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Postado em 07-10-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 07-10-2014 00:34

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DEU NO JORNAL PÚBLICO, DE LISBOA

Quando ainda estava atrás de Marina Silva nas sondagens, o candidato Aécio Neves tinha anunciado o surgimento de uma “onda de razão” que o levaria à segunda volta. Aécio acertou, mas dificilmente poderia ter adivinhado que a onda desse origem a uma torrente capaz de submergir as expectativas de uma vitória fácil de que então se alimentava a cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT).

Daqui até o próximo ato eleitoral, dia 26, Dilma Rousseff vai precisar de acrescentar à sua votação de domingo pelo menos mais nove milhões de votos, ou 9% da preferência dos eleitores. Uma tarefa ainda assim mais fácil do que a de Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que precisa de conquistar mais 16% dos votos para poder ser o próximo Presidente do Brasil. Quer um, quer outro vão ter de disputar esses votos na herança eleitoral de Marina Silva. Derrotada na primeira volta, Marina Silva é quem tem a chave do poder no Brasil. O destino dos 22 milhões de votos que conquistou no domingo são determinantes quer para as esperanças de Dilma Rousseff, quer para as de Aécio Neves.

Ainda na ressaca da surpreendente noite eleitoral de domingo, as cúpulas do PT e do PSDB começaram a lançar as primeiras pontes para captar o apoio do eleitorado de Marina e do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que a apoiava. O PT recordava que a política de alianças com o partido de Marina é antigo. Na sua primeira declaração na noite eleitoral, Aécio Neves manifestou ter “enorme respeito” por Marina Silva, e lembrou que, assim como ele, a ex-candidata “está disputando a oportunidade de representar a mudança”. De vários quadrantes do “tucanato” (o símbolo do PSDB é um tucano) chegaram apelos para uma aliança. O que está em causa é decisivo para a ampla frente política que combate o PT. “Nos últimos 12 anos de governo do PT é a primeira vez que as oposições têm uma chance robusta de conquistar o poder”, diz José Álvaro Moisés, professor titular de Ciência Política na Universidade de São Paulo, um dos promotores de um manifesto em favor da aliança das duas candidaturas que até ontem tinha reunido o apoio de mais de 170 intelectuais.

Marina Silva deixou no seu discurso da noite eleitoral a indicação de que não vai repetir a estratégia de 2010, quando, depois de arrecadar 19,6 milhões de votos, se absteve de apoiar os candidatos que disputaram a segunda volta, Dilma Rousseff e José Serra, do PSDB. Para muitos observadores colocou-se mais perto de Aécio Neves ao afirmar que “o Brasil sinalizou, desde 2010, claramente que não concorda com o que aí está”. Mais claro e contundente, o seu candidato a vice-presidente, Beto Albuquerque afirmou que, como gaúcho (do estado do Rio Grande do Sul), “não leva desaforo para casa”, pelo que não se vê a apoiar Dilma por causa das “calúnias e vilanias” lançadas contra a candidatura de Marina. Se é verdade que tanto Aécio como Dilma se empenharam em desconstruir o perfil de Marina quando a candidata chegou a liderar as sondagens, Aécio foi sempre mais moderado que Dilma. Fernando Henrique Cardoso, que ainda antes da eleição de domingo apelava a uma união das duas candidaturas contra o PT numa segunda volta, é tido como o artífice com melhores condições para federar os interesses dos dois blocos.

Mas, mesmo que haja um apoio formal de Marina e do PSB a Aécio, a volatilidade eleitoral no Brasil, onde os partidos são na maior parte dos casos estandartes com pouco conteúdo programático, não garante uma transferência automática de votos. Logo após o acidente aéreo que vitimou o candidato Eduardo Campos, a 13 de Agosto, Marina foi capaz de firmar “uma aliança temporária entre o eleitorado que não se sentia representado nem pelo PT, nem pelo PSDB, que representava cerca de 20% do total, e o núcleo duro dos eleitores que são sempre contra o PT”, explica Marcos Nobre, cientista político, colunista do jornal Folha de São Paulo e professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Campinas. Só que, “após as críticas que mostraram as inconsistências de Marina, os eleitores anti-PT começaram a perceber que não havia muita diferença entre Marina e Aécio no segundo turno. Ambos tinham as mesmas possibilidades de bater Dilma e refluíram para Aécio”, continua Nobre. São os 15% de voto útil que explicam a vantagem que Aécio conquistou sobre Marina Silva no domingo. Ficam por isso em aberto os outros 20% de eleitores que, por definição, desejavam uma terceira via.

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