Calligari: “psicanalisto” no Manhattan Conection
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Psicanálise para nossa democracia

Maria Aparecida Torneros

Assistindo o programa Manhattan Connection (TV News, com Lucas Mendes, Caio Blinder, Diogo Mainardi, Ricardo Amorim e Pedro Andrade) da noite da vitória apertada da ” presidenta ” brasileira vi a análise dos comentaristas que tentavam explicar o resultado do pleito com a intercessão de dois convidados.

Um cientista político esmerou-se em mostrar que o fenômeno de votação atrelada a problemas regionais é mundial. Citou exemplos até da Baviera e de Bordeaux na França. Os apresentadores insistiam na hipótese de que o PT avança para um projeto de poder de 16 anos comparando aos governos anteriores e recentes da história do Brasil.

No entanto o psicanalista Contardo Calligari mesmo fazendo a blag de passar a ser um “psicanalisto” trouxe para o nível consciente o fato de que há um mundo eleitoral e inconsciente no ato da escolha.

Fico deduzindo que fatores emocionais perpassam a luta de cada cidadão ou cidadã por ser visto ou ouvido e quem sabe até respeitado e amparado nas suas diferentes formas de ser ou agir.

Quando o jornalista Pedro Andrade pediu que o terapeuta explicasse sobre o “borogodó” da Mulher reeleita percebi o quanto ainda paira em termos de preconceito não só de ideologia política ou crítica à política econômica ou social mas também ao gênero da mãe quase edipiana.

No momento em os homossexuais ganham seu merecido espaço até nas novas diretrizes da Igreja Católica Romana e as mulheres do mundo inteiro ainda clamam por seu lugar ao Sol em sociedades machistas e conservadoras, é hora de ajustar ponteiros.

Borogodó é atração pessoal ou identificação inusitada por necessidades inconscientes. A figura da mãe austera se sobrepõe muitas vezes à da mãe amorosa. O Brasil vive uma realidade ímpar pela quantidade de mulheres chefes de família principalmente no Nordeste e nas periferias das grandes metrópoles.

Talvez o encanto do lado feminino atrelado ao comando seja ainda atribuído às feiticeiras que um dia foram condenadas à morte nas fogueiras.

E o programa encerrou sua performance que tem sempre tom irônico e inteligente, destacando que entramos na semana do dia das Bruxas.

Não se pode deixar de registrar que os apresentadores de central de eleições da Globo News também demonstraram em suas análises uma aparente decepção comedida ao apontar a vitória de Dilma e insistiram nos prognósticos de dificuldades para o próximo governo.

Isso pode acontecer de fato em virtude do momento econômico e da atuação forte que se espera da oposição daqui para frente o que só enriquece a Democracia e nos amadurece para enfrentar a necessidade de reformas no país.

Há realmente um clima de terapia no ar para que façamos um balanço e os rumos sejam corrigidos. Educação e saúde além de segurança e mobilidade urbana fazem parte da pauta com certeza.

Quando se busca o terapeuta num programa de análise política há uma mensagem subliminar nesse ato de mea culpa. Nossa mídia tradicional vai para o divã e se pergunta sobre a parte que lhe cabe neste latifúndio.

Morte e vida Severina do grande João Cabral de Melo Neto com música de Chico Buarque talvez seja o cântico renascido no solo brasileiro. Haja carisma ou borogodó para transformar este país em terra comum de muitos gêneros.

Brasil Connection é o nome do melhor programa para os novos tempos que temos pela frente. O passado é mesmo tema para sessão de psicanálise. Com direito à cura e resgate. União em lugar de guerra. Será possível?

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro. Editora do Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente.

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Comentários

Cida Torneros on 28 outubro, 2014 at 8:07 #

É a parte que te cabes nesse latifundio…: http://youtu.be/sTJKo3ol15U


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