Dilma, a caráter, na casa de Nalvinha em Batatinha(Paulo Afonso)

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Dilma abalou a Batatinha

Janio Ferreira Soares

Se eu fosse um colunista do sertão (sei lá, uma espécie de July de alforjes), escreveria assim: “Dona Nalvinha, a sortuda moradora de uma vila com nome de diminutivo de tubérculo, não poupou esforços e caprichou no visual e na originalidade para receber a visita mais importante de sua vida – ou melhor, as visitas, já que uma surpresa de última hora foi o tempero que faltava para apurar o sabor do seu guisado. Com a ajuda dos filhos ela varreu o terreiro, podou os bougainvilles, matou um bode, botou roupa de novena e até colocou uma miniprótese pra disfarçar a nudez que transpassava o meio de sua arcada dentária superior, só pra poder escancarar o sorriso de satisfação por receber Dilma e entourage em seu quintal (sorry periferia, mas eu teria um estilo tipo Ibrahim Sued). Let’s go!

Desde cedo, era enorme a expectativa entre os moradores do pequeno povoado com cerca de 200 habitantes, distante 20 km de Paulo Afonso. Que o diga seu João Batista, 67 anos, vizinho de Nalvinha e meio clone de Anthony Quinn. Completamente atarantado pelo repentino movimento, nosso Zorba sertanejo me disse que estava adorando aquele alvoroço, mas queria mesmo era saber onde andava Bandoleira, sua estimada cadela, que desde o primeiro rasante do helicóptero da FAB embrenhou-se no meio do mato e nunca mais apareceu.

Passava um pouco das 16 horas, quando o helicóptero presidencial pousou no campo de futebol, bem ao lado da trave onde Dudé, brioso atacante do Batatinha Futebol Clube, fez um golaço no último clássico contra o Esporte Clube Bonomão, time do vizinho povoado do mesmo nome. E quando a poeira diminuiu no entorno de meninos correndo, bonés quicando e saias plissadas ameaçando abalonar, eis que surge a tiracolo de Dilma o ex-presidente Lula, usando uma vistosa camisa azul-turquesa, cor ideal para combinar com o tom prata-bari de sua barba.

Mas como nada é perfeito, a nota destoante do evento foi a presença de um jovem jornalista baiano que, só pra fazer futrica, escreveu num poderoso jornal que a prótese dentária de nossa hostess tinha sido um mimo da presidente Dilma, veja que coisa desagradável. Para ele, mando um beijinho no ombro e um recado: os cães ladram e a caravana passa, mon chéri!”.

No dia seguinte, já desencarnado do colunista, voltei à Batatinha e lá estava a incansável Nalvinha, com sua costumeira disposição de uma formiguinha em constante lida pré-invernal. Pergunto se a ficha já caiu e ela diz que ainda parece um sonho. Elogio sua horta e ela responde, adequando a constatação de um velho navegante: “meu filho, com fé e água, dá de tudo nesse sertão de meu Deus”. Num papo rápido com alguns moradores, comprovo que a polêmica não reverberou por lá e que, pra comunidade, ela continua sendo muito mais do que uma simples rima com o nome do lugar.

Antes de partir, indago por Bandoleira. Seu João me diz que ela voltou, mas que seus nervos estão em frangalhos. “Hoje mesmo liguei o liquidificador e a bichinha se jogou embaixo da cama”. Comento sobre o broche da presidência ainda na sua camisa e ele diz que não o tira mais. Definitivamente, a Batatinha de Nalvinha e o sistema nervoso de Bandoleira nunca mais serão os mesmos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 30 agosto, 2014 at 12:35 #

Genial Janio!!!

Ibrahim Sued, já que “cavalo não desce escada” deixaria no ar uma útima chamada:

Bomba! Bomba! Bomba!

A ponte de Nalvinha tem licença ambiental?


Janio on 30 agosto, 2014 at 13:16 #

Grande poeta, você, como sempre, na mosca. Aliás, seu comentário no artigo do mestre Vitor tá um primor. Vamos em frente.


Olivia on 30 agosto, 2014 at 17:03 #

Bravo, Janinho!!!


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