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CRÔNICA

Empreiteiros e políticos, um clube sem inocentes

Maria Aparecida Torneiros

Quando li a primeira versão da vida do repórter Samuel Wiener lembro que havia uma referência ao Clube dos Empreiteiros que detinham um grande poder sobre os governos municipais já que as Prefeituras e seus governantes faziam acordos para a realização de grandes obras e por baixo dos panos as candidaturas eram assim financiadas. A citação se referia a um prefeito famoso e muito querido de Belo Horizonte que transformou arquitetônicamente a capital mineira e mais tarde virou Presidente e fez nada menos que Brasília.

No texto nem JK e nem os Empreiteiros aparecem taxados de corruptos ou Corruptores mas há uma clara afirmação do poder que o tal Clube sempre teve no conjunto das trocas entre Governos e Empresários.

Um pacto silencioso de décadas ou séculos permeou até agora essa relação que plica em contratos e licitações concorrências e canteiros de obras. As brechas para a corrupção devem ter se aprimorado e o tal mundo de clube tão assediado deve ter se esmerado e ampliado métodos de ação em face da tal impunidade reconhecida.

Talvez em bom português do setor jurídico o crime de irresponsabilidade na Gestão pública assuma mesmo a piada de acabar em pizza ou a nuance que separa a semântica entre suspeito ou culpado passe por tantos estágios de classificação gradativa. De réu a condenado há um caminho a percorrer. De julgado a inocentado com certeza os trâmites dos tribunais sugerem defesas e investigações como também acusações e provas que ao fim e ao cabo lotam de informações os autos da justiça e os livros de história.

Quando nos anos 80 fui professora de Teoria da Comunicação em cursos de Jornalismo usei para algumas pesquisas o livro sobre a trajetória de Samuel Wiener organizado pelo jornalista Augusto Nunes. Anos depois o livro foi reeditado com nova formatação e mais detalhes da história do fundador do jornal Última Hora que surgiu para defender o trabalhismo no Brasil dos anos, 50.

Nele há uma citação de que os Empreiteiros detinham uma parcela de poder sobre os políticos e que isso era antigo e próprio da nossa cultura.
Passaram-se mais de 60 Anos da era Vargas e da era JK. Tivemos os anos da ditadura militar e suas obras faraônicas com usinas e estradas . Depois nos acostumamos aos escândalos e Cpis. Muitas denúncias. Eleições diretas e novas eras presidenciais de partidos que alternaram poderes em esferas. Tucanos ou petistas, sejam pmdebistas ou de outras agremiações partidárias há sempre o discurso moralizante que esbarra no modelo vigente.
Na prática quando estouram no noticiário os vazamentos da corrupção como prática profissionalizada há uma corrida para minimizar os efeitos desmoralizante da roubalheira consentida. Nesse tipo de clube não há inocentes em tese. Pode até não se provar culpas mas o simples silêncio diante do jogo sujo já se constitui delito de consciência.

Polícia Federal prende suspeitos de serem Corruptores e estes são bem vindos ao Clube dos Punidos. Talvez por algumas noites dormindo no chão em corredores enquanto se decide seu futuro. O passado quem vai revelar é a história. Talvez dentro de mais algumas décadas.

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

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Comentários

Cida Torneros on 20 novembro, 2014 at 2:49 #

Operação Mãos Limpas na Itália há anos atrás foi precursora de reviravolta semelhante. O Brasil merece sacudir um quadro tão viciado de ações fora da lei. As novas gerações é que poderão ter outras referências de respeito e dignidade. Só o tempo e a história dirão todas as verdades. Esperemos que haja justiça e punição.


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