nov
21


Duquesa de Alba:figura referencial de Espanha

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DEU NO JORNAL ESPANHOL EL PAIS (EDIÇÃO BRASILEIRA)

Cayetana Fitz-James Stuart y Silva morreu aos 88 anos em Sevilha, na Espanha, cidade em que viveu seus últimos anos e na qual se casou pela terceira vez, o que foi seu penúltimo ato de rebeldia. Catorze vezes Grande de Espanha, era a chefe da Casa de Alba e figura de destaque na vida social, mas, acima de tudo, personagem única e inigualável, que não deixava ninguém indiferente. Nasceu em um palácio, o de Liria em Madri, mas sempre gostou de andar na rua e de desafiar as convenções. Fez isso até o fim de seus dias. Foi uma mulher que se impunha e chamava a atenção.

A primeira iniciativa dos Alba depois do falecimento foi comunicá-lo aos Reis, dom Felipe e dona Letizia. A notícia da morte foi anunciada publicamente pelo prefeito de Sevilha, Juan Ignacio Zoido, uma vez que a prefeitura se encarregará da organização de parte da cerimônia fúnebre. “Dona Cayetana sempre teve Sevilha no coração e por isso permanecerá para sempre no coração de Sevilha. Descanse em paz”, afirmou o governante em um tuíte.

A família – os seis filhos da duquesa, seu atual marido, Alfonso Díez, e seus netos – estava reunida no Palácio de Dueñas, de onde o corpo da duquesa foi levado para o velório, instalado no salão Colombo da prefeitura sevilhana, o espaço mais amplo do local. O caixão, sobre o qual foi colocado o escudo da casa de Alba, foi levado à Prefeitura pelos netos e familiares da duquesa. As bandeiras estão hasteadas a meio mastro e foi decretado um dia de luto por sua morte. O velório foi aberto às 14h10, hora local. “Ficará aberto enquanto houver sevilhanos que queiram se despedir dela ou enquanto a família determinar”, afirmou o prefeito de Sevilha.

O funeral será realizado nesta sexta-feira por Carlos Amigo, arcebispo emérito de Sevilha. O corpo de María del Rosario Cayetana Alfonsa Victoria Eugenia Francisca Fitz-James Stuart y de Silva será cremado. Parte das cinzas será depositada em uma capela lateral na igreja do Cristo de los Gitanos, a cuja irmandade pertencia a duquesa, e o restante será colocado no panteão monumental da Casa Ducal dos Alba, na localidade madrilena de Loeches.

O rei Felipe VI telefonou para o viúvo da duquesa de Alba, Alfonso Díez, e para o duque de Huéscar, Carlos Fitz-James Stuart – primogênito da falecida – para expressar suas condolências pela morte de Cayetana Fizt-James Stuart. Além disso, os Reis, dom Felipe, dona Letizia, dom Juan Carlos e dona Sofía enviaram coroas a Sevilha. O presidente do Governo, Mariano Rajoy, expressou seus pêsames e os do Governo à família pelo óbito em um comunicado no qual destaca sua faceta de mecenas e dona de um patrimônio histórico e artístico excepcional.

“Se eu não me meto na vida de ninguém, que não se metam na minha”, argumentou para poder se casar com Alfonso Díez, com quem, em 5 de outubro passado, completou três anos de casada. Uma união à qual seus filhos se opuseram inicialmente. Mas tudo mudou quando os assuntos da Casa de Alba se resolveram. Determinou por escrito a divisão dos bens, das sociedades, das terras, das casas – que chegam a um valor entre 600 e 3 bilhões de euros – e ficou claro que o último duque de Alba renunciava a quase tudo e se comprometia a cuidar até o fim de seus dias da aristocrata.


Caixão da duquesa chega à prefeitura
de Sevilha para ser velado esta sexta-feira

Cayetana de Alba dividiu a herança de forma desigual entre seus seis filhos, todos nascidos de seu casamento com Luis Martínez de Irujo – Carlos, Alfonso, Jacobo, Fernando, Cayetano e Eugenia. Também ficou decidido que seu neto mais velho, Carlos Fitz-James Stuart receberia o Palacio de Dueñas. Seus dois filhos mais velhos serão os principais encarregados da Fundación Casa de Alba, obrigados a conservar e manter todo seu legado histórico e monumental. Cayetano fica com o palácio de Arbaienea, em San Sebastián, e a fazenda de Las Arroyuelas, grande latifúndio sevilhano. Eugenia herda a mansão de Ibiza e outra fazenda em Sevilha, enquanto Fernando e Alfonso ficarão com a mansão de Las Cañas, em Marbella, e a propriedade, antigo castelo, de El Tejado, em Salamanca. Jacobo, sem dúvida, foi o mais prejudicado na divisão e obteve apenas propriedades. A decisão provocou o distanciamento entre a mãe e o filho, que recentemente foi contornado.

Manter o legado da Casa de Alba foi uma das grandes preocupações da duquesa. Jesús Aguirre, segundo marido de Cayetana, foi seu grande apoio nessa tarefa, restaurando grande parte da coleção pictórica, em colaboração com Rafael Alonso, curador do Museu do Prado, que desde 1978 se ocupou de cuidar das grandes obras da Casa. Em 2012, e com o apoio da Prefeitura de Madri, Cayetana de Alba mostrou parte de seus tesouro em uma exposição chamada “O legado da Casa de Alba. Mecenato a serviço da arte”. Foram exibidas 150 obras-primas – com telas de Ticiano, Ribera, Rubens, Zurbarán, Renoir, Chagall, Madrazo e Zuloaga – entre as quais se destacam a pintura sobre madeiraA Virgem da granada, de Fra Angélico, realizada entre 1430-1440, e o Retrato da duquesa de Alba de branco, de Francisco de Goya, que data de 1795.

O público pôde contemplar, além disso, uma coleção de cartas escritas por Cristóvão Colombo, entre elas a que inclui um desenho rascunhado da ilha à qual chegou e batizou de La Espanhola, assim como um Nobiliário das Índias, onde eram elencados os títulos e privilégios concedidos aos conquistadores, indígenas e também cidades da América, em um repertório documental excepcional.

A reconstrução do palácio de Liria de Madri foi outra das missões da duquesa depois de receber o testamento de seu pai, morto em 1953. Em um quarto desse palácio ela nasceu, em 28 de março de 1926. Foi a primeira e única filha de Jacobo Fitz-James Stuart y Falcó, XVII duque de Alba, e María del Rosario de Silva y Gurtubay, X marquesa de San Vicente del Barco. Teve como padrinhos de batismo o rei Alfonso XIII e sua esposa, a rainha Victoria Eugenia. Desde muito jovem foi uma mulher do mundo e viveu muito tempo no exterior. Quando a Guerra Civil estourou, morou em Paris e depois em Londres, onde se aproximou da futura rainha Isabel. Falava inglês, francês, alemão e italiano.

Devido a sua vida social e seu interesse pela arte, Cayetana se relacionou com vários artistas e personalidades, de Jackie Kennedy a Grace Kelly e Yves Saint Laurent. Ela mesma contou que Picasso quis que ela fosse modelo de uma nova versão do quadro La maja desnuda, mas o projeto não vingou pela oposição do marido Luis Martínez de Irujo. Mas, de criança, foi retratada sobre um pônei por Zuloaga. Uma de suas grandes paixões foi o flamenco e destacou-se na dança, tendo como mestre, entre outros, Antonio el bailarín.

Seus últimos dias foram passados em sua casa de Dueñas, onde seu terceiro marido lhe instalou uma tela de cinema para que desfrutasse de uma de suas grandes paixões. Nela assistiu seus filmes favoritos, entre eles Retrato em negro, com Lana Turner e Anthony Quinn, e Assim caminha a humanidade, com Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Havilland. Foi embora sem se entregar, pensando que ainda tinha muita vida pela frente e tempo para continuar sendo a rebelde que sempre foi.

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