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Cidadãos dos dois lados de Berlim celebram sobre o Muro a abertura da fronteira em 9 de novembro de 1989. / Fabrizio Bensch (Reuters)

DEU NO JORNAL ESPANHOL EL PAIS (EDIÇÃO DO BRASIL)

Neste fim de semana, Berlim voltou a ser uma cidade dividida. Oito mil balões desenham uma linha luminosa de 15 quilômetros de extensão, um traçado que durante a guerra fria foi uma das fronteiras mais vigiadas do mundo. Mas quem sair às ruas em 9 de novembro não encontrará o muro de 3,6 metros de altura que dividiu Berlim – e, de certa forma, o mundo inteiro – entre 1961 e 1989. Sob o lema “valor à liberdade”, os cidadãos celebrarão o 25º aniversário do dia em que tudo mudou. Desde então, qualquer um pode viajar tranquilamente de Dresden a Hannover, sem ir para a cadeia ou perder a vida, como ocorreu às quatrocentas pessoas que morreram tentando abandonar a Alemanha socialista.

“É incrível. Nunca pensamos que poderíamos estar aqui”, dizia naquela noite inesquecível um jovem a repórteres de televisão em um vídeo hoje disponível para qualquer um no YouTube. Diante de um Portão de Brandemburgo às escuras, os entrevistados diziam a quem quisesse ouvir que não pretendiam ficar na parte ocidental da cidade. Só queriam ver como era o outro lado e voltar para casa. Vinte e quatro horas mais tarde, e não muito longe dali, Willy Brandt pronunciaria um discurso histórico. “Nada voltará a ser como antes. Sempre soube que a separação de concreto, arame farpado e faixa da morte ia contra a corrente da história. Disse isso no verão, sem saber que aconteceria tão rápido: Berlim viverá e o Muro cairá”, bradou o antigo chanceler e prefeito de Berllim durante a construção do muro da vergonha.

Já antes daquele 9 de novembro, alguns acontecimentos – como a eleição do primeiro Governo não comunista na Polônia em 40 anos ou a abertura da fronteira entre a Hungria e a Áustria – mostravam a decomposição do bloco comunista. Mas as imagens de cidadãos esfuziantes sobre a barreira de cimento que tinha marcado suas vidas, ou dos Ossis (a palavra com que os alemães se referem coloquialmente aos do Leste) com lágrimas no rosto pisando pela primeira vez o outro lado de sua cidade se tornaram um ícone do século XX. “A queda do Muro teve uma força simbólica incomparável. De uma tacada, mostrava-se o desgoverno da Alemanha Oriental, a resistência das tropas soviéticas a imiscuir-se em sua teórica zona de influência e o êxito do movimento popular que exigia liberdade”, explica o historiador Jürgen Kocka.

Muitos alemães do Leste saudaram a construção do muro, em 1961, como uma oportunidade para estabilizar a Alemanha Oriental. E, de certa forma, tinham razão: sem ele, o regime socialista resistiria apenas alguns meses. O êxito democrata-cristão nas primeiras eleições livres, celebradas em 18 de março de 1990, pavimentou o caminho para a integração dos cinco Estados do Leste e Berlim Oriental à República Federal, que seria oficializada em 3 de outubro desse mesmo ano.

Passado o tempo, parece que o fim do Muro, a derrocada da Alemanha Oriental e de todo o bloco soviético e a reunificação das duas Alemanhas era uma sequência inevitável. Contudo, no outono de 1989, nada estava escrito. De um lado e outro da fronteira havia muita gente que não desejava um só país. Uns pensavam que o horror do nazismo invalidava a existência de uma Alemanha unida e forte, outros temiam os custos da reunificação e, no Leste, muitos preferiam uma Alemanha Oriental reformada que não fosse absorvida pelo Ocidente.

As reticências não vinham só de dentro. Líderes como a britânica Margaret Thatcher fizeram todo o possível para manter o equilíbrio estabelecido no Continente depois da vitória aliada sobre Adolf Hitler por temor a um poder excessivo do país que tinha protagonizado duas guerras mundiais nos últimos 75 anos. Mas a reunificação finalmente aconteceu. Dois fatores foram decisivos: o reconhecimento, por parte do Governo de Helmut Kohl, da fronteira com a Polônia traçada após a derrota do nazismo e o apoio soviético a uma Alemanha unificada membro da OTAN.

“As dúvidas eram compreensíveis, mas os temores de um renascimento do nacionalismo alemão não se cumpriram”, acrescenta Kocka, presidente emérito do Centro de Pesquisa Social de Berlim. “A mudança saiu bem, mas não nos esqueçamos dos perdedores da reunificação. As gerações que ficaram sem emprego e que tiveram de reorganizar sua vida profissional com muitos esforços”, acrescenta o cientista político Gero Neugebauer.

A nova Alemanha se orgulha de seu passado mais recente. “Quase todos os jovens do Leste acham que foram beneficiados pela reunificação. Isso demonstra que nesses 24 anos não fizemos tudo mal, pelo contrário”, disse a chanceler Angela Merkel em 3 de outubro, nas comemorações do 24º aniversário da reunificação.

Fora de suas fronteiras, o último quarto de século serviu para a Alemanha consolidar seu poder na União Europeia, um clube construído no equilíbrio do eixo Paris-Bonn. O primeiro contribuía com uma maior autonomia política, enquanto o segundo ostentava superioridade industrial e econômica. Mas faz tempo que essa divisão de poderes não funciona mais.

A reunificação, a ampliação da UE para o Leste – onde Berlim goza de uma influência crescente – e a crise econômica do sul do Continente escoraram o poderio alemão. Merkel não apenas influencia mais que ninguém a tomada de decisões em Bruxelas, como também quer exercer seu poder. Os líderes do país insistem que chegou a hora de assumir uma maior responsabilidade internacional. A política externa alemã já não tem complexos. Um primeiro aviso foi a intervenção em Kosovo aprovada em 1999 pelo Governo de social-democratas e verdes chefiado por Gerhard Schröder, a primeira depois da II Guerra Mundial. Quinze anos mais tarde, Berlim quer ter um papel ativo na resolução de conflitos como o da Ucrânia ou o jihadismo na Síria e no Iraque.

“A Alemanha está em um dilema. É indubitável seu maior poder político e econômico. Mas, ao mesmo tempo, não quer uma posição de liderança na UE. Recusa-se por razões históricas, depois de suas tentativas de domínio militar no século XX. E também por motivos econômicos, porque então teria de estar disposta a renunciar a parte de sua riqueza para ajudar aos sócios com mais problemas”, resume Neugebauer, professor da Universidade Livre de Berlim. Essa Alemanha ambivalente é que festeja, neste fim de semana, os 25 anos de reconciliação com 8.000 balões que iluminarão uma cidade que já se acostumou a ser uma só.

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