceitaremos o Hage, melífluo, sem jaça e graça, tentando valer-se da “leniência” para salvar as aparências?

Esqueceremos que toda ação de “famílias mafiosas” tem prévio conhecimento e aprovação do “Capo di tutti i capi?

Fingiremos que o BNDS não está a serviço da Cosa Nostra?Financiando projetos até mesmo em Cuba para irrigar os cofres das empreiteiras?

Caro VHS, não será assepsia, não bastará cirurgias, isolamento e extirpação de nódulos pustulentos.

Este organismo que hora nos governa não está doente.

Ele é a doença!

Onipresente, federal estadual e municipal, com variantes na trindade do poder.

Triste geração a minha, 61 anos assistindo iniquidades, sem esperança.

Resta-me sorrir, no próximo verso, por mais nua que seja a poesia.

Tim Tim!!!


vitor on 22 novembro, 2014 at 11:53 #

Luis Augusto

Delicioso exemplo de experiência pessoal com Walmir Palma, “Seu Porreta”, como lembra Vangelis.Narrado bem ao estilo Luis Augusto Gomes, único, diga-se (ou repita-se) a bem da verdade.

Eu estava presente na Facom UFBA na antológica palestra de Palma. Uma tarde para não esquecer.Grande abraço a vc e a Vangelis.

E quem souber que conte mais sobre seu Porreta!!!
Vitor Hugo


Chico Bruno on 22 novembro, 2014 at 13:29 #

O Palma almoçava quase que diariamente no Rui, na Ladeira da Praça. Se não me falha a memória, um dos seus pratos favoritos era o excêntrico ovos fritos com goiabada cascão.


vangelis.a on 22 novembro, 2014 at 13:44 #

O Restaurante Juarez, no Mercado do Ouro, tinha Seu Porreta como cliente quase assíduo, toda vez depois de degustar o filé mignon com aquela formula secreta, assado no “óleo diesel”, o garçom Alagoinhas perguntava:
– Pode encerrar doutor?
Seu Porreta respondia:
– Ainda não! Traga-me uma Brahma quente e um café gelado…
Surpreso um cliente que se encontrava à mesa ao lado questiona:
– Brahma quente? Café gelado?
Seu Porreta de imediato retruca com a delicadeza que lhe era peculiar:
– Por que não? Há alguma Lei que proíbe…
Fecha o pano que seu Porreta lá em cima de olho na gente.


gilson nogueira on 22 novembro, 2014 at 15:31 #

Hoje tem farra no Céu, em mesa de gente boa, como a dos jornalistas baianos que nos deixaram órfãos de sua companhia.
Em cima da mesa, além dos copos e das comidinhas celestes, lembranças, muitas lembranças da época em que Palma, Anízio, Armando, Sérgio, Pancho, Béu, Pastores, Adelmo, Genésio, França, Nonato, Chico, Bião, Alvinho, JU, Nízio e uma porrada de gente talentosa fazia jornalismo com idéias na cabeça e caneta na mão.
Muita saudade de vocês, galera porreta, mestres que participam, agora, da leitura, em conjunto, do BP.
Walmir, meu caro, tenho, em casa, uma folha de jornal, com foto sua, que só falta falar, dando aula aos alunos da Turma de 1971, da Ufba, aquela que fez o Vale do Canela tremer com a irreverência da moçada. No fundo da sala, na foto, em preto e branco, ao lado de Egnaldo Araujo, Tasso Franco, Paolo, Nívea, Eliezer, Sérgio, Alzirinha e outros colegas, fixo o olhar em você como se estivesse diante de um PHDeus em matéria de reportagem policial. Valeu!


vitor on 22 novembro, 2014 at 15:52 #

Isso, Chico Bruno e Vangelis.O Juarez, no Mercado do Ouro, e o Trivial Dona Maria (do Rui) eram preferências inegociáveis de Palma. Muitas vezes, depois de fechada a edição de A Tarde, a turma do “fechamento” ia junta, encerrar a noite e pegar a madrugada no restaurante da Ladeira da Praça. Seu Porreta na frente e não abria mão de tomar taxi para atravessar os menos de 500 metro que separavam a redação do restaurante. Lá, inúmeras vezes amanheci o dia cantando “O Pato” com o dono da casa, à moda de João Gilberto. Rui foi, até morrer, um dos maiores amigos de Palma.


luís augusto on 22 novembro, 2014 at 21:31 #

Tem aquela de quando, muito a contragosto, Walmir foi a Brasília, essas coisas de congresso de jornalismo.
Hospedado com a galera no Hotel Nacional, à noite, no restaurante, já se aborrecia com o garçom, porque não gostava de “homem falando no ouvido”.
Indagados sobre as bebidas, os presentes foram fazendo seus pedidos. Walmir pediu um Cointreau. Ante a observação, discreta, mas nem tanto, do garçom (“Cavalheiro, perdão, um Cointreau geralmente servimos após a janta”), Seu Porreta replicou, também baixinho, olhando pro cara: “Quem é que tá pagando?”


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