Dilma na casa de Nalvinha em Paulo Afonso…

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…onde Nalvinha toca a vida e espera o segundo turno
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CRÔNICA

O Segundo Turno de Nalvinha

Janio Ferreira Soares

Leio no jornal A TARDE, que entre os 17 maiores municípios da Bahia com mais de 100 mil habitantes, Paulo Afonso foi o local onde Rui Costa e Dilma Rousseff obtiveram suas maiores votações, com 72% e 76% dos votos, respectivamente.

No caso de Rui, nenhuma novidade no front, já que o prefeito Anilton Bastos, um dos mais bem avaliados da Bahia, é seu aliado. Quanto a Dilma Rousseff, seu desempenho por essas bandas também já era esperado, pois aqui ela é mãe, Lula é pai e o Bolsa Família é tipo um tio bonachão, daqueles que todo fim de mês chega de viagem com um agradinho pra galera.

Pois bem, de posse dessa notícia e depois de ver na Folha de São Paulo uma notinha citando que foi em terras de dona Nalvinha que a presidente conseguiu seu maior êxito no estado, resolvi voltar ao povoado Batatinha para revê-la e assuntar como andam as coisas por lá depois daquele alvoroço provocado pela visita de Dilma.

Como das outras vezes, encontrei-a na lida, cuidando dos porcos e aguando alguns canteiros de coentro e couve. Nos cumprimentamos e de imediato notei algo diferente na sua fisionomia, mas não disse nada, nem nada lhe perguntei – apesar da enorme curiosidade e de uma quase certeza.

Falamos dos passarinhos que continuam comendo seus tomates, da chuva que rareou, da floração das mangueiras nanicas e de algumas pimentas de cheiro que mais parecem pimentões. Puxei o assunto sobre a votação de Dilma na região, e ela me olhou como quem diz: “e você esperava outra coisa, seu bobinho?”.

Quanto aos demais candidatos, confessou-me que nunca foi muito com a cara de Marina, por um motivo tão peculiar, que eu aposto nunca ter sido mencionado em nenhuma dessas pesquisas qualitativas que os candidatos mandam fazer. A sua cisma com a ex-senadora, acredite, é com o seu pescoço “de uma seriema assustada”.

A respeito de Aécio, ela não tem muito o que dizer, embora não goste dele por tabela. É que os moradores dali não se esquecem de quando FHC falou que trabalhador que se aposenta aos 50 anos é um vagabundo. E concluiu: “vagabundo pode ser quem vive no bem-bom de um escritório. Mas quem labuta com uma enxada de sol a sol, chega nessa idade todo estropiado”.

Perguntei o que mudou em sua vida depois da visita da presidente e ela me respondeu que talvez fosse melhor que “a mulher” nem tivesse vindo. “Inventaram tanta mentira comigo. Disseram que ela me deu um carro, que trouxe móveis novos pra minha casa, até da minha dentadura falaram”. Foi a deixa que eu queria. “E cadê ela, dona Nalvinha, quebrou, foi?”. “Ôxe, meu filho, e eu ia morrer de fome, era? Não conseguia comer nada com aquela peste apertando minhas gengivas, uma agonia danada. Me acostumei não”.

Feliz em vê-la novamente soltando aquele velho sorriso de cancela aberta, me despedi e antes de entrar no carro ela me presenteou com algumas pimentas “pra você comer com feijão verde”. Saí devagar e parei no campo de futebol, bem no local onde o helicóptero presidencial pousou. No lugar dos gritos de “Dilma, guerreira, do povo brasileiro”, ouvi apenas sons de latidos, de chocalhos e de um carro-pipa passando ao longe. O Segundo Turno na Batatinha vai ser o mais sem graça do mundo.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 11 outubro, 2014 at 16:03 #

Uma bela lembrança, “Dito Nobre” e a Estação da Luz.

Caro Janio!

Neste sábado preguiçoso, depois de sorver a especiaria que você produz e publica neste blog, o cochilo me chamou e no meio dele a lembrança de “Dito Nobre”.

Anos 60, eu ainda adolescente, usuário feliz de um meio de transporte hoje perdido, o velho e bom trem, que unia a Alta Paulista de minha Marília a São Paulo de todos nós, em carro Pullman, com direito a ar-condicionado, poltronas espaçosas, além do requinte dos requintes, uma saleta de fumante, para o alívio de senhoras de alma e pulmões limpos, como também de senhores acometidos daquela alergia petulante chamada “asma”. Sentir-se dono do mundo ao abrir aquela porta e acender o cigarro era merecedor de um Robert Mitchun com seu chapéu cinza em cínica pose.

a viagem terminava na mítica Estação da Luz, reino e habitat de “Dito Nobre”. Ele negro, de indeterminados sessenta e tantos anos, carregador de malas da estação, com direito a uniforme e um belo boné de Capitão de quase corveta.

“Dito”, decorrência de seu sempre afável cumprimento:

– Benedito das Flores, um seu criado!

“Nobre”, pelo estilo, pelo apuro na linguagem, pelo porte e pelo sorriso além das agruras.

Reza a lenda, que embora morador de uma acanhada pensão na Barra dita Funda, costumava passar as tardes de sábado, sua folga, em matinées do Cine Metro na Avenida Sao João, onde desfilavam Bogarts, Waynes, Brandos, Sophias, Cardinales, Ginas, Ritas, entre tantos e tantas.

No fim da noite após balcões e sacadas de bares e boites, podia ser visto comendo um prosaico “espaguete à bolonhesa” no boêmio “Gato que Ri”em meio ao burburinho do Largo do Arouche.

Terno branco em puro e cansado linho, sapatos bicolores, lenço apurado em tons de azul.

Cigarro? Mistura-Fina, sem filtro, acesos com esmero, com a ajuda de um isqueiro Ronson, de tanta história.

Este o “Dito Nobre”.

Jamais se envolvia em discussões políticas, afinal como muitos testemunharam carregara malas de Jânio Quadros, de Adhemar de Barros, sem demonstrar qualquer indício de preferência, ambas com desembaraço. Foi visto até, juram com convicção, carregando mala e uma velha pasta, de um tal de Carlos Lacerda, perdido na paulicéia.

“Dito” não era partidário, nem mesmo programático ou pragmático, era apenas um eficiente despachante de pesos incômodos ao final de belas viagens.

Quando muito, entre uma dose e outra de um legítimo “rabo de galo”, soltava sua risada e dizia:

– Gorjetas boas são as de políticos recém empossados!

Para então nublar o olhar, trocando a risada por um sorriso cínico, aqueles que ocupam só o canto da boca, para arrematar:

– “Como tudo, nesta vida de Deus, tem um porém…”

E silenciava esperando a deixa certa e inquieta:

– “E que porém é este?”

Perguntava o vizinho de balcão.

De novo o riso:

– “As malas vêm com um peso terrível, inacreditável de tão abarrotadas!”

Este o “Dito Nobre” que minha memória recupera, em cochilo, quando ainda presente o raro sabor de tuas crônicas.

Abraços Janio!


regina on 11 outubro, 2014 at 18:23 #

Coisinhas que espantam a preguiça de um Sábado arrastado e animam a alma da gente enquanto esperamos esta eleição que já vem decidida, seja pra que lado pender… Este paulista e o outro filho do rio São Francisco, deixam a gente pedindo mais um tiquinho de prosa…
Aqui um dado que colhi no facebook de minha amiga Aninha Franco e explica que foi feito dos votos baianos: Bahia e Vitória: Dona Abstenção e seus dois parceiros, votos Brancos e Nulos, sem partidos, foram eleitos ao governo do Estado com 3.652.167 milhões de omissões; 93.192 a mais que Rui Costa; 1.211.758 a mais que Paulo Souto e 3.219.788 a mais que Lídice da Mata. O que Abstenção, Nulo e Branco farão com a Bahia ninguém sabe.”


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