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Postado em 04-11-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 04-11-2014 00:37


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CRÔNICA
Um médico à moda antiga

Maria Aparecida Torneros

O doutor já passou dos sessenta mas está inteirão e atlético. Chego bem dolorida e curvadinha. Tenho sessenta e muitos.  Ele é  minha esperança  no auge dessa crise crônica.  Na verdade  a Consulta médica dá  origem a esta  crônica  quase poética.
Em minutos,  trocamos impressões  de viagem  e geração.  Ele tenta me animar mas receita injeção  e outros medicamentos.  Manda também  fazer sessões  de reeducação postural global e voltar em uma semana.  Vai prescrever o uso de um colete.  Faço  beicinho. Ele percebe.  Conto que fui anteontem ao terapeuta porque penso em ir para uma casa de repouso no ano que vem.  Ele pega carinhosamente na minha mão  e escreve o nome de um hotel fazenda em seguida.

Diz que fica em São  Lourenço.  Saio de lá  imaginando  a picada que marco para amanhã.

Mas,  curiosamente,  em casa,  busco na Internet  o tal Ramon hotel fazenda.
Encontro sua bela dica com imagens  e programação.
Fica em mim aquela leve sensação  de bem-estar  de algum dia chegar a esse lugar de descanso e paz.

Mas,  sozinha,  e de colete?  Ora,  doutor. Agradeço  seu gesto de médico  raro porque mostrou-se humano  e  piedoso, mas  neste momento,  de verdade,  ficar quietinha  no meu canto,  é  o que me encanta.

Deixo passar as horas,   enviesada,  e sigo,  meu respeitoso  senhor.  Pronta  estou para tratar das dores e más  posturas.  Os fardos que pesaram sobre minhas costas deixaram marcas  mas também  me tornaram esta heroina  solitária.

Grata por sua atenção  e seu cuidado.  Vou sim,  seguir o tratamento  e até  adiar a tal decisão  da casa de repouso.  Porém  a ida ao Ramon  ponho no limbo do sonho.
Muita estrada e muita volta.  Muito chão  e muito não.  Melhor  cancelar a ilusão  e me ajeitar assim com cada limitação feminina   ou masculina pouco importa.  Falta hormônio  e falta fôlego.  Também  não  sinto força  para encarar  montanhas e serras.  Mesmo assim valeu sua intenção  de me elevar a moral e aprumar meu esqueleto curvado.  Obrigada novamente.

Pelo menos achei um médico  à  moda antiga que me viu além  da dor e me desejou sorrisos.  Se foi coisa de Deus nem sei.  Em sexta-feira  de Bruxas  um novo amigo é  tão  bom. Mesmo que eu não  vá passear no hotel  fazenda Ramon.

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro. É editora do Blog da Cidade, onde o texto foi originalmente publicado.

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Comentários

Cida Torneros on 24 Fevereiro, 2015 at 10:48 #

Agradeço também ao coordenador Paulo Lima do hospital São Victor, Tijuca. Rio de Janeiro, por sua atenção em momentos meus de dor e necessidade de apoio.


Cida Torneros on 4 Maio, 2016 at 17:27 #

Em período de acompanhamento de minha mãe desde que quebrou o braço em março, eu mesma e constantes crises de coluna, convém aludir a importância do papel positivo que cada médico ou médica exerce em nossas vidas. Que eles e elas tenham luz para seguir cumprindo suas missões que alentam e salvam nossas vidas. Um beijo especial para a Dra. Maria Heloísa Minha ginecologista, e para o ortopedista Sunderland Mattos Medeiros pela dedicação e paciência comigo que tenho sido uma “impaciente” um tanto difícil de aturar. Os médicos Fernando La Greca e Marcelo Marques, cardiologista e geriatra de mamãe também merecem meus sinceros agradecimentos. Ainda são médicos à moda antiga que nos atendem com carinho e atenção. Mil obrigadas.


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