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Os homens e seus bigodes

Janio Ferreira Soares

Se o de Nietzsche não se conformava com o marasmo filosófico da época e clamava por saltos em trapézios sem rede de proteção, o de Salvador Dali lembrava as antenas de um grilo dançando na boca de um calango desmilinguido no meio do sertão. Já os de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Cid Teixeira parecem ter sido enxaguados e quardados nas águas do Abaeté, num tempo em que o mar, os meretrícios e as artimanhas da Bahia inspiravam livros, músicas e histórias geniais.

O de Leminski, adaptando sua poesia, parecia pingos pingando- com uns molhando as tardes de sábado, e outros regando as manhãs de domingo -, enquanto o de João Ubaldo, qual uma espuma acústica, tinha a importante função de amplificar sua voz de baixo-barítono, que semanalmente se apresentava em forma de crônica nessa ópera-bufa chamada Brasil.

O do meu pai se parecia com as andorinhas que descansavam espremidas entre caibros e telhas da Casa Paroquial. Como pertencia a um delegado, decerto se mantinha vasto para impor moral diante dos raros desordeiros da pacata e aprazível Glória. Nas minhas lembranças, cheirava a nicotina, fazia cócegas e, pássaro que foi, voou, voou, voou até que um dia sumiu entre as nuvens e nunca mais pousou.

O de Fernando Sancho variava de acordo com o seu papel no velho oeste. Se de um assaltante de banco, era mal-amanhado. Se de um fazendeiro mexicano, era bem cuidado e tinha as pontas descendo pelo canto da boca, igual as ferraduras que calçavam seu cavalo. Em qualquer situação, gostava de vê-lo molhado de tequila ou sucumbindo depois do tiro fatal nos duelos que antecediam o The End.

Sem o seu a escoltá-lo, provavelmente Fred Mercury não tivesse o mesmo poder para convencer aquelas milhares de vozes a acompanhá-lo nos versos de Love of My Life. Suado, ele as regia balbuciando, como uma mãe quando quer que seu filho abra a boca pra receber o aviãozinho cheio de papinha.

Ainda pensava em escrever sobre os de Rivelino, Hitler, Chaplin…, mas como o espaço está rareando e a época é propícia, falarei do de Rui Barbosa, que em 1919 mandou esta pérola, por sinal, atualíssima.

“O Brasil não é isso. É isto. O Brasil, senhores, sois vós. O Brasil é este comício imenso de almas livres. Não são os comensais do erário. Não são as ratazanas do Tesoiro. Não são os mercadores do Parlamento. Não são as sanguessugas da riqueza pública. Não são os falsificadores de eleições. Não são os corruptores do sistema republicano. Não são os oligarcas estaduais. Não são os ministros de tarraxa. Não são os presidentes de palha. Não são os estadistas de impostura. É a multidão que não adula, não teme, não corre, não recua, não deserta, não se vende. É o povo, em um desses movimentos seus, em que se descobre toda a sua majestade”.

Pra terminar, cito o que me inspirou a fazer este artigo. Ele pertence a Paulo Roberto da Costa, ex-diretor da Petrobras, que na semana passada apareceu em Brasília como se fora um tio de Al Pacino atuando num filme sobre a Máfia (com o patrocínio da BR Distribuidora, naturalmente), cujo título poderia ser: “Sob Meu Bigode Trago Pasadena”. Aliás, parece que Youssef topou fazer o papel de Marlon Brando.“E as algemas goes to…”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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