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Posted on 19-10-2014
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-10-2014


Myrria, hoje, no jornal A Crítica (AM)

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Dilma, em campanha em Salvador no dia 9. / Dario G. Neto (EFE)

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DEU NO JORNAL ESPANHOL EL PAIS (EDIÇÃO DO BRASIL)

Antonio Jiménez Barca

Salvador (BA)

Reginaldo Pereira indica onde estacionar na praça de Lauro de Freitas (BA), a cerca de 20 quilômetros de Salvador. Leva no peito um crachá que o habilita como guardador municipal homologado. Tem 43 anos, é pardo, de cabelo curto e enrolado, pobre. Há pouco tempo se divorciou e se viu na rua. Sua mulher e sua filha ficaram com o barraco e com a subvenção familiar de 92 reais, o Bolsa Família. Ele foi dormir em um parque. Fala com confusão de sua vida, mas tem clareza quando é indagado em quem vai votar no próximo turno das eleições, em 26 de outubro: se na presidente Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), ou no mais conservador Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). “Escute, fico arrepiado ao pensar na Dilma. E no Lula. Ele foi o primeiro a se lembrar dos pobres. Por isso sou fiel ao PT. Eles me tiraram da miséria. Me tiraram da rua. Moro em um quarto alugado com o programa Bolsa Moradia. Pago só 65 reais. Meu filho recebe uma ajuda. E estou prestes a ter uma casa que me darão daqui a alguns anos. Me dá vontade de chorar quando penso em tudo isso”.

O Estado da Bahia é uma mancha vermelha no mapa eleitoral, da cor do Partido dos Trabalhadores. Como todo o Nordeste, composto por nove Estados (alguns do tamanho da Espanha), a parte mais pobre e atrasada do país, a de piores índices de educação. É aqui onde Rousseff mantém o imenso celeiro de votos que lhe permite chegar ao segundo turno no próximo domingo com expectativas. Que lhe permite caminhar nas pesquisas ao lado de Neves, que recebe mais apoio, por exemplo, em São Paulo. Na Bahia, no primeiro turno, 41% dos eleitores votaram em Rousseff, contra 33% dos votos para Neves. E tudo indica que os votos restantes, os da terceira colocada na disputa, Marina Silva, também irão para o PT.

O taxista John Lennon (que, na realidade também se chama Reginaldo, mas insiste no apelido recebido há 40 anos por causa dos óculos redondos) afirma que todos esses votos são clientelistas: “É por causa do Bolsa Família. Aqui todo o mundo vota no PT por isso. Tem muito pobre que se conforma e que depois não quer trabalhar. Eu vou de Aécio”. O Bolsa Família, que ajuda mães ou casais sem recursos e com filhos, é o programa social mais amplo do Brasil. Quanto mais filhos, maior a quantia, que oscila entre os 30 e 300 reais, aproximadamente. E na Bahia, quase metade das famílias (42,7%) recebe o auxílio, o dobro da proporção no resto do país.
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Por isso não é estranho que o Bolsa Família se torne um importante assunto eleitoral. O mesmo Neves, que afirma que não vai retirar o programa, argumenta que o Bolsa Família deve ser “um ponto de partida e não a linha de chegada”. Rousseff, simplesmente, lembra que graças aos 12 anos do Governo do PT, a miséria se reduziu no país. Não é raro que os seguidores do PT recorram a uma frase definitiva: “Hoje já não se passa fome no Brasil”.

A 30 quilômetros de Salvador, três mulheres esperam por um ônibus que parece que nunca vai chegar. Não muito longe fica uma praia paradisíaca onde Janes Joplin se refugiou em seus tempos de hippie. Nem muito longe tampouco, nessa brutalidade de contrastes que o Brasil oferece, está uma das favelas mais perigosas da região, apelidada (não se sabe por quem) de “Planeta dos Macacos”. A mais velhas das três mulheres, Josefa, tem 48 anos, apesar de aparentar 60: “Graças a Lula tenho casa, comida e uma moto”. A filha, Jacobina, de 29 anos, faxineira diarista, com dois filhos, recebe 147 reais do Bolsa-Família; seu marido, cego, também recebe uma subvenção e confessa que sempre votará no PT. A terceira mulher, Leneovígia, permanece calada e apenas observa. Depois diz: “Eu também recebo o Bolsa Família por causa da minha filha, mas gostaria de não receber. Trabalho cuidando de idosos, tenho diploma, e o que quero é um contrato de trabalho, não uma esmola. Estou cansada de que nos calem a nós, pobres, com esmolas”.

Já em Salvador, no bairro popular de São Cristóvão, Eijane, de 29 anos, que tem quatro filhos, se joga no sofá de seu barraco olhando para um pequeno ventilador que gira desesperadamente sem aliviar em nada o calor. Ao lado, uma televisão grande e moderna. Ela também recebe o Bolsa Família, cerca de 300 reais por mês, e também votará no PT, apesar de dar de ombros quando se pergunta o motivo. Uma de suas filhas, Taimara, de oito anos, chega da escola. Uma das condições para o auxílio é que as crianças frequentem as aulas assiduamente. A menina, sorridente e alerta, diz que quer ser médica ou enfermeira. A mãe, esgotada e morta de calor, responde ao vento, sem olhar para a filha: “Não temos recursos para sermos alguém na vida”.

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Soneto de Aniversário

Vinicius de Moraes

Passam-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida

Queira-se antes ventura que aventura
A medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura

E eu te direi: amiga minha, esquece
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece

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Marcita:

Receba com as palavras dos versos maravilhosos do “poetinha” os parabéns, o afeto e votos de felicidade ( a mais plena possível) deste libriano também nascido em um 19 de outubro, que a admira mais a cada ano.

Nos encontraremos logo mais, neste domingo, na Igreja do Bonfim, para o abraço mútuo que trocamos há décadas.

Desta vez, no dia também do batizado de Beatriz, a primogênita tão amada de Tiago e Dani, sua primeira e aguardada neta.

Ouçamos também uma canção para comemorar a data.

(Vitor Hugo )


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DEU NO BLOG POR ESCRITO

Luís Augusto Gomes

O jornalista da Folha de S. Paulo quis saber apenas se o governador Jaques Wagner, assim como a presidente Dilma Rousseff e o PT, via como “golpe” ou “calúnia” a confissão de crimes feita à Justiça por um acusado que foi diretor da Petrobras nos governos Lula e Dilma.

Depois de atribuir o fato à campanha eleitoral, na qual se estaria tentando criar “um palanque”, e proferir a estranha tese de que “a corrupção é um tema rejeitado pela população”, Wagner, ainda na primeira resposta, enveredou pelo que, na verdade, se atocaiava em seu raciocínio.

“Não reconheço em Aécio Neves alguém que possa dar aula de ética. O povo sabe que tem santo e diabo em todos os partidos. No meu e nos outros”. Pronto! Havia a “convivência com a seca”. O governador da Bahia inaugura agora a convivência com a corrupção.

Santo e diabo, no caso, são reles eufemismos. Wagner sabe que o que há no meio que frequenta são ladrões, é possível até que os conheça de longe, mas aceita esse quadro legalmente anômalo e, em última análise, dele se beneficia, porque, por exemplo, o caixa dois anônimo, feito à base de dinheiro público, se é de todos os partidos, é também daqueles que o apoiam.

Como Lula, que assumiu o comando do país à frente de uma avalanche popular que respondia ao discurso da ética, Wagner projetou inicialmente essa imagem, transfigurada, no entanto, ao ponto de, agora, ele entender que Aécio não é pessoa indicada para falar de ética. Ótimo. Sendo assim, ele não precisará, nesse aspecto, explicar o PT.

Wagner repetiu palavras com que passou a sintetizar o pensamento sobre muitas coisas, como “palhaçada” e “besteirol”, que nos tempos de lhaneza e serenidade não faziam parte de seu vocabulário. E disse ser falsa a fama de gestor de Aécio, que, “sem apreço pelo trabalho” e “passeando no Rio”, deixava o governo mineiro para o vice Antonio Anastasia.

A entrevista, segunda-feira passada, foi, de longe, o mais importante acontecimento político no Brasil em uma semana tão intensa, marcada por um debate presidencial sanguinolento e baixo. É lamentável que as declarações do governador não tenham tido na imprensa, por incompetência ou descompromisso, a dissecação pública que exigiam.
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Mesmo a crítica eleitoral requer sobriedade
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A falta de uma crítica severa e clara a tal disparate, que talvez levasse o governador de volta ao centro, estimulou-lhe a reincidência, pois outra definição não cabe à nova investida perpetrada quinta-feira, quando questionou a capacidade do senador e ex-governador de exercer a presidência da República.

Não tanto pela dúvida em si, mas pela formulação: “Eu convivi com Aécio como deputado e não acho que ele é um cara que tenha pique para conduzir o Brasil. A pessoa pra conduzir um país como esse tem que se dedicar 24 horas por dia, 365 dias no ano. Esse não é o perfil dele. Todo mundo sabe, Minas sabe, todo mundo no Congresso sabe”.

Ao governador também não agrada o fato de o candidato tucano ser neto de Tancredo Neves, que o iniciou na política, o que lhe dá a condição, para ele menor, de “herdeiro”. Nem o suposto hábito pessoal de consumo de bebida alcoólica. “Ele bebe”, apontou Wagner, do alto de sua condição de abstêmio inveterado, de permanentemente sóbrio.

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