Berlim:Balões luminosos no lugar do Muro
===========================================================

CRÔNICA DOMINICAL

O Cão, o Jardim e o Muro

Maria Aparecida Torneros

Bom dia, disse o cão para o jardim. Podia ser uma fabula, daquelas dos tempos infantis. Imaginemos resposta de um jardim que fala. – Obrigada, lindo cachorrinho, desejo a você também um dia feliz, daqueles em que não se lembre de nada difícil, em que possa ter muita esperança e curta o azul do céu sem pensar na poluição .

E o bichinho sai correndo e pulando sobre a grama, rabo em riste, balançando a cauda, eufórico, ele late risonho, o mundo parece feliz, as flores dançam ao sabor da brisa, as crianças saltitam, jogam bola, dão gargalhadas.

Elas nem sabem dessas histórias macabras como os 25 anos da queda dom muro de Berlim. Meninas e meninos na tenra idade, devem crer que imagens de guerra sejam ficção e torcem pelos vencedores que são heróis fantasiados, estão nos games, abatem inimigos imaginários, porque depois vovós e tias chamam para lanches deliciosos enquanto mamães e papais trabalham, viajam, telefonam, e nas voltas, trazem muitos presentes.

Mas, quando meninos e meninas despertam dos seus sonhos, ouvem tiros, de verdade, em comunidades sitiadas. Choram de medo, nem podem ir brincar nos jardins públicos , alguns estão até em Campos de refugiados, perderam pais , mães , avós e estão sozinhos com medo.

Se crescem um pouco, descobrem que o mundo anda cheio de lugares estranhos, ódios entranhados, progressos devastadores, naturezas depredadas, em crises climáticas , em crises de identidade humana, em maltratos a animais e a jardins.

– Mau dia, resmunga o Cãozinho solitário espreitando a chegada da chuva para que haja água e esperança de sobrevida para flores e frutas.

– Ah, finalmente chega aquela primeira criança com a manhã nublada, ele correr para ela, que o acaricia, sorri, trouxe uma bolinha para brincarem.

Bem, podia ser pior, o cachorro pensa, e desliza as pastas em busca da bola que agarra com os dentes e traz de volta para as mãos da menina. Resolve perguntar seu nome. Ela grita, Esperança , já atirando novamente o brinquedo, e prosseguindo na história de faz de conta que posso ser muito feliz na Terra.

O jardim se engalana. As flores dançam , mais crianças chegam, outros cães também , e a chuva começa a garoar. Lá fora , se há bombas e ódios , pobreza e desigualdades, a gente não quer saber, vamos erguer novo muro, cercaram os jardins onde ainda podemos brincar e sermos felizes, mas, como aconteceu em Berlim, um dia, alguém pode derrubá-lo e nunca estaremos a salvo de ideologias totalitárias ou de sonhos impossíveis.

Mesmo assim, no tempo em que os animais falavam, eles nos desejavam bom dia, se me lembro bem!

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, on edita o Blog da Mulher Necessária

Be Sociable, Share!

Comentários

Cida Torneros on 9 novembro, 2014 at 4:52 #

Parabéns ao povo alemão e ao mundo onde a esperança de paz e o respeito às diferenças sobrevivem. Bom domingo!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos