==================================================


Bahia em Pauta reproduz abaixo o artigo de Juan Farias, publicado no jornal espanhol El Pais (Edição do Brasil). Veio cuidadosa, generosa e inteligentemente embalado por um comentário do advogado, poeta de Marília (SP), blogueiro (editor do Blogbar) e amigo do peito do BP, Luiz Alfredo Motta Fontana, postado na notícia da candidata Marina Silva, PSB,sobre procedência dos pagamentos pelas palestras por ela ministradas ao longo de três anos..

O artigo de Juan Farias no diário espanhol é um primor de conteúdo jornalístico, análise política e texto. Bahia em Pauta o pública, na íntegra, no contexto do comentário do poeta Fontana. Igualmente lúcido e brilhante.

BP agradece. Confira.

(Vitor Hugo Soares)

==================================================================

Se…

De um lado a “praxis” de Marina ainda é uma grande incógnita, especialmente com pinceladas de FHC, Lula, et alli…. que decoram sua cruzada por uma “nova política”, seja lá o que for este epíteto.

De outro…

A “teoria” ganha alguma luz com o artigo estampado no El País.

Vejamos:

“Hannah Arendt, a musa ideológica de Marina Silva

JUAN FARIAS

Conceitos políticos mencionados por Marina se encontram nos escritos, por ela citados, dessa filósofa alemã

Em quem se inspira intelectualmente a candidata Marina Silva?

De que textos absorveu suas reflexões, que para muitos parecem enigmáticas, herméticas, “sonhadoras”, diferenciadas da linguagem comum dos outros políticos?

Uma de suas fontes é a pensadora alemã de origem judia Hannah Arendt, falecida em 1975, e que, durante a Segunda Guerra Mundial, perdeu sua nacionalidade alemã e seus direitos políticos por dez anos. Depois de ter sido mandada para um campo de concentração nazista do qual conseguiu fugir, acabou recebendo a nacionalidade norte-americana e foi catedrática na Universidade de Chicago e na New School of Social Research, em Nova York.

Conceitos políticos mencionados por Marina se encontram nos escritos, por ela citados, dessa filósofa alemã. Como a dura crítica à “velha e arrogante política” dos partidos, a predileção pela democracia direta sobre a representativa, o uso de plebiscitos para dar voz ao povo, o esforço para reunir as opiniões divergentes e até a ideia de combinar política com sonhos, milagres e religião.

Na França, onde se exilou para escapar do nazismo, Arendt conheceu os grandes intelectuais da época, como Walter Benjamin. Antes, em Berlim, estudou teologia e filosofia com Soren Kierkegaard. Foi também aluna de Martin Heidegger e Rudolf Bultmann.

Sua rejeição aos totalitarismos de esquerda e de direita e sua defesa do pluralismo político fez com que seus escritos sobre a filosofia existencial e sua reivindicação por uma discussão política em total liberdade lhe dessem, na Europa e nos Estados Unidos, um papel importante no debate de ideias de meados do século passado. Por sua contribuição à análise política recebeu o Prêmio Lessing de 1959 e o Sonning de 1975, outorgado pela Universidade de Copenhague, na Dinamarca, e que já tinha sido agraciado a personalidades como a escritora Simone de Beauvoir e o cineasta Ingmar Bergman.

Arendt sempre se negou a ser vista como filósofa. Ela se considerava uma “analista política”. E são muitas das suas ideias sobre política as que justamente foram assimiladas pela ecologista brasileira, que pretende ser a segunda mulher a chegar à Presidência da República.

O título de um artigo de Marina que chamou a atenção, sobre o “improvável e imprevisível” na política e na vida, que já refletia uma espécie de profecia do que ela viveria nestas eleições – que ela já chegou a considerar como um milagre -, aparece literalmente nos escritos da pensadora judia.

Interrogando-se sobre a política, Arendt escreve: “Se o sentido da política é a liberdade, é nesse espaço – e não em nenhum outro – que temos o direito de esperar por milagres. Não porque acreditemos neles, mas porque os homens, à medida em que podem agir, são capazes de levar adiante o improvável e imprevisível, saibam eles ou não”. E acrescenta: “A pergunta sobre se a política tem algum sentido, ainda quando acabar a fé nos milagres – e onde deveriam acabar, senão? –, nos conduz inevitavelmente de novo à pergunta sobre o sentido da vida”.

Marina, inspirando-se nessas palavras da pensadora judia, escreveu há seis anos no artigo citado: “O sentido da política é a liberdade. Os cidadãos e cidadãs estão criando uma política livre, viva, no meio acadêmico, nos movimentos culturais, no consumo consciente, na internet, nas empresas, nas ONGs, nas igrejas. O grande desafio da democracia é criar espaços múltiplos de participação política, onde os partidos sejam participantes e não guias. Os homens são capazes de realizar o improvável e o imprevisível. É o que a sociedade brasileira está fazendo. E os partidos ainda não ficaram sabendo”.

A candidata que criou o significativo partido chamado “Rede Sustentabilidade”, ou seja, uma “rede” mais do que um partido, onde cabem todas as ideias, seguramente se inspirou na ideia filosófica de Arendt quando defende que o poder é aquilo que “nasce da ação conjunta, orquestrada, de maneira que pertença a um grupo”. Segundo a pensadora judia, essa ideia nasce da consciência de que “somos um ser”, não algo do todo concluído mas algo que nasce da “duplicidade original de cada indivíduo”. Segundo elas, vamos “nos realizando através de um diálogo de todos que ao final pode nos dar a impressão de que acabamos mudando de opinião”.

De fato, já foi dito que Marina costuma levar os diálogos com seus parceiros sobre um determinado tema até o esgotamento, e que no final ela pode acabar mudando de opinião arrastada pelo que Arendt chama de “a força da deliberação comum”.

Existe até uma coincidência na identidade religiosa de Marina e Arendt. Apesar de sua origem judia, esta última estudou com dois grandes pensadores e teólogos protestantes, os luteranos Soren Kierkegaard e Rudolf Bultmann, e chegou a defender uma tese sobre a ideia de amor do Pai da Igreja Católica, Santo Agostinho.

Marina foi católica, seguidora da teoria progressista e social da Teologia da Libertação, e depois ingressou no protestantismo pelas mãos da Igreja Evangélica. Há até quem enxergue em algumas das ideias econômicas de Marina uma inspiração no protestante Calvino, como o apreço pela austeridade na vida e pela ideia fundamental de que o “esforço pessoal” agrada a Deus a ponto de ele acabar nos abençoando com o triunfo econômico.

Sempre foi dito que Marina é mais uma cultivadora da “espiritualidade” do que da “religião”, e por isso é vista como uma evangélica discreta, despojada de fanatismo. E foi o luterano Kierkegaard, em quem Arendt se inspirou, quem cunhou a ideia de que “a espiritualidade está acima da fé religiosa”.

O forte tom ético no pensamento de Marina aparece bem evidentemente nos escritos de Arendt que resumem a moral política no sentido de “coerência”. A pensadora judia extrai a ética do filósofo Sócrates, quando afirma que “é preferível sofrer uma injustiça do que cometê-la” e que “é melhor ser vítima do que autor de uma injustiça”.

As ideias de pluralidade da política e da força de “unir os diferentes”, que aparecem no repertório marinista, estão todas em evidência na obra de Arendt. Marina já tinha escrito há seis anos, quando era ministra do Meio Ambiente de Lula: “Se tenho um exemplo para dar na minha trajetória é o da coragem, que não é a força bruta, mas sim saber lidar com sonhos e catalisar energias”.

A política Marina está levando ao extremo a ideia de Arendt de “unir os diferentes” quando afirma querer ter juntos, num futuro governo dirigido por ela, Lula e Fernando Henrique Cardoso.

O mantra de Marina de que na política é possível conciliar “pragmatismo e sonhos” é também outra das principais ideias extraídas da pensadora judia, referência intelectual e até religiosa da candidata evangélica.

Quem deseja conhecer melhor tudo aquilo do qual Marina é hoje acusada que leia a pensadora existencialista judia, Hannah Arendt, uma espécie de musa intelectual da Joana d’Arc brasileira.

Há quem já se pergunta, como Elio Gaspari, se a guerreira Marina não acabará também na fogueira que tirou a vida da santa francesa. Ou, perseguida como a judia Arendt porque seus sonhos e profecias políticas ainda provocam medo na “velha política”.

Com a palavra os aliados e adversários!

Be Sociable, Share!

Comentários

Jader on 2 setembro, 2014 at 14:21 #

Me poupem!!!!!! Musa ideológica !!!!!!????? Sera que Marina já ouviu falar em Arendt ? Pensei que a musa ideológica da Marina fosse a Neca , dona do Itaú!!!
“A política Marina está levando ao extremo a ideia de Arendt de “unir os diferentes” quando afirma querer ter juntos, num futuro governo dirigido por ela, Lula e Fernando Henrique Cardoso. “Sic. Neoliberalismo e distribuição de renda são incompátiveis!!!!!
O RESPEITADO jornalista americano Wayne Madsen levanta outra hipótese :
http://democraciapolitica.blogspot.com.br/2014/08/morte-de-eduardo-campos-sob-suspeita.html


regina on 2 setembro, 2014 at 19:26 #

E, para engrossar um pouco mais o caldo, ou colocar um pouco mais de luz (nunca é demais na escuridão em que nos tateamos em busca do próximo/a ocupante do Palácio da Alvorada), aqui um artigo que liga Marina Silva à sua musa ideológica, Hannah Arendt…

A “heteroestima” de Marina Silva e o Prêmio Conversa Para Boi Dormir
Postado em 06 jan 2014
por : Kiko Nogueira

O Prêmio Doublespeak foi inventado em 1974 pelo Conselho Nacional de Professores de Inglês dos Estados Unidos. Como a entidade define, trata-se de uma “homenagem irônica a oradores públicos que perpetuaram uma linguagem grosseiramente enganosa, evasiva, eufemística, confusa ou autocentrada”.
Nesses 40 anos, a lista de premiados incluiu Bushs pai e filho, Bill Clinton, o Departamento de Estado americano, Ronald Reagan, a indústria do tabaco, a Exxon e a Associação Nacional do Rifle. A CIA foi agraciada com a honraria por anunciar que não iria mais usar o termo “matar” em seus relatórios. Em seu lugar, entraria a expressão “privação ilegal ou arbitrária da vida”. Em 2013, quem ganhou foi o prefeito de Chicago, Rahm Emanuel.
É preciso criar algo parecido aqui. O Prêmio CPBD, Conversa Para Boi Dormir. O primeiro vencedor é relativamente batata. Marina Silva. Pelo conjunto da obra e, especialmente, por seu último artigo na Folha. É um texto que cabe na definição de George Orwell num ensaio: feito para dar “aparência de solidez a vento puro”.
Vamos a alguns trechos da coluna que mereceu o Prêmio CPBD:
Em meio aos abraços amigos e desejos de feliz Ano-Novo, costumamos reconhecer a sinceridade dos desejos para além das palavras, pois estas são, muitas vezes, gastas e repetidas. As palavras necessitam de gestos que recuperem e sustentem seu sentido.
Releio Hannah Arendt, para melhor refletir sobre a possibilidade de restaurar a capacidade humana de lidar com as desconfianças e incertezas causadas pela ameaça do imprevisível, por meio do milagre da “promessa”. Na dimensão política da crise civilizatória que vivemos, a crise de confiança é o centro do problema.
Ainda é possível refazer a confiança, dentro de um espaço de heteroestima política, social, cultural, como indivíduos e como povo? Temos motivo para descrer, num mundo fragmentado em que as relações se liquefazem e escorrem, sem estabilidade. Mesmo as novas formas de relacionamento e comunicação que inventamos, muitas vezes parecem ser uma desesperada tentativa de agarrarmo-nos uns aos outros, multiplicando conexões frágeis e superficiais na ausência de laços de confiança efetivos e afetivos.
É um clássico da “linguagem evasiva e autocentrada”. No meio do blablablá, surge uma palavra chave: heteroestima. Não está no dicionário. Consta que é o oposto de autoestima, segundo Fátima Bernardes e Ana Maria Braga.
Podemos, sim, superar a fragmentação do mundo em crise compondo novas sínteses baseadas em novas harmonias. Se já não confiamos naqueles que prometeram tudo, eis aí o sinal para que nossa nova promessa seja um acordo, simples e claro, naquilo que é essencial. A confiança vem do que é sustentável.
Esse último parágrafo foi colocado no Google Tradutor, mas o aplicativo não reconheceu o idioma. É possível que Marina fale a língua dos seus eleitores. Mas, ainda assim, é duvidoso que eles entendam tudo. Hannah Arendt, que ela afirma ter relido, disse o seguinte: “O problema de mentir e enganar é que sua eficiência depende inteiramente de uma noção clara da verdade que o mentiroso e enganador deseja esconder”.
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-heteroestima-de-marina-silva-e-o-premio-conversa-para-boi-dormir/


rosane Santana on 2 setembro, 2014 at 22:36 #

Vou passar pro Facebook


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2014
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
    1234567
    891011121314
    15161718192021
    22232425262728
    2930