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DEU NO JORNAL ESPANHOL EL PAIS (EDIÇÃO DO BRASIL)

Juan Arias

Ao se dirigirem aos brasileiros nos debates públicos, os candidatos à presidência, Dilma Rousseff e Aécio Neves, falaram de dois projetos diferentes para o Brasil.

A impressão é que estavam se dirigindo a dois países diferentes. E é verdade que nestas eleições, mais que em todas as anteriores desde a democratização, os brasileiros se apresentam divididos em duas metades praticamente iguais entre os que se dispõem a votar no Brasil de Dilma e os que preferem o Brasil de Aécio.

Como são esses dois Brasis apresentados pelos candidatos com vocação para governar o país? Ou se trata de uma divisão artificial criada pelos assessores de imagem dos candidatos já que, na realidade, existe um único Brasil? Quem e como foi dividido o país entre os que temem perder o que têm e os que desejam conseguir mais do que já foi conquistado, que é o que exigia o clamor da rua em 2013?

A candidata Rousseff em suas palavras finais no debate deixou claro que existe um projeto em curso que fez o país avançar com novas conquistas, como maior inclusão social, que não existia antes, e outro que seria o espelho de um passado que criou desemprego e salários baixos.

O candidato Neves, ao contrário, fez alusão a outros dois projetos diferentes: o que continua comparando o Brasil de hoje com o Brasil do passado, que seria o do PT, e o que desejaria mudar o país em tudo aquilo que hoje significa retrocesso para oferecer novas possibilidades, que seria o seu, o da mudança. Seria um choque entre o passado e o futuro. As duas posições têm força eleitoral quase igual.

É, no entanto, interessante analisar melhor quais brasileiros, por idade, estudos e posição social apoiam cada um desses projetos.

Pelo que revelaram até agora as pesquisas do Datafolha, fica bastante claro que o Brasil que poderíamos chamar de “do medo”, o que teme perder o já conquistado, se concentra principalmente entre os eleitores de idade mais avançada, de menor escolaridade e de menor posição econômica, localizado nas regiões menos ricas do país e nas menores cidades do interior.

Ao contrário, o chamado Brasil “da mudança”, se divide entre os mais jovens, os mais escolarizados e os de maior renda, que vivem nos Estados mais prósperos e nas grandes cidades.

Isso significa alguma coisa? Talvez signifique. Poderia indicar, segundo os sociólogos, que a tendência do Brasil para o futuro, independente de quem ganhar a eleição, será a de colocar mais foco no presente e no futuro do que no passado. São os jovens, que não conheceram o passado, que continuarão apoiando mais a política de mudança que a do medo, já que está mais próxima a seus pais. São os que mais estudaram e estão mais bem preparados para fazer uma análise completa da situação do Brasil que apresentarão, daqui para a frente, menos medo de mudar.

São os que já conseguiram abrir caminho no mundo do trabalho qualificado, os pequenos empresários, muitos deles jovens, os que acham que retrovisor lembra o passado, preferem o iPhone, uma espécie de farol que a cada dia ilumina as novidades destinadas a mudar nossa vida.

Na verdade, acho que têm razão os que preferem pensar que existe um só Brasil, nascido dos protestos que muitos desejariam sepultados para sempre, mas que provavelmente continuarão vivos, dispostos a dar novos suspiros no momento menos pensado.

Existe o Brasil que está se modernizando, que viaja mais, que estuda e lê, sensível à nova política participativa, menos compreensivo com a hidra da corrupção, e que perdeu o medo de abrir novos caminhos em busca de uma sorte melhor.

Qualquer um dos dois candidatos que acabe vencendo, não deveria esquecer que não é mais possível continuar governando com os olhos voltados, por cálculo às vezes puramente políticos, para um dos dois Brasis que está se enfrentando. O Brasil, ou crescerá junto economicamente, dominará junto o monstro da inflação e abraçará a modernidade de uma democracia mais afinada com os países desenvolvidos do que com os caribenhos e bolivarianos, ou continuará eternamente submerso na falácia da divisão entre pobres e ricos, entre os arrepios do medo e a aposta pela esperança.

Há processos na história dos países que são irreversíveis. Minha aposta é que também o Brasil, todo ele, apesar de todas suas sombras, medos e perplexidades, já apostou pelo futuro. E apostaram nessa direção os que costumam ser sempre os donos do futuro, como são os jovens e os capazes de pensar e analisar o mundo. São eles, no final que acabam dando corpo e vida a essa nova realidade social.

Basta dar hoje uma volta pelo Brasil para perceber a sensação de que nem sequer os que ainda são pobres querem continuar nesta condição e nem querem ser considerados assim. Estão na fila para entrar no clube dos que não têm medo de triunfar. Querem deixar para trás a triste herança de um passado que os obrigou a resignar-se com sua sorte. Muitos sofreram na pele de seus pais e querem deixar isto para trás, para sempre.

Esse é o país que está se desenhando para o futuro e que talvez nem sequer coincida com o resultado das eleições porque acabará se impondo por si mesmo com ou sem a bênção dos políticos que continuam apostando por um Brasil dividido e desenhado com os pincéis do medo mais do que com os de um novo cometa que traga o milagre de uma esperança de superação.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 21 outubro, 2014 at 10:47 #

Saudades de Kafka!

Afinal sempre era possível largar o livro ao lado da cama, vestir um jeans, para então sair em busca de uma Cuba Libre redentora. Cantalorando Satisfaction, enquanto acendia o velho Minister com o Zenith de todo dia.

Bran Stroker não ousou criar personagens tão sinistros quanto estes que duelam impropérios a cada debate.

Ganhe quem ganhar perderei, verei do alto de meus 61 anos o velho sonho de um Brasil melhor cada vez mais distante, especialmente de meu tempo. Sofri com “Médicis” por nada, não terei a recompensa.

Nasci no estertor de um ditador de priscas eras, o tal Getúlio, brinquei com a vassourinha do bizarro Jânio, assisti por duas vezes Tancredo, muito de mineiro esperto oferecer-se como leal portador de transição, ora como primeiro-ministro, ora como presidente, sempre jurando aos militares que em troca seria manso como o mais descuidado dos cordeiros.

Restou-me Ulisses em que votei em 89, meu último voto para presidente.

Ulisses encantou-se no mar, meus votos para presidente deixaram de existir.

Minha esperança repousa, dormita. Talvez alguém com meu olhar, possa assistir ao dia em que essa tal democracia surja nua e bela, quem sabe?


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