=======================================================


Artigos

O elevador por testemunha

Dorrit Harazim

Deu no jornal O Globo

O caso vinha se arrastando há sete meses, mas só adquiriu pleno potencial noticioso esta semana, graças à divulgação de um vídeo. Fossem outros os protagonistas, seria apenas mais um caso de violência doméstica a se somar a 1,3 milhão de denúncias registradas por mulheres todos os anos nos Estados Unidos.

Mas, por envolver um astro do futebol americano e a poderosíssima National Football League (NFL), o caso tomou rumo próprio.

Para quem nada leu sobre o assunto, um resumo.

Em fevereiro, uma das estrelas do Ravens de Baltimore, o running back Ray Rice, agrediu a noiva no elevador de um hotel de Atlantic City. Ambos foram parar na polícia. Como a noiva, Janay Palmer, se recusava a testemunhar, o caso foi arquivado e o casal encaminhado para sessões de aconselhamento supervisionadas pela Justiça. Em maio, Janay e Rice, ladeados pelo técnico do Ravens, pediram desculpas públicas aos fãs do time.

Em junho surgiu um primeiro vídeo do episódio, gravado por uma câmara de segurança do hall do hotel. Nele se vê o jogador puxando a noiva desacordada para fora do elevador e deixando-a inerte, de bruços, no chão do corredor. Diante do furor desencadeado pelo vídeo nas redes sociais, a NFL decidiu suspender Rice por dois míseros jogos. Mas os protestos não diminuíram. A entidade, então, instituiu uma nova regra pela qual todo jogador que cometer atos de violência doméstica sofrerá suspensão automática por seis jogos. Janay e Rice, enquanto isso, casaram de papel passado, numa cerimônia de arromba.

O castelo ruiu esta semana quando o site TMZ, voltado para notícias sobre celebridades, colocou no ar um segundo vídeo do episódio que estava em mãos da polícia e a direção da NFL jurara jamais ter visto antes. Trata-se das imagens captadas pela câmera robô instalada dentro do elevador. Chocantes e repulsivas, elas estão sendo exibidas desde então em todos os noticiários de TV, ora em câmara lenta, ora em velocidade normal.

É bastante raro a violência doméstica se mostrar em tempo real. Em geral, as vítimas aparecem — quando ousam aparecer — com as feridas físicas já impregnadas no corpo — hematomas que as desfiguram, cicatrizes indicando anos de abuso, cortes, queimaduras, olhares vazios em desamparo.

Desta vez é diferente. Quando Rice e sua futura esposa entram no exíguo espaço do elevador já alterados, ele parece lhe dizer algo que a faz recuar. Ela o empurra, retruca com algum xingamento ou uma cuspida (o clipe não tem som) e é neste momento que o atleta lhe desfere um murro que a faz rodopiar contra a parede do elevador e sumir do vídeo — por estar no chão, inconsciente.

O que se segue é quase mais cruel. Janay está estirada no chão, desacordada, de bruços e pernas abertas, com Rice empenhado em arrastá-la para fora do elevador. Mas nem para um atleta fortão é fácil remover um corpo inerte. Contrariado, ele percebe que um sapato se soltou do pé da noiva e vai resgatá-lo. Não se importa, porém, com o fato de Janay estar com o quadril e as coxas completamente a descoberto, posto que a sua saia se deslocara para a cintura. Apesar do convencional borrão utilizado pelas emissoras para desfocar o impróprio, a imagem marca.

Em momento algum da cena vê-se o astro do Ravens ter um só momento de humanidade com Janay. É com o pé que ele empurra uma das pernas abertas da noiva para conseguir tirá-la do elevador. No corredor, vê-se um, depois dois, depois três homens de ternos escuros olhando a cena. É somente na parte final do clipe que surge uma silhueta feminina — única a tocar em Janay, que começa a recobrar os sentidos.

A NFL recebeu tantas petições com dezenas de milhares de assinaturas exigindo penalização retroativa para Rice que o comissário da Liga, Roger Goodell, achou prudente ceder. Poucas horas após a divulgação do vídeo, o Ravens rompeu o contrato de 40 milhões de dólares com Rice e a NFL o suspendeu por tempo indefinido. Os contratos de publicidade que lhe rendiam 1,6 bilhão de dólares ao ano também vão minguar — a Nike foi a primeira a saltar do barco.

Para a NFL, os desdobramentos ainda são incertos. O futebol americano é o esporte preferido de 35% dos americanos (mais do que o basquete, o beisebol e o hóquei somados) e a Liga fatura perto de 10 bilhões de dólares ao ano como primeira fonte de entretenimento nos Estados Unidos. Até agora, ela sempre abrigou no seu peculiar universo moral jogadores que batem, espancam e agridem. No jogo de domingo passado do San Francisco 49ers, por exemplo, brilhou Ray McDonald, de 1,92 metro e 131 quilos, detido em agosto sob acusação de agressão à noiva grávida.

Os times e a Liga se escondem por trás do argumento de não lhes caber se sobrepor à Justiça criminal. Pois deveriam assumir esse papel, sim, em paralelo. É sabido que mudanças profundas de comportamento social e cultura demandam tempo. Um embrião de mudança deslanchado no âmbito de esportes formadores de ídolos não faria mal a ninguém.

Desde que o caso Ray Rice começou a transbordar, o Disque-Emergência para vítimas de violência doméstica recebeu 72% de telefonemas a mais do que a média. Os hashtags #WhyIStayed (Por que eu fiquei) e #WhyILeft (Por que eu parti) foram inundados de depoimentos de mulheres narrando casos pessoais.

O aprisionamento psicológico, a dependência total e o isolamento comum às vítimas explicam em parte a decisão de Janay de se manter ao lado do agressor.

Um ponto por ela levantado, contudo, merece reflexão: ela acusa a mídia de invadir sua privacidade, causar sofrimento e humilhação à sua família (ela tem uma filha pequena com Rice) “apenas para faturar em audiência”. O cruel realismo da cena filmada, de fato, exerce fascínio no telespectador e a violência flagrada arrisca se transformar em espetáculo de voyeur. Exibidas ad nauseam sem o seu consentimento, são imagens que ficarão para sempre associadas a essa jovem mulher de apenas 26 anos. Em contrapartida, elas escancararam uma das faces do problema.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2014
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
    1234567
    891011121314
    15161718192021
    22232425262728
    2930