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Pastoril eleitoral: Encarnados ou azuis?

Janio Ferreira Soares

Amanhã, finalmente, saberemos quem é o vencedor desta eleição que, na boa, está mais para um enorme Pastoril.

Para quem não é íntimo ao tema, trata-se de uma brincadeira que era apresentada nos natais de antigamente nas cidades nordestinas, onde dois cordões de pastorinhas – vestidas de encarnado e azul – encenavam autos sagrados e profanos, sempre com uma grande participação popular.

Aqui em Paulo Afonso, cidade barrageira crescida sob variadas culturas, a exibição era num tablado armado entre a igreja e o parque de diversões, onde, além da folia, me encantava o novidadeiro perfume das maçãs e a real possibilidade de sapecar um beijo molhado naquela menina que ficava ainda mais linda ao som das novas canções do Roberto. Mas, voltemos ao assunto em pauta, antes que minhas abstrações saudosistas alterem a verdadeira intenção da prosa.

Observando o atual estágio desta eleição, fica impossível não associá-la aos velhos pastoris. Vamos lá.

De um lado do palco, tentando desesperadamente se manter no poder por mais uma jornada, temos a turma do Cordão Encarnado, capaz de pagar qualquer prenda para que sua “pastora, pastorinha bela (ui!)”, continue alegremente indo a Belém (neste caso, a citação não se refere à terra de Cristo, mas ao latifúndio dos Barbalhos).

Na outra ponta, fazendo das penas coração para retomar o poder deste colossal folguedo chamado Brasil, temos o pessoal do Cordão Azul (será que o sangue também o é?), que depois de três derrotas consecutivas, vislumbra a chance de vencer e aí incluir no Bolsa Família uma camisa Ralph Lauren ou Richards, além de um vale-botox, que servirá para que pessoas como dona Nalvinha não passem vergonha quando sua foto for publicada na coluna de Mônica Bergamo, logo após ela ser apresentada como um exemplo de sucesso do novo governo tucano durante um jantar na casa de João Dórea Jr.

Se no Pastoril verdadeiro existe o Velho (uma espécie de palhaço que comanda a folia), nesta eleição temos a participação de dois ex-presidentes que, de modos distintos, agem como animadores de suas respectivas torcidas.

Do lado azul-marselhesa, tal um arlequim treinado nos palcos da Sorbonne, FHC continua soltando suas tiradas sutis e inteligentes, porém restritas à turminha que frequenta a Pinacoteca de São Paulo e depois vai comer risoto trufado no Fasano.

Já Lula, faz a linha do bufão escrachado – tipo seus conterrâneos Mangaba e Faceta -, nem aí para os que criticam seus convenientes apagões mentais ou as malandragens que rolam ao seu redor. Esperto, ele fala diretamente pra moçada que curte um pagode, enquanto um fardo de guaraná Dolly e latões de cerveja boiam num tonel de gelo coberto de pó de serra.

Por fim temos a Diana, personagem que é a cara do PMDB. Ela é aquela que usa um vestido metade azul, metade encarnado e canta: “Sou a Diana não tenho partido/o meu partido são os dois cordões/eu peço palma, peço riso e flores/aos meus senhores peço proteção”.

Com Sarney fora do páreo (suas varizes impossibilitariam o gingado), Temer e Renan são os cotados para representá-la.

Faça sua aposta. Azul ou Encarnado? Zeca Baleiro ou Zezé di Camargo? Desvios na Petrobras ou aeroporto de Claudio? Bom voto.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco, mas de frente para Pernambuco e Alagoas.

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