Nesta gravação, Paulinho da Viola com Elton Medeiros.

14 ANOS

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor

Mas a minha aspiração
Era ter um violão
Para me tornar sambista
Ele então me aconselhou
Sambista não tem valor
Nesta terra de doutor
E seu doutor
O meu pai tinha razão

Vejo um samba ser vendido
E o sambista esquecido,
O seu verdadeiro autor
Eu estou necessitado
Mas meu samba encabulado
Eu não vendo não senhor

nov
02

O QUE ACONTECEU?

Estive fora do país. Aconteceu alguma coisa na minha ausência? É difícil dizer pela cara das pessoas. Estão todas com um ar estranho. Com algumas você fala e elas rosnam, outras só riem. O que foi que aconteceu, gente?

Me sinto um pouco como alguém que chega num lugar depois de uma festa — ou de um furacão — e tenta reconstituir o que houve pelos vestígios que encontra. Uma calcinha pendurada num lustre que ainda balança. Pedaços de pizza espalhados pelo chão. Um taco de golfe com sinais de ter sido usado numa cabeça. Um canguru empalhado com uma camiseta do Vasco. E como este trombone veio parar dentro do sofá?

Estou tentando entender o que se passou. As poucas pessoas que conseguem parar de rosnar ou de rir e falar comigo não ajudam. Deduzi que houve uma eleição. Nada demais. Eleições costumam acabar com derrotados e vencedores, inconformados e satisfeitos, ressentidos e celebrantes. Nada mais normal. Nada, principalmente, que justifique o taco de golfe na cabeça ou a euforia desmedida. Mas esta eleição — ainda estou deduzindo — foi diferente.

Ouço explicações desencontradas:

— Mais uma vez os nordestinos atrasam o Brasil. Só matando!

— Mais uma vez o Brasil carente reconhece o que o PT está fazendo por ele e lhe dá um voto de confiança!

— A esquerda está levando este país para o abismo!

— O povão deu uma resposta para a direita hidrofóbica!

Senti que não adianta pedir calma, ponderação, conciliação e diálogo — você corre o risco de apanhar. Talvez mais do que qualquer outra eleição, legítima ou engendrada, na história do Brasil, esta vai requerer tempo para reconciliação ou esquecimento, que não virão tão cedo.

Ou talvez eu tenha entendido errado. Foi tudo apenas outro episódio — um pouco mais feio do que outros — na vida de uma democracia em pleno funcionamento. Ou seja, nada mais normal.

Luis Fernando Verissimo é escritor e colunista dos jornais “O Globo” e “Estadão”.

  • Arquivos