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OPINIÃO

Silêncio, por favor.

Paquito

Há cerca de um mês escrevi uma carta ao prefeito de Salvador aqui mesmo na Terra Magazine, pedindo atenção nessa questão da poluição sonora que, na nossa cidade, não é bolinho.

Não obtive resposta. Ou melhor – e pior -, esta veio de forma indireta e lapidar, no sentido estrito da palavra, para sepultar de vez as esperanças de sossego.

A Câmara de Vereadores de Salvador aprovou um projeto – que ainda precisa ser sancionado pelo prefeito – que flexibiliza a lei do silêncio, em algumas “áreas de exclusão” da cidade (Arena Fonte Nova, Pelourinho, Parque de Exposições e trecho do Rio Vermelho): o nível máximo permitido será de 110 decibéis, quando o atual é de 60 db (à noite) ou 70 db (de dia).

Além das zonas previstas, o projeto propõe a liberação de 110 db em toda a cidade, 25 dias antes e 10 dias depois do carnaval (um verão, literalmente, do barulho); e 15 dias antes e 10 dias depois do São João; considerando uma situação ideal, já que, na realidade, a fiscalização é ineficiente para conter a sonzeira que já nos habita diariamente, colonizando nossos ouvidos.

Em reportagem do jornal A Tarde, Otávio Marambaia, diretor da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia na Bahia, considerou a flexibilização um problema de saúde pública: “Salvador vai ser a primeira cidade do mundo a legalizar a poluição sonora. A Câmara está querendo que a população de Salvador fique surda”, acrescentando que 110 db é um som mais alto que o da turbina de um avião. Ou seja, a população soteropolitana vai estar condenada – se já não sofre desse mal extra-oficialmente – a viver em um ambiente sonoro de pista de aeroporto, só que em áreas urbanas e residenciais.

Em meio à discussão (surda?), os carros de som continuam, céleres e livres, atazanando o juízo.

Sempre no Campo Grande, caboclo lá do alto, quem sabe, a refletir: “já tenho que ficar em pé e imóvel há anos, e ainda obrigado a suportar o barulho?”.

(É duro ser estátua, diz um rock estapafúrdio de Roberto e Erasmo; por isso mesmo, divertido. Nada divertida e mais estapafúrdia é a direção que toma a questão da saúde pública em Salvador, movida pelos interesses da indústria do carnaval, do qual a maioria dos baianos foge.)

Há dias, um desses carros, com música de Júlio Iglesias em alto volume, invadiu minha vizinhança e arredores.

Iludido, liguei pra Sucom, olhei pela janela, dei a placa e a cor do carro (preto, feito os carros da morte) e esperei, mas o fiscal não veio, nunca vem. E o som não parava…”Ou me queres ou me deixas…”

Por que não me deixas, não nos deixa?

Ele parou (o carro e o motorista são uma coisa só, monstro de várias bocas, todas potentes) e passou a vender discos piratas.

Dois dias depois, foi na Avenida Sete: mais Iglesias em volume máximo, tomando a avenida, levando compulsoriamente os passantes para aquele universo passional desesperado. Mas o carro era outro, outra cor.

Adiante, mais outro carro com o renitente Júlio chorando suas mágoas: meu Deus, eles estão em bando, são uma quadrilha de chorões poluentes…

Anteontem, pela manhã, no meio do banho, de repente chegou mais um som: “Jutahy Magalhães…é é é é…”. Parecia uma imitação de cabra, só que uma cabra com serviço de amplificação.

Se eles mesmos – os candidatos a qualquer cargo público -, que querem ser (ou continuar) nossos gestores, não dão o exemplo, como exigir dos outros silêncio? Como exigir dos outros respeito? Eleição rima com poluição sonora.

Quando a gente não tem mais pra quem apelar, já que os poderes públicos e constituídos são, eles mesmos, fomentadores de poluição sonora, sabem o que eu queria num momento desses?

Eu queria um vândalo.

Um vândalo desses danados, de não temer prisão nem perseguição do Estado cerceador, mas um vândalo com superpoderes, o Supervândalo – sinal de saúde na nossa vidinha política antiga e comezinha – pra não contar conversa e vandalizar com os poluentes sonoros, quebrar suas caixas de som, atiçar longe os fios, furar os pneus do seus carros, e, enfim, silenciá-los com requintes de crueldade.

Mas tudo bem baixinho, em silêncio de morte, sepulcral e avassalador.

Paquito é músico, compositor, intérprete e produtor baiano. Foi gravado por Maria Bethânia, Jussara Silveira eSarajane. Produziu, com J. Velloso, os cds Diplomacia, de Batatinha e Humanenochum, de Riachão. Gravou os cds Falso baiano e Bossa trash

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