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http://youtu.be/9QhAksiDn1E

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Paquito
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DEU NO SITE TERRA MAGAZINE

A voz do poeta – Torquato Neto.

Paquito

Parece não haver outro assunto no ar do Brasil que não a eleição. As declarações dos candidatos e seus defensores, no entanto, padecem de uma falta de novidade estética que a tentação é ir atrás de outros assuntos. A voz do poeta chegou em meio a esse burburinho.

O poeta é Torquato Neto, e o que ele disse eu já conhecia basicamente, mas não através de sua voz e do que ela sugere, a voz naquele tempo de alegria prova dos nove, 1968. O Brasil cresceu, a Tropicália foi reconhecida e nos fez menos ingênuos, ensinou um jeito de corpo, e o corpo pode muito.

A voz do poeta chegou (pós?)modernamente via facebook, através de meu irmão, em uma notícia sobre um radialista, Wanderley, que o entrevistou em 1968, e guardou a fita. Esta, digitalizada, está na rede pra quem quiser, democraticamente, ouvir.

http://oglobo.globo.com/cultura/musica/encontrada-gravacao-inedita-com-unico-registro-de-voz-de-torquato-neto-14069434

Aprendi com os tropicalistas a ser brasileiro ponteando viola e guiando forde na mesa dos bares. Seus gestos, vozes e ideias, ao longo do tempo em que se lembra e se discute o movimento, se tornaram íntimos de quem curte o assunto.

No entanto, a voz de Torquato não ficou, pois ele se foi antes, em 1972 – por opção própria – e nos deixou orfãos do seu timbre. Torquato ficou nos versos e em imagens esparsas. Agora, eis a voz, dando alguma pista, pra quem não o conheceu, do que seria uma conversa consigo.

Curioso ouvi-lo dizer, no depoimento, que a música que não vende não presta. Sei do contexto da época, de assumir que uma música pode ser feita pra vender. O exemplo maior do período eram os Beatles, populares e inventivos, uma coisa alimentando a outra. Por isso mesmo, ouvi-lo dizer taxativamente aquilo, no contexto de agora, deslocado do tempo, faz pensar. As tensões entre música comercial e arte ainda existem; o que os tropicalistas fizeram foi enfrentar a questão com coragem e sem maniqueísmo, mas o impasse se mantém em sua complexidade.

A poesia de Torquato em pedaços, cortante – eu quero eu posso eu quis eu fiz – rápida e, como as letras tropicalistas, tem aquele quê de enfrentamento e violência poética, andrógina e viril, plena de vida.

O fato é que o Torquato tropicalista deixa o Torquato dos versos “participantes”, imediatamente anterior, comendo poeira. O cara que escreveu “louvando o que bem merece, deixo o que é ruim de lado” cresceu e incorporou o ruim também, que, amalgamado ao considerado bom, turva a vista pra fazer ver mais claro.

Mas o lirismo pré-tropicalista de Minha senhora e Nenhuma dor continua lindo, e a crueza de Pra dizer adeus se manteve forte, quase uma antecipação do que viria a seguir na Marginália II, dele e de Gil .

minha terra tem palmeiras onde sopra o vento forte

da fome do medo e muito principalmente da morte

dialoga com o refrão de Divino Maravilhoso, de Gil e Caetano:

é preciso estar atento e forte/ não temos tempo de temer a morte.

O “menino infeliz” de Cajuína, de Caetano, é Torquato. Quando a gente fica sabendo da história que motivou a canção – o encontro de Caetano com o pai de Torquato em Teresina, tempos após sua morte – a canção cresce.

Ainda tenho a edição original de Os últimos dias de Paupéria, de Torquato, organizado por Waly, que veio com o compacto com Gil e Gal, comprado na mão de Expedito na Livraria Civilização Brasileira. Ler a sua coluna Geleia Geral, versos esparsos – também os escritos de Augusto de Campos e , claro, as falas de Caetano -, me fez ver, em meus verdes anos, que havia poesia no Brasil além da geração de Drummond, Bandeira e Cabral, coligada na deles, urgente, forte: a cruza entre Concretismo e Tropicália, a atenção para a especificidade do gênero musica popular etc.

eu sou como sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim.

Apesar do que diz o poema acima, a presença da morte e o desencanto nos últimos versos de Torquato pressupõem um alguém angustiado, intranquilo.

Mamãe coragem, dele e de Caetano, no esplendor da explosão tropicalista, com sua escolha consciente, vivendo assim felicidade na cidade que eu plantei pra mim e que não tem mais fim, acaba desaguando em Três da madrugada, dele e Carlos Pinto, da fase final, um quê de lúgubre:

A mão fria a mão gelada/ toca bem de leve em mim(…) nesta rua da cidade que não tem mais fim.

É quase o sonho tropicalista se estilhaçando pra Torquato, a mesma cidade sem fim, porém com horizontes distintos, mais desolados.

O tropicalismo continuou nas canções de seus autores, e na reinvenção constante de suas carreiras. Torquato também se reinventou, mas foi tão cedo que sua voz, lá do longe, me fez voltar ao meu cedo, de quando conheci sua obra viva, mesmo enamorada da morte.

e ficar sem compromisso

pra fazer festa ou comício

com você perto de mim

E, quem diria, eu comecei falando em eleição…

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