Frei Damião: o pregador do Nordeste…
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…estilo imitado por Lula na campanha de Dilma

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ARTIGO DA SEMANA

Frei Damião e a disputa Dilma x Aécio no Nordeste

Vitor Hugo Soares

Últimas horas da mais polarizada e agressiva campanha presidencial desde a redemocratização do País. As urnas deste domingo, 26, vão falar e teremos o veredicto de mais de 140 milhões de eleitores. Ainda sob o efeito dos tiroteios, ameaças e agressões – nas ruas, na imprensa, nos palanques, nos debates e bate bocas, nas rádios e TVs – mas desta vez principalmente nos laboratórios clandestinos de medo e intrigas e nas redes sociais.

Antes da meia noite, espera-se, virá a resposta sobre se a presidente Dilma Rousseff, candidata petista a reeleição, vai seguir mandando no Palácio do Planalto por mais quatro anos – como trombeteiam os dois principais institutos de pesquisa (Ibope e Datafolha) há vários dias – ou se Aécio Neves, do PSDB, será o novo presidente da República, dando início a outra temporada de mando nacional dos tucanos.

Há muitas dúvidas no ar ainda. Mas um fato é inequívoco e terá de ser encarado mais cedo ou mais tarde pela sociedade (melhor que seja mais cedo): o Brasil sai rachado das urnas de 2014, qualquer que seja o resultado final deste fim de semana para não esquecer.

Uma rachadura política, social, religiosa – e até racial – sem tamanho. Feridas feias e difíceis de curar com aplicação de pomadas ou ungüentos. Muito menos com os velhos panos quentes do famoso jeitinho da política nacional.

No Norte e no Sul. No Sudeste, onde as pesquisas anunciam talvez a vitória mais expressiva de Aécio, ou no Nordeste, onde os números das prévias apontam para um significativo triunfo de Dilma, a começar pela Bahia de onde escrevo estas linhas.

Basta olhar de longe, andar na rua, ou abrir o computador no Facebook ou no Twitter para constatar que o país está partido. Até onde a vista e a memória me levam, só recordo de duas situações parecidas.

Na primeira eu era um garoto, beirando os 10 anos. Morava na cidade de Glória, na margem baiana do Rio São Francisco. Então se construía a hidrelétrica da CHESF em Paulo Afonso, idéia de Delmiro Gouveia na qual Getúlio Vargas investia com força, como aposta de superação das desigualdade chocantes entre “dois brasis”.

Paulo Afonso dos anos 50 era distrito de Glória. Formigueiro de operários (“cassacos” nordestinos na voz de Luiz Gonzaga em sua música famosa), engenheiros do país e do mundo. Gente de todas as partes (“até da Russia”, dizia-se) ao pé da construção monumental.

Foi na Vila Poty, na praça principal de Paulo Afonso, que ouvi o serviço de auto-falante anunciar o tiro no peito do suicídio de Getúlio. Os gritos de dor e revolta e as cenas de angústia e raiva que vi são inesquecíveis. Bem diferentes dos impropérios e agressões inomináveis que ouvira um dia antes contra Getúlio e seu governo. Repito aqui apenas o que presenciei e senti naquela manha nordestina de agosto. O resto está nos livros e relatos históricos.

A segunda experiência de Brasil dividido foi na eleição presidencial de 1989 (a primeira direta depois da abertura). Lula e Brizola brigavam na reta final da campanha, no primeiro turno, para saber qual dos dois enfrentaria no turno decisivo a Fernando Collor de Mello, saído do nada (ou sabe-se lá de que estranhas transações). Disparado na frente em todas as pesquisas.

Deu Lula, que foi abatido no segundo turno pelo alagoano Collor, “o caçador de Marajás”. Na época eu chefiava a sucursal da VEJA na Bahia e acompanhei de perto, profissionalmente, os lances principais e decisivos da campanha falso moralista Collor x Lula, marcada por agressões e golpes baixos como nunca até então. O petista foi “desconstruído” e triturado moralmente. Perdeu a eleição e deu no que deu.

Collor parece o mesmo de sempre. Lula mudou muito em relação ao que conheci como repórter naquela época em que Aloizio Mercadante e Ricardo Kotscho eram seus fiéis escudeiros, na travessia final da campanha no Nordeste, entre Vitória da Conquista e Paulo Afonso. No final desta campanha Dilma x Aécio (a velha disputa polarizada de petistas x tucanos, tão condenada pelo finado Eduardo Campos e Marina Silva), Lula virou protagonista outra vez. Andava calado e recolhido quando a candidata petista começou a vacilar depois do debate do SBT.

O ex-líder operário de outras campanhas, porém, parece ter trocado as vestes de ex-operário sindicalista do ABC paulista, com as do falecido Frei Damião de Bozzano, o temido frade conservador, pregador de santas missões em Pernambuco e no Nordeste. O religioso que verberava e prometia o fogo eterno do inferno para “cachaceiros” (assim o ex-presidente chamou Aécio, em comício no Pará), “casais amancebados” e até “o jovem que beijar a namorada na boca antes do casamento”.

De tudo isso,até hoje ainda sinto muito a derrota de Brizola, em 89. E para terminar, repito Ingmar, o garoto notável do filme Minha Vida de Cachorro: “É preciso comparar”.

Bom voto neste domingo.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Mariana Soares on 25 outubro, 2014 at 11:08 #

Muito bom!!!
E, neste caso, nem precisa comparar muito!
Vamos às urnas! E viva a Democracia!


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