Atriz Clara Paixão
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TEATRO/CRÍTICA

Viva Nzinga!

Rosane Santana

Aninha Franco, autora de uma dramaturgia essencialmente baiana, inclusive textos com linguagem e cultura de raízes africanas (Dendê & Dengo, Zumbi dos Palmares e A Comida de Nzinga), uma das nossas matrizes geradoras, disse recentemente que seu teatro tem feito o que a escola pública não realizou em quase dois séculos de Independência. Tem razão.

Num país onde os pilares de construção da cidadania – direitos civis, políticos e sociais – foram invertidos, gerando o fenômeno da “Estadania” (1), com o Estado autoritário a distribuir punições e favores, os direitos civis, apesar dos avanços, oscilam para a frente e para trás, ao sabor dos governantes de plantão. Prova disso, são os avanços e recuos – estes às vezes maiores – da incessante luta de negros, homossexuais, mulheres e índios por seus direitos, num país profundamente patriarcal.

Isso porque, ao invés de ações geradas em consequência de um processo educacional que cumpra sua função de fomentar espírito crítico, conscientização e auto-estima, entre outras coisas, pela valorização da diversidade e da identidade cultural de que somos portadores, no Brasil, como disse Oliveira Viana, tudo acontece por decreto, de cima para baixo, nasce na lei, desenraizado e, portanto, fadado a ter vida curta e efeitos duvidosos.

Aninha foi buscar na força revolucionária do teatro, como na Era de Ouro de Péricles, na Atenas de Sófocles, Eurípedes e Ésquilo, a forma ideal para educar e formar cidadãos, pelo resgate de sua identidade, no caso específico, africana, sua história e o seu papel central na formação da sociedade e da cultura brasileira.

Seu texto, “A Comida de Nzinga” (co-autoria de Marcos Dias), em cartaz no Teatro Solar Boa Vista no próximo final de semana (18,19 e 20, às 19 horas) é uma prova do que acaba de ser dito. No palco estão 14 atores negros contando a história de uma rainha negra, a guerreira Nzinga, que viveu na localidade de Matamba, no sudoeste da África, onde hoje está Angola, entre os séculos XVI e XVII. Nzinga, cujo nome não está em nenhum livro de história do Brasil, dedicou sua vida à luta contra a escravização de seu povo pelos portugueses.

De fato, é possível notar, numa plateia eminentemente negra em busca de resgatar sua história, sua identidade e sua cultura na mesma dimensão de importância que a cultura europeia teve para a formação do Brasil, uma enorme empatia com tudo que acontece no palco, onde os atores também são negros, os cenários, os costumes, a comida, as histórias têm tudo a ver com eles.

A Nova História chegou ao teatro brasileiro.

Viva Nzinga! Viva Aninha Franco!

(1) Conceito de José Murilo de Carvalho.
Rosane Santana é jornalista

SERVIÇO:

O quê : Espetaculo Teatral “A Comida de Nzinga”
Elenco:
Rainha Nzinga – Clara Paixão
Ngola Mbandi (pai) – Raimundo Moura
Feiticeiro – Léo Santis
Kia Mbandi (irmão) – Guilherme Silva

Coro: Bruno Roma, Danielle Anatólio, Diogo Teixeira, Fernanda Silva, Josi Acosta, Kadu Fragoso, Mirian Sampaio, Nadja Accioly, Pedro Albuquerque e Sabrina Bispo.

Texto: Aninha Franco e Marcos Dias
Direcao: Rita Assemany
Assistente de Direcao: Diego Valle
Coreografia: Conceição do Amor Divino
Realização: Cia Axe do XVIII
Direção de produção e execução: Clara Paixão e Diego Valle
Fotografia: Sora Maia
Assessoria de Imprensa: R.S. MTB/BA 1050 (71)9102-7171

Locais:Cine Solar Boa Vista (18,19, 20/09), Espaço Cultural Alagados (25 e 26/09) , Espaço Cultural Plataforma (2,3,4/10) e Espaço Cultural Barroquinha (8,9,15,16,22,23 de outubro e 7,8,9,14,15,16 de novembro)
Horario: 19h.
Ingressos: Inteira R$ 10 e R$ 5. Obs: Ingressos gratuitos no primeiro dia de apresentação em cada cada teatro.

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