Suassuna:aula espetáculo
em tributo a Capiba

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São os do Norte que Vem

Vitor Hugo Soares

“São os do Norte que vem/Seu sonho de vastidão/Valente sou do meu mundo/Galopa meu alazão./Não vim pra ficar, eu vim pra ensinar.

(Versos da canção “São os do Norte que vem”. Música de Capiba e Ascenso Ferreira, letra de Ariano Suassuna, ficou em quinto lugar no II Festival Internacional da Canção Popular, em 1967, no Rio de Janeiro, mas é sucesso no Nordeste até hoje)

Fato consumado, diz o samba famoso, síntese para estas linhas sobre a eleição presidencial, que segue dando o que falar e rendendo desavenças, choques políticos, ideológicos, preconceitos e muita marola dentro e fora do Brasil. Digo isso pelo bafafá interno desde o domingo de outubro, 26, da proclamação do resultado em ato festivo – mais político que institucional, comandado com deslumbramento pelo ministro Dias Toffoli, presidente do TSE – , e pelo que acompanhei lá de fora, nos dias seguintes.

Ainda com os zumbidos no ouvido e tonto com o barulho da radicalização (principalmente nas venenosas e envenenadas redes sociais, mas também na “imprensa falada e escrita”, para usar expressão bem soteropolitana e nordestina), peguei um avião e fui passar uns dias em Santiago do Chile.

Não partí em fuga (não é do meu estilo). Também não fiz promessas, tipo a do roqueiro Lobão. Fui, a exemplo do que já havia feito em outros momentos cruciais (pessoal e profissionalmente falando, ou relacionados com um momento da história do país), em busca da ambiência e dos ares da Cordilheira dos Andes. Nas margens chilenas da costa do Pacífico, ou do Rio da Prata, na Argentina, não conheço lugar melhor para reflexão e para oxigenar o pensamento.

Salvo as margens serenas às vezes, às vezes encrespadas, do São Francisco, o rio da minha aldeia. Mas ele, desta vez, também está no olho do furacão das paixões nacionais em choque e do engodo eleitoral. Afirmo: valeu à pena ter ido.

É ótimo, também, já estar de volta “aos domínios conflagrados de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). E de seus exércitos de seguidores e arautos (cada um com mais de 50 milhões de votos de respaldo político e força eleitoral) depois da rápida, tranqüila, estimulante e pedagógica passagem pelo progressista, moderno, educado, culto e cada vez mais atraente e desenvolvido pedaço dos Andes governado pela socialista Michelle Bachelet.

Seja agora o que a vontade do povo determinou e o que Deus quiser. É assim (e só assim) que as democracias funcionam, sobrevivem e florescem. No mais são as análises para todo gosto. É o livre direito de festejar de quem venceu. Pelo tempo que quiser, julgar conveniente e a situação nacional suportar, porque a conta dolorosa da campanha já começa a ser cobrada pelo aumento da inflação (afinal reconhecido pela mandatária), o aumento dos combustíveis que começou a vigorar nos postos na madrugada de ontem (7), e a verdade destampada do aumento de miseráveis no País, pela primeira vez nos últimos 10 anos.

Que se acate, igualmente, o direito de reagir, cobrar e espernear dos que não se deram bem na refrega eleitoral, ou não tanto quanto esperavam. É do jogo democrático.Ateu que acredita em milagres, antes de embarcar, ainda em meio à saraivada de agressões e preconceitos contra os nordestinos, pedi amparo e paciência ao poderoso Santo Antonio da Glória, além de socorro da memória, que me conduziu ao tempo de menino e começo da juventude na beira do Velho Chico, entre a Bahia e Pernambuco.

Estados divididos pelas águas e a vida pulsantes e sempre surpreendentes nas duas margens das barrancas. Vulcões submersos. De tempos em tempos despertam. Explodem em erupções formidáveis, estranhas , incontroláveis. Não raramente de forma desconexa e aparentente sem sentido, lançam chamas e lavas escaldantes sobre o país inteiro e sacodem o gigante. De um lado e do outro do rio, mas também de uma região inteira, chega o recado mais poderoso e desconcertante das urnas de outubro passado. É precico, dos dois lados, saber e querer escutar o que essa gente pensa e diz a seu modo.

E o Nordeste segue falando depois da mensagem das urnas. Leio no jornal espanhol El Pais, que a região foi a responsável por cerca de dois terços dos empregos criados no Brasil no último ano, segundo dados do IBGE divulgados na quinta-feira. Os dados mostram ainda que a região, que tem 26% de habitantes em idade de trabalhar no país, foi responsável por um terço das vagas com carteira assinada ampliadas. O Nordeste continua, ainda assim, na dianteira na taxa de desocupados (8,8%), contra 6,9% e 4,1 do Sudeste e do Sul, respectivamente. Contraste, que cobram atenção e desvendamentos. De petistas e tucanos. De crentes e comunistas.

Lembro de 1967, no II Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Então, a voz possante de Claudionor Germano surpreendeu o País e o mundo ao interpretar “São os do Norte que vem”. Música da dupla de mestres Capiba e Ascenso Ferreira, com letra do imenso e saudoso Ariano Suassuna.

“Vim galopando no ar/Caminhos de estrelas de sol para o mar,
Mostro que lá no sertão,/Galopo a vontade, se assim desejar.
Ai, eu vim ensinar”, diz um dos versos primorosos da canção gravada também por Nelson Gonçalves e Maria Bethânia.

Jamais esqueçam da lição.

Vitor Hugo Soares é jornalista. Editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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