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ARTIGO DA SEMANA

Marina x Dilma (e Aécio): tapas e beijos no ringue eleitoral

Vitor Hugo Soares

Cansada de apanhar, e de ser empurrada para as cordas no ringue em que se transformou a campanha presidencial, na sua ruidosa e indefinida quase reta de chegada, a candidata do PSB, Marina Silva, ensaia mudança drástica de conduta. Troca as sandálias da delicadeza política e da pessoal doçura franciscana, pelos sapatos de palmilha e salto reforçados: bem mais apropriados para a fase “bateu levou” que ela parece ter decidido encarar desde a última quinta-feira, 11 de setembro.

A ambientalista – trajada com a vestimenta socialista do partido que a protege e abriga desde que a Justiça Eleitoral lhe negou, estranhamente, o direito de criar a sua Rede – não poderia ter escolhido data mais emblemática para sinalizar a transformação de comportamento na campanha. Tanto os que recordam com espanto das torres gêmeas derrubadas em Nova Iorque, nos Estados Unidos, quanto os que não esquecem do Palácio La Moneda bombardeado em Santiago, no Chile, de onde foi retirado morto o presidente democraticamente eleito, Salvador Allende.

Marina não poderia, igualmente, ter escolhido ambientes mais apropriados para mandar os sinais ressonantes de seus tambores de guerra: o programa do PSB no horário gratuito de propaganda na TV, em cadeia nacional, e a sabatina a que foi submetida a candidata pelos colunistas do jornal O Globo, no Rio de Janeiro. No primeiro caso, a surpresa do programa repaginado, enxuto, direto e expressando à quase perfeição (diante da exigüidade do tempo) o sonho e o projeto da candidata de estabelecer ligação e diálogo diretos com a sociedade.

Sonhos alentados em razão da atual falência política e moral dos partidos políticos e de seus principais representantes nos parlamentos e nos governos: federal, estaduais e municipais. Uma Inspiração, diga-se, recolhida do pensamento e da ação do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos: o candidato inicial do posto agora ocupado pela ex-senadora, tragicamente morto em 13 de agosto no desastre aéreo de Santos.

Desastre, por sinal, ainda à espera de investigações sérias sobre as suas causas e responsabilidades. Esclarecimentos cabais e insofismáveis. Além de reparações justas e rápidas (reivindicam familiares do ex-governador) às famílias de todas as vítimas da tragédia. Passageiros e tripulantes do jatinho Cesna e moradores do bairro santista onde o avião caiu e explodiu.

Medidas que poderiam estancar ou mesmo impedir siga prosperando a perversa cultura nacional de transformar vítimas em culpados. De confundir tudo e misturar na geléia geral brasileira, em que nada é verdadeiramente esclarecido e os reais culpados sempre escapam, entre os dedos ou pela cada vez mais escancarada porta da impunidade e da cumplicidade.

No segundo caso, mas não menos importante (até ao contrário), a decisão de Marina Silva de promover o ensaio geral da sua fase “bateu levou”, durante a sabatina do jornal O Globo, na última quinta-feita, igualmente no 11 de setembro. E a candidata socialista bateu forte e sem meias palavras ou metáforas impenetráveis.

Partiu para cima do PT e da adversária Dilma Rousseff, com quem disputa ponto a ponto nas pesquisas de opinião a preferência do eleitorado nacional, na corrida para destronar a atual ocupante do Palácio do Planalto, uma vez que Aécio Neves, do PSB, “só faz murchar”, como definiu o jornal espanhol El Pais.

Dilma briga pela reeleição com todas as garras (e alguns sorrisos e beijinhos, como se viu esta semana na cerimônia de posse do ministro Ricardo Lewandowski, no comando do Supremo Tribunal Federal). Na sabatina, a ambientalista mirou na cabeça do PT, ao responder uma pergunta sobre a situação atual dos partidos políticos no Brasil: as pessoas não confiam em um partido que colocou um diretor na Petrobras por 12 anos para “assaltar os cofres” da estatal, disse, referindo-se a Paulo Roberto Costa, ex-diretor da empresa encarcerado pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, por evidências de participação de esquema de corrupção em contratos da Petrobras.

E, sobre a acusação de que pretende sepultar o pré-sal, espalhou chumbo na direção da candidata petista que, na véspera, a acusara, em um palanque de Belém do Pará, ao lado do ex-presidente Lula, de “candidata frágil, insegura e vacilante, que recua e muda de posição, até diante de um Twitter postado nas redes sociais”, foi enfática:

“É preciso entender que o que está ameaçando o pré-sal é o que está sendo feito pela Petrobras. Uma empresa que hoje vale metade do que valia quando Dilma assumiu, e que está quatro vezes mais endividada, em relação à dívida que tinha. É isso que está ameaçando o pré-sal”, rebateu Marina, na sabatina.

Teve muito mais, mas não repito aqui. Os detalhes estão nos jornais, nas redes sociais, nos horários eleitorais e na ressonância das ruas. O que importa de tudo isso são os fatos, a verdade, e o resultado. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@ terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 13 setembro, 2014 at 9:24 #

Caro VHS

Em dias como este, quente, preguiçoso, chato no que diz respeito às manchetes sobre a tal eleição, só me resta buscar socorro em um personagem que habita minha escassa, e quase totalmente perdida prosa. Nhô Cansado, compadre de Sinhá Sensata.

Idade indefinida de quem testemunhou os porres de Jânio Quadros, desde sua investida contra o biquíni, até o evento das ditas, mas jamais pronunciadas, forças ocultas.

Nhô cansado tem uma grande vantagem sobre nós, pobres mortais, fuma cigarro de palha, o que inclui o picar fumo, cortar a palha, macerar o fumo, enrolar o cigarro, para só então socorrer-se da velha binga. Tempo precioso para matutar.

E muito tem matutado o nosso Nhô Cansado, ainda mais quando espera o café de coador, junto ao fogão de lenha, na casa da comadre Sensata. Tempo calmo, cheiro bom, vindo do bule, níveis de nicotina em desespero, esperando o primeiro trago.

– Então Sinhá….

A voz rouca, calma, sem pressa, seguida da habitual pigarra, enquanto a palha era enrolada.

– Uma diz que fará, outra diz que fará mais, ninguém replica, prestam atenção só no tom e no tamanho da injúria, os que torcem para uma, torcem do mesmo jeito dos que o fazem para outra, muito barulho, nenhuma convicção criada, daquelas que impõem respeito.

O cigarro era tragado, a fumaça simulava enredos, ao cruzar o raio de sol, vindo da porta, junto a ela, o gato dormia, para além dela, o mundo era o mesmo, sem esperança.

– Falam em crescer, desenvolver, recolocar o tal PIB num caminho seguro, uma com governabilidade, outra com sustentabilidade. Numa coisa parecem concordar, ao menos no discurso, do que jeito que está não dá para continuar.

Por um momento distraiu-se, quedou-se com seus olhos claros fixos na velha lamparina que há muitos anos repousava, sem uso, sobre a dispensa.

– Pois é…

Retomou a prosa.

– Com essa falta de energia, esse risco de apagão, com essa carestia das termoelétricas, com esse mau humor de São
Pedro…….

Pausa para um novo pigarro, desta vez forte, grave, quase que sem fim.

– Então, Sinhá, como podem falar em crescer se não tem energia que sustente?

– Como podem falar em aumentar produção se não tem como escoar?

Um novo gole no café, nariz e boca satisfeitos, com o aroma e sabor, olhos sorrindo, por um instante.

– Pior é que ninguém pergunta, apenas torcem, sem saber, a razão, o destino, o fardo e a cobrança que virá.

Foi assim VHS que acordei, porque hoje é sábado, porque hoje tem artigo da semana, porque, para além disto tudo, Caymmi ainda cantarola.

TimTim!!!


luiz alfredo motta fontana on 13 setembro, 2014 at 9:59 #

Pagano Sobrinho, humorista, que frequentava a esquina da Avenida São João com a Ipiranga, em São Paulo, bem em frente ao Bar do Jeca, nos anos 60, tinha como característica o humor rápido, direto, piadas curtas, de riso certo.

A melhor delas:

Cinema, meio do filme, a namorada diz aflita ao namorado:
– Olha o guarda, guarda!

Alguns, ousavam, recontar a piada, com mais denodo, e a gíria em socorro ao sinônimo, triunfava.
A namorada então dizia:
– Olha o tira, tira!

Hoje, Pagano estaria à mingua, acostumamo-nos a longos discursos, eivados de adjetivos, bordados em falácias, mimetizados em orações.
Alguém, em sã consciência, reconhece nas candidatas e candidatos alguma relevância?

Então como diria o publicitário viciado em trocadilho, assistindo a briga das ex ministras de Lula:

-Bolachas?
-Piraquê brigar?

Fecha o pano.
Relaxar é preciso.


Mariana Soares on 13 setembro, 2014 at 14:33 #

Vida que segue, meu irmão…Desligar a TV, trocar o canal, escolher bem o que e a quem vamos ler…e nos próximos dias 5 e 26/10, quem sabe?, vamos às urnas…é só o que nos resta e que nos dá voz!


Chico Bruno on 14 setembro, 2014 at 10:13 #

Vitor, a Dilma e o Lula estavam em Belém ladeados por Jader e Helder Barbalho. Que tal?


vitor on 14 setembro, 2014 at 11:18 #

Isso mesmo, Chico.

Todos tratados como príncipes no palanque, no qual Lula prometeu até mergulhar no mar para jr buscar o petróleo do pré-sal.

Paulada mesmo, só em cima de Marina.

Um comício para ser registrado, amigo, e jamais esquecido como lição da política de muros baixos que se pratica nesta campanha. Abs


luiz alfredo motta fontana on 14 setembro, 2014 at 11:44 #

Caro VHS

Domingo sucede ao sábado com a vantagem da noite dormida.

Esse fenômeno irá se repetir no que diz respeito às eleições, lá em março ou abril de 2015, estaremos longe dos ruídos e armadilhas dos marqueteiros de sempre.

Desconfio, cá entre nós, que a decepção irá triunfar independente de qual seja a figura ungida. Em relação a nossa política, especialmente aos atores em cena, minha poesia não consegue fingir, apenas deplora.

Fica ainda uma triste constatação, a anemia crítica anda aflorada entre nossos articulistas, escrevem o mesmo sobre o nada, floreiam sobre frases emitidas por puro marketing, reproduzem a névoa que dissimula as fraquezas e nódoas dos postulantes.

Por sorte, ou por ser domingo, em meio as distorções que leio, encontro uma belo artigo de Juan Arias, El País, que reproduzo aqui:

…………………………………

Lula já ganhou
As candidatas Dilma Rousseff e Marina Silva se valem de seu mito de origem para conquistar votos
JUAN ARIAS 12 SEP 2014

Duas mulheres, as principais candidatas às eleições presidenciais, Dilma Rousseff e Marina Silva, disputam entre si o mito do ex-presidente Lula. Ambas foram ministras em seus mandatos e militaram no PT, o partido fundado pelo ex-sindicalista. Dilma Rousseff continua nele ainda, mesmo tendo chegado depois de sua fundação. Marina Silva saiu depois de ter trabalhado com ele por 26 anos.

As duas mulheres, formadas em Universidade —Rousseff, economista, e Silva, historiadora—, disputam entre si as graças de seu antigo chefe, um torneiro mecânico sem estudo.

Em 2010, Lula escolheu Rousseff, então ministra da Casa Civil, como sua sucessora. E já naquelas eleições Rousseff enfrentou a ambientalista Silva. Ambas tinham já duelado no Governo Lula. Ele diz que ambas são mulheres e líderes políticas nascidas sob suas asas. Por isso, ainda que se enfrentem nestas eleições e apesar de Lula estar ajudando sua escolhida, ele diz que não atacará a adversária, considerada por alguns um Lula de saias.

As duas, Dilma e Marina, se valem de seu mito original. A presidenta se apresenta aos eleitores mostrando as conquistas não só de seu Governo como também as dos Governos Lula, como se fossem suas. Sabe que sem ele perderia identidade e votos.

Marina usa a bandeira do lulismo quase para indicar que ela tem maior legitimidade dentro do PT, do qual participa praticamente desde criança. Ela seria herdeira daquele partido que, segundo Lula confessou, deverá ser refundado, porque se transformou em um partido a mais, enquanto tinha nascido para ser “diferente”. Deveria ter sido o partido que trazia a essência da ética à política. Marina se sente herdeira do PT das origens?

E Dilma, que entrou já tarde no PT, vinda dos seguidores de Brizola, será que pode dizer que não compactuou com as práticas posteriores do partido que, segundo Lula, devem ser revistas para voltar à sua pureza original? Será por isso que, em um certo PT, alguns torcem o nariz para Dilma ainda hoje?

A verdade é que as duas políticas necessitam curiosamente do mito de Lula para melhor se vender ao eleitorado. E estão fazendo isso. Marina se ampara em Lula para rebater Dilma quando é atacada por ela. Às acusações de querer entregar o Brasil aos banqueiros, a ecologista recorda Dilma que os bancos nunca ganharam tanto como nos Governos de Lula, algo que ele mesmo afirmou mais de uma vez. E acusou sua concorrente de usar contra ela a arma do medo, como tinha feito em 2002 com Lula que, por sua vez, já disse que não pensa em atacar sua ex-ministra do Meio Ambiente. Lula considera que sua biografia inclusive se parece mais à de Marina do que à de Dilma. Os dois foram mordidos pela pobreza em sua infância, enquanto a Presidenta desfrutou do conforto de uma família bem situada. As duas mulheres se rifam a Lula, a seu carisma e a sua força eleitoral, enquanto o ex-metalúrgico já confessou querer voltar a entrar na disputa em 2018: “Terei então 72 anos e não vou permitir que voltem ao poder os que nunca fizeram nada por este país em 500 anos”, disse referindo-se sobretudo a seus eternos adversários do PSDB.

De alguma forma, o vencedor já é Lula. As duas mulheres que, se não houver surpresas, vão disputar voto a voto o Planalto, são mulheres suas, alimentadas em seu seio. Ganhe quem ganhar, ele terá triunfado. Se for Dilma, porque foi sua escolhida; se for Marina, porque poderia ter sido também ela a preferida. Ambas, realmente, levam nas veias o DNA do PT.

Lula não é um político de derrotas e é capaz, como ele mesmo já destacou, de “metamorfosear-se” para cair em pé diante de qualquer acontecimento.

Explica-se assim a perplexidade de muitos especialistas políticos que não entendem porque o ex-presidente não se dedica mais de corpo e alma à campanha de sua escolhida, Rousseff, ao mesmo tempo em que também não está disposto a fazer guerra contra Marina, que pode dar um susto em Dilma.

Explica-se. Quem quer que vença, mesmo que seja Marina, ele não perde. Qualquer uma delas permanecerá apenas quatro anos no poder. Dilma por exigências legais, e Marina porque deseja mudar a lei. Assim, ambas preparam o caminho para sua possível volta.

Se Marina já informou que gostaria, em caso de vitória, de contar com Lula em seu Governo, por que não pensar que em um hipotético novo Governo de Lula, Dilma e Marina poderiam voltar a ser suas ministras?

Afinal, a política está precisando de um pouco de suspense de novela.

E se, ao contrário, tudo isso fosse mais realidade do que ficção?

Nada, na política, acaba sendo mais inverossímil, inesperado, incrível e até absurdo do que a realidade dos fatos.

………………………….

Veja só, chega a ser poético, duas mulheres lutam para oferecer mimos ao Lula.

Incluo-me definitivamente fora deste enrredo mal resolvido.

Em março ou abril, ao som de Caymmi sentaremos todos em uma mesa ao canto e brindaremos ao porvir.

Brindar é preciso, escolher entre elas certamente não.


luiz alfredo motta fontana on 14 setembro, 2014 at 11:47 #

errata

enrredo = enredo


luiz alfredo motta fontana on 15 setembro, 2014 at 16:41 #

Marina assemelha a um camaleão quando o assunto é convicção política.

Aqui Josias de Souza:

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“Marina muda programa de governo para 2º turno

Josias de Souza 15/09/2014 16:04

O programa de governo de Marina Silva sofrerá novos ajustes para o segundo turno da disputa presidencial, informou a coordenação da campanha nesta segunda-feira (15). Após encontro com empresários, o coordenador Walter Feldeman chamou a futura peça de “programa de governo 2.0.”

Curioso, muito curioso, curiosíssimo. Com 243 páginas, o programa de Marina gira ao redor de “seis eixos”. Na versão promocional, vieram à luz depois de ser “discutidos com vários setores da sociedade, em encontros em todas as regiões do país e em oficinas temáticas”.

A julgar pela forma como vem sendo mexido, o programa de Marina deve mesmo ser fruto de inusitadas discussões. Envolveram representantes surdos da coligação e pessoas mudas da sociedade. Ou vice-versa.

Diz-se que os novos ajustes tratarão do “setor produtivo”. Mais um pouco e o eleitorado será convencido de que Marina é a favor de tudo e absolutamente contra qualquer coisa.”

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De jaguatirica a camaleão sem nenhum constrangimento.


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