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Postado em 30-10-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 30-10-2014 15:13

Por Javier Moreno, do El País

A primeira pergunta a Michelle Bachelet parece obrigatória em um país em que todos os mandatários desde o final da ditadura do general Augusto Pinochet, com exceção do presidente Aylwin, certamente devido à sua avançada idade, tentaram ou tentam voltar a governar: o presidente Frei, o presidente Lagos, ela mesma —a primeira a consegui-lo— e agora o presidente Piñera, que, apesar de ter deixado o cargo em março, já pensa na reeleição, de acordo com a convicção generalizada em Santiago do Chile. Por que a senhora voltou?, perguntei, para iniciar a conversa com a presidenta, que me recebeu na semana passada no Salão Azul do Palácio de la Moneda, diante da impressionante pintura Espejo de Cronos (3,9 metros de altura por 4,87 metros de comprimento) do artista chileno Roberto Matta, enquanto que do Patio de los Cañones chegava, muito apropriadamente talvez para refletir sobre as seduções e os limites do poder, a música militar que os soldados ensaiavam para a cerimônia da troca da guarda. Por que esse segundo mandato de alguém que sempre declarou que o poder nunca lhe pareceu sexy em si mesmo e que nunca sentiu ter vício algum pelo seu exercício?

—Eu não sou de modo algum apegada ao poder. E principalmente quando, como presidente da República, uma pessoa sabe quando tem momentos gloriosos e momentos muito duros e difíceis. Portanto, o motivo para voltar não é por ser viciada neste cargo, de jeito nenhum, mas por ter a convicção de que no Chile havia desafios pendentes. E um grupo importante de pessoas achava que devia ser eu a conduzir esse novo processo. Foi uma decisão que me custou muito tomar.

—Que erros de seu primeiro mandato não cometerá de novo?

—Os erros mais importantes que eu cometi, ou o Governo, foram quando não nos pusemos no lugar exato do que acontecia com as pessoas. Eram boas ideias, mas no final as consequências não foram as melhores. Agora há uma nova etapa, mantemos tudo de bom de antes e mudamos o que não funcionou, ou as novas tarefas que é preciso assumir. Às vezes a gente quer fazer políticas que mudem culturas, que modifiquem situações. Não se trata de sempre manter o mesmo, porque, do contrário, não se poderia progredir. Mas justamente quando há essas mudanças é preciso se dar tempo, ou um período gradual ou a ação pedagógica adequada para que esse processo não seja dramático.

É precisamente a falta desses tempos e o menosprezo à gradualidade do ato de governar o que seus críticos mais ácidos lhe reprovam agora. Em comparação com a Bachelet moderada do primeiro mandato, a Bachelet radical e populista do segundo, propalam. O certo é que desde que chegou de novo ao poder, em 11 de março, o Governo de Bachelet vem mantendo um ritmo frenético em suas propostas de mudança: uma profunda reforma fiscal, uma modificação do sistema eleitoral, herdado de Pinochet, medidas para enfrentar as deficiências crônicas do país em energia, e uma reforma radical do sistema educacional, não unicamente no financiamento, mas também em sua estrutura, desde o “berçário” até a universidade.

Até o fim do ano se espera uma lei de aborto e uma reforma trabalhista. Tudo isso em meio de uma desaceleração econômica que, embora já tenha começado no final do mandato de seu antecessor, se acentuou por causa do recente enfraquecimento econômico regionale global.

A propósito da reforma fiscal, a que tem provocado mais barulho, bem como a educacional, pergunto à presidenta se, como ela dizia antes, os tempos foram balanceados. Ou, se não foram, se isso criou tensões desnecessárias. A reforma foi aprovada unicamente com os votos da coalizão do governo, e só no final, ante a evidência de que iria passar pelo Senado sem alterações, houve conversações com a oposição, foram aceitas algumas de suas emendas e a lei saiu por consenso.

—Os empresários, que sempre se mostraram contrários ao aumento de tributos, criticaram a tensão e a incerteza. Poderia ter sido enfocado de outra maneira desde o princípio, sem esses três ou quatro meses de irritação contínua?

—Quem sabe?  Talvez se não tivesse passado o primeiro, não teria passado o segundo. A única coisa que eu quero dizer é que recebi todos os partidos aqui, nesta mesma sala, e a todos eu disse o mesmo: se todos vocês têm propostas –desde o começo, não na segunda parte, desde o princípio– que melhoram a nossa proposta, mas que mantenham dois objetivos fundamentais da reforma, o de arrecadar 8 bilhões de dólares (cerca de 20 bilhões de reais) e o avanço em equidade tributária, (apresentem-nas). Esses dois critérios, se forem mantidos, eu não tenho nenhum problema em receber e escutar. E a verdade é que não houve uma ação assim imediata de entrega de propostas… Para mim parece que a pessoa sempre pode depois avaliar se os tempos foram suficientes, se isto ou aquilo, mas, de concreto, no curto período que era nossa meta, conseguimos um acordo transversal e, provavelmente, o modo como as coisas transcorreram permitiu que houvesse um acordo transversal porque, entre outras coisas, ficou claro que nós iríamos fazer a reforma tributária. Há um velho ditado: nunca é o momento para uma reforma tributária porque “se a economia está muito bem, para que se vai precisar de uma reforma tributária?” ou “se a economia está desacelerada, como se vai fazer uma reforma tributária?”. Acredito que no final todos os grupos se deram conta de que o país necessitava –porque não somos um país populista, não somos um Governo populista– de receita permanente para gastos que são permanentes.

O Chile tem uma renda per capita de 23.000 dólares, não bem longe de Portugal ou Grécia, mas com uma profunda desigualdade

Essas receitas adicionais permanentes de que a presidenta fala, 8 bilhões de dólares, uns 3 pontos porcentuais do PIB, elevarão a carga fiscal no Chile, sem contar as contribuições sociais, a 23% do PIB, ainda abaixo da média dos países da OCDE, que é de 25%.

É dinheiro necessário, segundo Bachelet, para investir em uma educação melhor, que a médio e longo prazo melhore a competitividade do Chile, produza empregos mais qualificados e o país ascenda em riqueza e bem-estar como tem feito nas últimas décadas. E também para reduzir a desigualdade, outra das grandes batalhas de Bachelet. O Chile tem uma renda per capita de 23.000 dólares, não muito distante da de Portugal ou Grécia, mas com uma profunda desigualdade que a presidenta acredita poder combater também com a reforma fiscal.

Leia aqui a entrevista completa da presidenta do Chile.

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Comentários

vitor on 31 outubro, 2014 at 2:38 #

Estou no Chile e atesto. Verdade, pura verdade, as palavras de Bachelet


Lilyane on 2 novembro, 2014 at 19:24 #

Se adelgazo la señora Bachelet. Faz bem, a saúde é condição primordial para permanecer bem no governo.


Lilyane on 2 novembro, 2014 at 19:26 #

O Chile pratica um socialismo a la europeia, que só tem ajudado os países. Nada a ver com comunismo, que é o que os esquerdistas brasileiros querem.


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