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CRÔNICA

O tempo no pretérito perfeito

Maria Aparecida Torneros

Quando o tempo parece ser o pretérito perfeito. Assim , nos últimos tempos, ando me sentindo. Mamãe, com quem convivo muito, perde as memórias recentes, mas recorda detalhes do passado. Eu, por meu lado, vou apagando os maus momentos, busco reativar somente as delícias que vivi. Mas, sei que estou respirando e vivo aqui com meus planos minúsculos. Ir no supermercado agora faz parte da agenda. Consultas e exames médicos também. Fisioterapias. Cirurgias. Nenhuma festa. Onde anadam aqueles convites irrecusáveis de outros tempos? Ora, se me ligam e convidam, respondo não posso e obrigada. Razões várias. Dores, cansaços, falta de motivação, saudades dos velhos tempos.

Almoços e jantares, às vezes dou uma escapadela, geralmente, na solidão da minha própria companhia. Afinal, lá se vão 65 anos em que me aturo e tento compreender. Hoje, um lampejo de felicidade. Minha prima Carmen e seu namorado Vitorino, no cartório, casam, ambos da minha geração, corajosamente prometem festa e casório religioso para o próximo ano. Ela dependerá da presença dos filhos, ambos casados, que moram fora do Rio. O rapaz, casado e pai de duas meninas, vive em Portugal. A moça, também casada, está em Salvador, e acaba de ganhar sua segunda filhinha, há menos de um mês. No telefone, minha amada prima irmã me explica que viaja na proxima semana para conhecer sua quarta netinha.
Fico feliz por ver que está vivendo de presente e futuro.

Tento ver um horizonte pra mim, escrevo ao terapeuta pois desconfio de depressão embora não tenha tendência, mas, as dores crônicas da coluna me castigam demais e a solidão absurdanente me aquieta. Durmo, leio, vejo filmes. E, repentinamente, observo o debate da Dilma versus Aécio na tv. Por poucos minutos. Não aguento tanta colocação belicosa e me tonteia lembrar origens de partidos como PT e PSDB, que eu cheguei a pensar um dia que eram ambos guerreiros contra a ditadura militar.

Eta papo bocó esse meu de tentar compreender o incompreensível. Poder se conquista com voto? Ou será com acordos, desacordos, esquecimentos e planejamentos?

Amores também, se fazem reais nos filmes, nas novelas, nos livros. Fora disso, a mim, atualmente, me parecem mentiras ou jogos de interesse. Falos dos meus. Os que me rondam. Aqueles que brincam de gangorra com meus sentimentos e balançam meu coração de poeta antiga.

Reenconto Peppino di Capri. Este é mesmo um grande amor. De geração. Ele implora à Roberta que o escute.
A mim, se alguém me faz pedido semelhante, lamento informar que ando surda. Já nao ouço mais tantos sons mentirosos, não me chamo Roberta, estou muito cansada, penso em faltar com minha obrigação de votar no segundo turno, e, pra completar, o verão escaldante chegou cedo demais e minha cidade ferve.

Procuro um espelho, pergunto-lhe se existe uma Branca de Neve tão desiludida quanto eu. E o bruxo me responde que sim. Que há um número imenso de mulheres e homens vítimas da violência, da desigualdade e dos males fisicos e emocionais.
Consolo-me ouvindo Peppino, recordando Capri, desejando mil felicidades aos meus primos casadoiros, maduros, corajosos, merecedores do bem.

E, ansiosamente, aguardo no meu silêncio acuado que o tal Amor me (desencontre de vez. Quem sabe com auxílio de uma boa tecnologia eu consiga acreditar nele de novo? quer dizer , pode ser que ele tenha, comigo, algum arremedo de futuro. Vou morder a maçã envenenada e me entregar à sorte ou azar de acordar na floresta, cercada de duendes ou anjos, tendo à frente um príncipe que já foi sapo po muitas encarnações.

Bem, por precaução, reservarei um lugarzinho na casa de repouso de idosos, sei que pode parecer precipitado, mas já me informei, eles aceitam desde os 60, e abrigam poetas desiludidas, apesar dos seus pretéritos imperfeitos!

Cida Torneros é jornalista e escritora. Mora no Rio de Janeiro, edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 15 outubro, 2014 at 12:01 #

Doce poesia em tua prosa

Fico tentado a prosear com estes versos:

……………………………

Diva

(luiz alfredo motta fontana)

Ontem…

Nos corredores do colégio
sonhava ser Audrey.
Agir como Lauren
despir-se como Rita.
Sorrir como Elizabeth
amar como Sofia.
Ser livre
como Brigitte.

Hoje…

No sofá da sala
acorda assustada
tendo ao lado
a angústia do roteiro inacabado.


ermelinda rita on 15 outubro, 2014 at 12:10 #

Nunca desista .Ser feliz é uma obrigação e Cida merece.Ela sempre nos alegra com suas crônicas que nos fazem refletir e seguir em frente.Beijos


Carlos Volney on 15 outubro, 2014 at 13:33 #

Permitam-me a intromissão. Do poeta Fontana já sou admirador desde “priscas eras” – as aspas pretendem tão somente simbolizar que o tempo de conhecimento (?) é o da participação neste blog, pois não tenho o privilégio do conhecimento de corpo presente como gostaria.
Tenho acompanhado com viva atenção e interesse a participação de Cida Torneiros, a quem também não tenho o privilégio precitado do conhecimento,
mas, pelo fato de ser conhecida e admirada por pessoas a quem reverencio, como nosso mestre maior Vitor Hugo e minha adorada Olivinha, e pela brilhante participação com que rotineiramente aqui comparece, também dela sou cativo.
Portador de alma convictamente boêmia, permito-me, pela primeira vez manifestar-me sobre um comentário seu pois este calou muito fortemente.
Mais uma vez o poeta Fontana foi definitivo, trata-se de uma poesia – e que poesia?? – em prosa.
Resta-me, então, TIM TIM!!


regina on 15 outubro, 2014 at 16:03 #

Querida Cida:
relembro aquela tarde, em Paris, em que vc me surpreendeu em meu quarto de hotel e em que nos tornamos amigas de sempre… Naquela tarde eu também me perguntava “que foi que eu fiz de errado pra me encontrar assim tão só em Paris???”
Pois bem, vc chegou e mudou tudo em poucas horas de conversa, na qual repassamos nossas vidas… melhor terapia não há…
Vc já conquistou os afagos de dois cavalheiros de primeira cepa, (Volney, vc é um amor e o poeta sabe bem o que penso dele e de magia dos seus poemas), à eles me uno no abraço fraterno e de conforto… tudo passa, minha querida, tudo… Vc fica no meu coração!!!!


Marcia Marinho on 15 outubro, 2014 at 16:15 #

Querida Mery,para mim, vc sempre será mery e única em minha vida. Não sou poetisa, meu português, as vezes escorrega,mais me solidarizo com você no contexto solidão,fico impressionada como as pessoas se esquecem das outras e como elas foram importantes em suas vidas. O que ocorre hoje , é que todo mundo corre não se sabe para onde e também está muito centrado no seu umbigo e o pior tem a cultura de ser feliz o tempo todo.
Na real ,acho que administramos mal nosso tempo,sentimentos, sensações e até nossa vida.
Mery querida, sei de minhas falhas com as pessoas e me cobro muito por isso, tento dar o melhor de mim pode ter certeza. Nunca te esqueço.


Cida Torneros on 15 outubro, 2014 at 20:10 #

Amadas e amados que se dispuseram a me ler e responder. Obrigada mesmo. Sei da sinceridade das suas palavras. Tanto dos que conheço pessoalmente como Regina, Ermelinda e Márcia como dos varões sensíveis ao meu momento Terceira idade. Rs. Agradeço e me emociono. Mas devolvo a cada um com beijo poético já que a democracia do BP me dá está liberdade :

De um FONTANA brotam versos
Meus sentimentos diversos
Passeiam pelo cinema e na tela linda
Vejo surgir a voz global da Ermelinda
Que escuto nas manhãs com amizade
Brindo com o Volney que me adula
Lembro champanhe da canção do Peppino
E lá vem Regina trazendo de Paris um hino
Daquela tarde o olhar preciso da baiana que pula
Salta na geografia o para a Califórnia intensa
Quando minha querida Márcia invade o coração
E me chama de Mery aludindo a interrogação
De um filme Quem vai ficar com ela? Pensa
Numa resposta ampla geral e irrestrita.
Coisas da sétima arte. Põe na fita.
Vou enquadrar o ângulo de um sorriso aberto
Para para todos vocês no momento certo
Pois seu carinho me toca a alma e me revigora
Sua energia é a poesia prosa do meu “agora”.
Mil beijos
Cida Torneros


Graça Azevedo on 15 outubro, 2014 at 20:46 #

Cida querida, o pretenso poema que cometi e segue abaixo mostra o que andamos remoendo! Beijos!

SOLO PARA FLAUTA

NÃO IMPORTA
SE O AMOR NÃO CHEGOU HOJE.
NA CERTA SE ATRASOU,
PERDEU O ÔNIBUS…
MAS O AMOR VEM
A QUALQUER MOMENTO.
CHEGA DE MANSINHO,
MURMURA CARINHOS,
PEDE DESCULPAS,
VAI EMBORA.

E PERDE O ÔNIBUS OUTRA VEZ…


Carlos Volney on 15 outubro, 2014 at 21:54 #

Cara Regina, conquanto saiba que tenho de dar o desconto da generosidade contida em tua afirmação, não posso deixar de registrar que ela me deixou enlevado.
De resto, Cida mais uma vez extrapolou e minha queridíssima Graça fechou com chave de ouro – com minhas desculpas pelo gasto chavão.
Enfim, creio que vale repetir o que aprendi aqui: TIM TIM!!


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