Foto do El Pais (edição do Brasil)

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ARTIGO DA SEMANA

Marina x Aécio: batalha no Projac pelo segundo turno

Vitor Hugo Soares

O calor do encarniçado debate dos candidatos ao Palácio do Planalto – último antes da votação deste domingo, 05 de outubro – chegou perto dos 40 graus centígrado de sensação térmica, no refrigerado estúdio da TV Globo, no complexo do Projac. O confronto pode não ter sido um primor de conteúdo (se comparado ao que já se viu antes em duelos verbais históricos e brilhantes, de políticos e polemistas notáveis do País, cujos nomes e tendências deixo a critério de cada leitor e ouvinte lembrar, para evitar mais bafafá desnecessário.

Injusto, porém, seria não reconhecer: o variado e dinâmico formato visual e jornalístico adotado no debate que começou com atraso (por motivo não explicado por Dilma, que chegou tarde, nem pela emissora) na noite de quinta-feira, e enveredou pela madrugada de ontem (3) espantou o tédio, afastou os muxoxos de sono e cansaço, e espalhou tensão e alternativas de interesse público e eleitoral do começo ao fim.

A tensão flutuante destes últimos dias no Rio de Janeiro e em Santa Catarina; os silêncios tradicionais e os rumores e fatos estranhos atuais em Minas; os contrastes de São Paulo; os complicados e sempre presentes impensáveis absurdos na Bahia, a virada em Pernambuco (considerada por alguns crentes o primeiro milagre operado pelo socialista Eduardo Campos depois da morte trágica, em Santos) rondaram o tempo todo.

Nos quatro blocos, em diferentes momentos, e envolvendo diferentes candidatos (os três primeiros colocados nas pesquisas e os coadjuvantes nanicos, que não negaram fogo nem fizeram feio), um foco definido e permanente: conquistar na Hora H eleitores de um País de mais de 140 milhões de votantes, em boa parte ainda refratário e desconfiado quanto à escolha.

Dúvida atroz, principalmente, quanto ao voto definidor sobre quem irá disputar com a presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, o segundo turno praticamente assegurado (salvo um improvável terremoto de última hora). No páreo, a ambientalista acreana do PSB, Marina Silva, em segundo lugar nas pesquisas de preferências eleitorais e comprovadamente boa de briga e de voto. O mineiro Aécio Neves, em terceiro lugar, corre por foranos calcanhares da socialista, com garra espantosa (para quem esteve a ponto de arriar a bandeira tucana) e discurso afiado que causa estragos nos dois adversários à sua frente.

Um combate franco e aberto (desleal, desigual e rasteiro em alguns momentos) onde tudo pode acontecer neste domingo. O Projac pega fogo. Antevisão, provável do grande “incêndio” nacional que se seguirá amanhã ( 5 ) , quando se saberá finalmente, no primeiro turno, “quem tem farinha no saco para vender na feira”, como dizia o gaúcho Leonel Brizola, um dos mestres nacionais dos debates e das polêmicas eleitorais referidos (sem dar o nome ) no começo destas linhas.

Em Salvador, vejo e escuto na tela da TV, entre divertido e preocupado, o experiente âncora do Jornal Nacional, e mediador do debate, William Bonner, perder o prumo por instantes. A ponto de pedir desculpas aos candidatos e ao público, por esquecer de sortear um dos temas no bloco de perguntas obrigatórias aos debatedores. Até, finalmente, esgotar a paciência e cortar o som dos microfones de duas exaltadas candidatas..

Medida extrema, quando Marina Silva, do PSB, e Dilma Rousseff, do PT, frente a frente, chegaram bem próximo de deixar de lado o confronto salutar das palavras, idéias, programas (ou falta de, como lembrado inúmeras vezes pela ambientalista) e partir para se engalfinharem em pleno estúdio, em rede nacional.

Ânimos mais que exaltados, também, quando a esquentada gaúcha, Luciana Genro, candidata do PSOL, comparou as críticas do tucano Aécio à petista Dilma, ao “sujo falando do mal lavado”. Houve dedo em riste do educado mineiro, que Luciana mandou o candidato baixar. Mas Bonner conseguiu mais uma vez serenar os ânimos no salão, e levar o último debate a bom termo até o “boa noite”, depois da mensagem final de todos os candidatos.

Findo o debate, desligo a televisão para dormir. Lá pelas duas da madrugada da sexta-feira, antes de pegar no sono, penso em Ulysses Guimarães, grande timoneiro da democracia brasileira em tempos de tempestades. Dizia ele seguir e exigir nos debates a cautela de Voltaire: “Se queres discutir comigo, defina primeiro tuas palavras”. Ulysses gostava também do sábio ensinamento chinês. “Há três pontos de vista: o meu, o teu e o verdadeiro”.

Para terminar, o conselho preferido do grande democrata encantado no fundo do mar, depois de um desastre aéreo: “Deixem o povo votar. Ainda que erre, acabará acertando. Melhor que dar o peixe é ensinar a pescar. Pela receita não se sabe o gosto do pudim. É preciso prová-lo”.

Provemos, portanto, outra vez, neste domingo de outubro, o sabor sempre renovado do pudim da democracia. Bom voto.

Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Cida Torneros on 4 outubro, 2014 at 9:40 #

Bom dia, Caro Vitor, desejo boa votação a você e a todos os brasileiros e brasileiras, que aliás, ainda representam somente cerca de quase 30 por cento de concorrentes nesse universo da política partidária. Quanto ao debate, até tentei assistir, mas os medicamentos aos quais me vejo atrelada ultimamente, me fazem adormecer e perdi lances como um dos citados no seu primoroso artigo, o tal do dedo em riste. Talvez seja esse mesmo dedo, consciente, que tente apontar um caminho melhor para o nosso país, ao teclar seus escolhidos, nas urnas no dia 5! Tomara! Abraços e boas eleições!


luís augusto on 4 outubro, 2014 at 10:07 #

Cara Cida, também dormi, mas as drogas que me derrubaram foram os próprios candidatos.

Não resisti como Vitor, a quem parabenizo e agradeço pela síntese legal do debate e pela lembrança de velhas referências históricas.


luiz alfredo motta fontana on 4 outubro, 2014 at 10:47 #

Caro VHS

Um debate que só pede ser descrito em linguagem gauchesca.

O clima “cheirava a defunto”, tamanha a agressividade dos contentores, tendo ainda como mediador um Bonner “com estribo frouxo”, ou seja, descontrolado, perdido, enlouquecido.

Um espetáculo “loco de especial”, com debatedores “mais angustiados que barata de ponta-cabeça”!

Foi assim que vi.

O Bonner estava “mais nervoso que gato em dia de faxina”, “mais perdido que cebola em salada de frutas”.

O que espanta e não se explica, é a tentativa de “passar por debaixo do poncho” o atraso monumental de Dona Dilma.

O padrão global foi para o lixo, a novela esticada assemelhava o SBT.

Pior: nenhuma explicação, sequer um pedido de desculpas, nada, absolutamente nada.

No twitter, jornalistas fingiam não perceber, Renata Lo Prete, Cristina Lobo, Eliane Cantanhêde, entre outros, quedaram-se distraídos. Nenhuma linha a respeito.

Estranho, o atraso de uma candidata, no exercício da presidência, é no mínimo notícia. Quer pelos motivos quer pela ausência deles.

“Fazer-se de chancho rengo” não é próprio de jornalistas que pretendam manter a credibilidade.

O certo, é que para “nosostros” restou “andar como pau de enchente”, sem sequer “orelhar uma esperança” de ser, ao menos, respeitados como eleitores.

Quanto a Ulisses, caro VHs, testemunho apenas que foi a ele meu último voto para presidente.

Tim Tim!

Espero continuar “churrasqueando no mesmo espeto”!


Graça Azevedo on 4 outubro, 2014 at 11:44 #

O que mais notei foi a especial capacidade de se fugir dos temas relevantes. Muito blá blá blá!
Luciana Genro e Eduardo Jorge, talvez até pela certeza que não chegarão lá, foram os que se posicionaram claramente.
Não vi as palavras finais porque dormi, pedindo a Deus para não ter pesadelos.
Hoje, no facebook escrevi um “recado” aos candidatos aos diversos postos. Peço sua permissão, querido amigo, para publicar no seu espaço.
“Uma advertência aos candidatos a todos os cargos. Se eleitos, não se julguem “autoridades inatingíveis”. Estão aí porque nós lhes demos um mandato. Vocês nos devem respostas, atenção (a mesma que nos dispensam na hora de pedir votos) e respeito. Precisamos perder esse sentido de subserviência, temos que cobrar o que nos foi prometido. E se nos virarem a cara hoje temos as redes sociais para denunciá-los.”
É isso!


Mariana Soares on 4 outubro, 2014 at 12:48 #

Vi o debate e, como Gal, senti falta de um mínimo de aprofundamento nos temas, ninguém encarou de frente ou disse o que pretende fazer com o mandato que o povo brasileiro lhes outorgará amanhã ou no dia 26/10. Apenas, caras feias, bate-boca, tangencialmento dos assntos verdadeiramente importantes, discursos preparados sem qualquer vinculação com as questões levantadas, e blá, blá, blá e muita agressividade.
Resta-nos, como sempre, um pouco de esperança e um desejo descomunal que este País dê certo um dia e que não vejamos mais tanta corrupção, o que para mim é o que mais aflige e perturba (penso no meu pai e sofro como ele!).
Mas, sou dura na queda, sou alegre e forte e vou continuar na luta e com muita esperança!
Amanhã, sigo para votar muito feliz e confiante, tenho meu voto definido há muito tempo e vou torcer até a última hora para que, além da minha candidata, a democracia vença sempre.
Seu artigo é um primor, meu irmão! Beleza pura!
Bom voto a todos! E viva a democracia!


luiz alfredo motta fontana on 4 outubro, 2014 at 13:49 #

Morre Hugo Carvana.

Com ele morre um cadinho do humor que ainda insiste em nos redimir.

Com ele, algumas de minhas lembranças, perdidas na busca de um acorde redentor, de um estribilho novo, de um refrão desassombrado.

Santo humor, cínico, malicioso, escorrendo num copo baixo entre malte e gelo.

Morre Carvana, quase à francesa, sem sequer acenar, morre como se apenas estivesse trocando de bar, esquecido de deixar o endereço.

Vai, Hugo, encantar outras mesas, vai, vagabundo, vai, daqui do meu canto deixo uma lágrima escorrer.


luís augusto on 4 outubro, 2014 at 15:00 #

Sem saber do passamento, ainda hoje me lembrei dele ao repetir, em bar das proximidades, frase que o personagem Dino pronunciou em “Vai trabalhar, vagabundo”, ao deixar a penitenciária e achar o primeiro boteco: “Bote aí meia hora de cerveja”.


luiz alfredo motta fontana on 4 outubro, 2014 at 15:14 #

perfeito luís augusto

bebida se toma por hora nunca em doses


vitor on 4 outubro, 2014 at 15:58 #

Maravilha de lembrança, Luis. A cena está no tributo do BP a Carvana.

Lembro tb de você (grande jornalista e boêmio), na Redação, ligando para Naná e pedindo a ela para colocar a cerveja no congelador antes de vc voltar do trabalho para casa: “Quero daquele jeito, com as lágrimas escorrendo na garrafa!”.

Bela imagem, que não esqueço.

As lágrimas da garrafa, este sábado, são por Carvana.TIM TIM! (Vitor Hugo)


luís augusto on 4 outubro, 2014 at 22:57 #

Puxa novamente, Vitor. Só você mesmo com uma lembrança dessas. O ritual do congelador é algo que pratico diuturnamente com muita compenetração. E parabéns da Fontana pela formulação cronométrica.


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