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CRÔNICA

Sobre preconceitos, volvos e chevettes

Janio Ferreira Soares

Não satisfeita em ser a cidade brasileira mais habitada por nordestinos, São Paulo, com sua insaciável mania de grandeza, agora também pode gabar-se de possuir em seu território um pedaço literal do sertão. Trata-se do Sistema Cantareira (conjunto de barragens que abastece a cidade), que aos poucos está se transformando num imenso deserto de solo rachado, exatamente igual aos que abundam por essas bandas. Pois muito bem.

Numa dessas coincidências bacanas que o acaso apronta, este fenômeno calhou de acontecer bem na hora em que uma espantosa onda de preconceito contra os de cá toma conta da ex-terra da garoa, como se ela, veja a ironia, não fosse formada por diversas arapiracas cercadas de pequenos cabrobós, chorrochós e cariris por todos os lados. Vá entender.

Mas o grande barato disso tudo é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e…., ops, sem querer (querendo), o mote acabou me levando a descambar na bela canção do cearense fujão – contudo retomo a meada no embalo da sequência.

Nessa espécie de caça ao eleitor expiatório, surpreende saber que para essa casta que se acha tão intelectualmente superior (e não se cansa de demonstrar seu alto grau de discernimento elegendo figuras do quilate de Maluf, Pita, Tiririca, Celso Russomano e Agnaldo Timóteo), nós somos os principais responsáveis pelo país não virar uma Suíça e, portanto, deveríamos, sei lá, ser confinados em algum auditório gigante no Tatuapé, onde seríamos treinados pela equipe de Silvio Santos, só ganhando a liberdade quando estivéssemos aptos a acertar o nome da música logo no primeiro toque do piano do maestro Zezinho.

Mas enquanto Pablo não a canta, tome ameaças aos conterrâneos do gentil maitre pernambucano, desferidas pelos mesmos senhores engravatados que o chamam pelo diminutivo do nome, não por intimidade, mas para demonstrar que evoluíram no quesito senzala (detalhe: todos sonegam impostos e superfaturam notas desde o governo Ademar de Barros).

E tome cacete nos conterrâneos da cozinheira alagoana que leva as visitas à loucura com sua carne seca desfiada em leito de purê de jerimum e que, antes de pegar quatro ônibus para chegar em casa, ainda tem de sorrir quando a patroa, complementando os elogios dos comensais, diz: “ela é como se fosse da família, não é, Das Dores?”.

E tome xingamentos nos conterrâneos do simpático manobrista paraibano que abre a porta do Volvo da madame e, mais tarde, ao voltar pra casa dirigindo o seu carrinho com um escudo do Campinense no vidro traseiro, será chamado de “Paraíba filho da puta que não sabe votar e ainda atrapalha o trânsito”, provavelmente pela mesma madame que, sem saber, estará protagonizando uma infeliz adaptação na letra de A Flor e o Espinho (genial canção de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha – que cai como uma luva nesses tempos de quase inquisição eleitoral -), cuja primeira linha seria: “Tire o seu Chevette do caminho, que eu quero passar com meu rancor”.

No mais, sugiro às autoridades que mudem o nome do reservatório para Raso da Cantareira. Quando nada, os sertanejos terão um ponto de referência na hora do êxodo da sub-raça.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 8 novembro, 2014 at 12:48 #

Caro Janio

Desânimo!

É o que resta após ler teu devaneio.

Não o constesto, até compreendo, não o texto, mas o autor em falsa cruzada.

Devemos ao marqueteiro, ele conseguiu, sangrou o que era pálido, azedou o que não tinha gosto, pintou de vermelho a ausência de cores.

Confesso, só não choro porque minha tristeza já é grande.

Abraços de um paulista que adora Tom zé, Capinam, e pede benção a Caymmi.


luiz alfredo motta fontana on 9 novembro, 2014 at 7:45 #

Pesadelo!

Deveria ter parado na segunda dose, não o fiz…

Não deu outra, sonhei que fugia alucinado, em pleno Pelourinho, sob os gritos:

-Paulista!

– Pegue!

– Em nome de João Santana, nosso mentor!!!

É o que dá, ultrapassa-se a quarta dose, mas nunca o retrocesso. Idéias tortas vicejam.


Janio on 9 novembro, 2014 at 11:34 #

Grande poeta, espero que tenha sido um Germana de boa cepa com um bocadinho de tropeiro e, de quebra, Milton e Tom Zé cantado Pour Elis na vitrola.
Em tempo: acredito que o velho marqueteiro é apenas mais um desses baianos que o anjo de Drummond, de passagem por Tucano, colocou a mão na cabeça e disse: “vai Patinhas, ser mais um grande João no mundo”.
A propósito, outro dia fiquei matutando o que poderia ter acontecido se ele tivesse feito o programa de Aécio.
Imagine o senador embaixo de um umbuzeiro num fim de tarde do sertão, tomando um café feito num fogo de gravetos, batendo um papo com dona Nalvinha e seus 10 filhos.
Lá pelas tantas ele pergunta como é que ela faz pra sustentá-los, e ela responde que é graças ao Bolsa Família.
Ele então segura suas mãos, olha nos seus olhos e diz que esse auxílio foi uma excelente ideia de Lula (nenhum beneficiário daqui dá a mínima pra saber quem foi o autor do projeto) e que ela pode ficar tranquila que ele não só irá manter a ajuda, como vai aumentá-la.
A câmera se afasta lentamente mostrando o Sol morrendo atrás da caatinga, e toca uma melodia na sanfona, estilo Dominguinhos.
Rapaz, tenho quase certeza de que, se assim fosse, Dilma não teria tido 91% dos votos na Batatinha. Abração


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