Marina na Bienal do Livro em São Paulo

==================================================

ARTIGO DA SEMANA

Mãos que embalam Marina (além do Destino)

Vitor Hugo Soares

Inúmeras mãos – visíveis a olho nu ou ainda submersas nas profundezas do imaginário nacional – embalam a ex-senadora e ex-ministra ambientalista Marina Silva. “Esse vulcão” humano e eleitoral avassalador em que se transformou a acreana aparentemente frágil de 50 quilos e 1.65 metro de altura, substituta do jovem e vigoroso ex-líder pernambucano, Eduardo Campos, nesta formidável corrida presidencial em curso no Brasil

A metáfora telúrica do vulcão tomei por empréstimo da biografia referencial sobre o cineasta Glauber Rocha, escrita e publicada há mais de uma década – e mais atual que nunca – por João Carlos Teixeira Gomes: jornalista, poeta, culto ensaísta literário e indomável polemista da Academia de Letras da Bahia.

Glauber, só para lembrar aos de memória curta, foi um bravo e genial criador de cinema. Figura com reconhecimento mundial. Revolucionário e inflexível santo guerreiro em permanentes batalhas contra diabos sociais e pessoais: do atraso político, da miséria econômica e cultural, da mendicância ideológica, defensor imbatível do pensamento crítico e livre. Demolidor de preconceitos de todos os tipos, declarados ou dissimulados sob quaisquer disfarces, incluindo os culturais e religiosos de que ele próprio foi vítima até a morte.

Não custa lembrar, mesmo ciente que muitos irão considerar uma comparação tola e despropositada: Glauber Rocha, a exemplo da evangélica Marina, era um crente da Igreja Batista que jamais abdicou dos sentimentos religiosos e éticos. “E o que tem isto a ver com o fenômeno Marina Silva e os acontecimentos extraordinários da política e da campanha eleitoral destes dias finais de agosto de 2014? Das entrevistas de vozes ásperas, dedos em riste, acusatórias ou quase condenatórias? Das guinadas abruptas dos programas eleitorais no rádio e TV? Dos ataques e insinuações quase inimagináveis (pela invencionice e grosseria) que grassam nas conversas, “informações” e comentários nas redes sociais?

Não sei e prefiro deixar as respostas para os leitores. O que faço é repetir aqui o estafeta, no seu diálogo inesquecível com o poeta Pablo Neruda, no paraíso imaginário do exílio, criado no livro do chileno Antonio Skármeta, “O Carteiro e o Poeta”, transformado em filme antológico e que faz pensar: “A poesia não pertence a quem a escreve, mas a quem precisa dela”.

Mas que ninguém se engane – nem os mais crentes, nem os incrédulos mais empedernidos. Além daquelas invisíveis e imponderáveis, outras mãos e braços fortes sustentam, embalam e ajudam a explicar e entender esse vulcão chamado Marina Silva. Forças e pessoas bem mais explícitas e objetivas, ao lado de outras não totalmente declaradas ou impossíveis, ainda, de ver com clareza sem uso de instrumentos que ajudem a enxergar mais longe ou no escuro.

As palmas mais numerosas e decisivas que sustentam a agora candidata socialista, na espantosa aprovação revelada nas pesquisas, são aquelas que silenciosamente (mas aos borbotões) ressurgem em cada ponto do País dos gritos das ruas e dos protestos de junho do ano passado. Os jovens, principalmente, somados aos descrentes nos políticos em geral, e no governo petista de Dilma em particular.

“A Dilma e seu governo fizeram cinco pactos para atender às vozes das ruas e não cumpriu nenhum”, diz Marina. Ou como disse Eduardo Campos, na entrevista a Bonner e Patrícia Poeta no Jornal Nacional, na véspera de sua morte: “Dilma é a única presidente, da história, que vai entregar o país a seu sucessor pior do que encontrou”. Preferiu apostar na velha política da dicotomia PT x PSDB, no mito que o marketing resolve tudo na hora H, nas conversas de confessionário com o Bispo Macedo, no suporte “imutável” do poder econômico ou na força eleitoral dos homens e mulheres do agronegócio. Ou da “incompatibilidade” de Marina (que chamam de xiita da floresta) com outras religiões ou com os poderosos do sistema financeiro e da “grande mídia”.

Tudo parece desmoronar agora como castelo de areia.

Relata o jornal espanhol El País, em reportagem destacada de sua sua edição para o Brasil: “Se nas redes sociais se estabeleceram os debates contra e a favor do avanço da ambientalista, na Bolsa de Valores de São Paulo ela já é tida como a próxima titular no Palácio do Planalto. A bolsa fechou nesta quarta-feira em 60.950 pontos, seu melhor resultado desde janeiro de 2013. Os analistas atribuem o desempenho à divulgação da pesquisa eleitoral, que colocou Marina num movimento ascendente, com capacidade de bater Rousseff no segundo turno. “A Marina é o nosso Obama”, diz Tony Volpon, chefe de Pesquisas para Mercados Emergentes da Nomura Securities”.

Ontem, sexta-feira, 29, Dilma baixou de surpresa em Salvador, com seus coordenadores de campanha e de marketing. Em suas novas vestes de modéstia e de freqüentadora de “bandejão”, a petista, ocupante do Palácio do Planalto em disputa da reeleição, veio tentar reacender, no Pelourinho, a chama de antigos pactos de Lula com as lideranças da cultura negra e dos cultos afro-brasileiros dos terreiros de candomblé. Enquanto isso, Aécio, do PSDB, só faz minguar. O resultado, o tempo, o povo e o destino dirão.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mal: vitor_soare1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 30 agosto, 2014 at 5:51 #

Caro VHS

Habemus papam!!!!

O PT faz seu último gesto, credita à Copa das Copas a recessão técnica que hora mergulhamos. Culpa das “zelites futebolísticas”, nunca antes neste jogo bretão o efeito foi tão funesto.

Aécio, e por consequência tucanos de alta plumagem, entram para o angustiado grupo de animais em extinção, no andar da carruagem, São Paulo, mantendo Alckmin, ganhará status de reserva ambiental.

Estranho pássaro, anos atrás o defini como aquela ave vestida à rigor, na sua plumagem black tie, porém com seu bico carnavalesco, uma contradição em si, além do voo curto e instável.

Alvissaras?

Não creio, já vivi muito para ter entusiasmos.

VHS, acerta cirurgicamente quando recorda: “A poesia não pertence a quem a escreve, mas a quem precisa dela”.

Vou além, a poesia resiste entre outras coisas, por ter o condão, o privilégio, de ser triste quando necessário. A poesia não ri a toa, não não finge prazeres, apenas os despe quando existem.

Será o caso?

O triunfo, repito e insisto, ao que tudo indica é de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.

“Tutto deve cambiare affinchè tutto rimanga come prima” (Giuseppe Tomaso di Lampeduza, Il Gattopardo)

Exagero?

Nenhum!

Aqui a ánalise contida no El País, edição Brasil, 29/08/2014,assinada por Talita Bedinelli, sob o título: Marina lança um programa liberal na economia e progressista no social:

“Do lado direito de Marina Silva estava acomodada Neca Setubal, a herdeira do Itaú, um dos principais bancos do país. Do lado esquerdo, o presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Roberto Amaral, que bradou críticas ferrenhas ao capitalismo e defendeu a distribuição de renda. No centro, a candidata à presidência apresentou seu programa de Governo, liberal na economia e progressista nas áreas sociais, ainda que não em todas, já que a lei sobre o aborto não terá mudanças num eventual Governo dela.”

O “mais do mesmo” é garantido, preservado, faz parte da sustentabilidade do ecossistema.

Ou não?

Ah mas tem Simon, o Pedro!

Pois é, mas tem o tal do Rands.

Quanto aos pactos de Lula com os cultos afro-brasileiros, fico com Xangô, a colheita é na medida exata do plantio.

Lula plantou Dilma, Padilha, colhe os mesmos em safra recorde de derrotas petistas.

Habemus Papa!

Duro vai ser controlar o portão das adesões.

Muitos serão os pretendentes a Iznogoud, aquele que queria ser Califa no lugar do Califa.

-Queremos ser Sarney no lugar do Sarney.

Já a educação, a saúde, a segurança, a esperança, …………………..

Fico com Caymmi:

“Se fizer bom tempo amanhã
Se fizer bom tempo amanhã
Eu vou!
Mas se por exemplo chover
Mas se por exemplo chover
Não vou!…”

TimTim!!!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos