Hollande e Valls: rumos desencontrados na França

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DEU NO JORNAL ESPANHOL EL PAÍS (EDIÇÃO DO BRASIL)

A retomada política na França estava sendo anunciada como quente, mas explodiu antes do tempo com uma grave crise de Governo. O primeiro-ministro da França, Manuel Valls, apresentou nesta segunda-feira sua lista de demissões do Governo ao presidente do país, François Hollande, como parte da formação de um novo Executivo, depois que o presidente solicitou a ele uma remodelação governamental.

Valls se reuniu nesta manhã com Hollande para anunciar sua decisão. Segundo um comunicado da Presidência, “o chefe de Estado pediu ao primeiro-ministro que monte uma equipe de acordo com as orientações que ele mesmo definiu para o país. A composição do novo Governo será anunciada na terça-feira”.
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Em um movimento perfeitamente coordenado com a Presidência, Valls reforma sua equipe presumivelmente para livrá-la de uma minoria de ministros críticos à política de reformas econômicas que Hollande vem conduzindo desde janeiro, quando propôs um “pacto de responsabilidade” para impulsionar novamente a produtividade francesa à custa de profundos cortes e vantagens para as empresas avaliadas em mais de 40 bilhões de euros (120 bilhões de reais).

Espera-se que o novo gabinete seja uma demonstração de firmeza diante das críticas direcionadas a Valls nos últimos dias. Após semanas subindo o tom de suas indiretas contra o primeiro-ministro, Arnaud Montebourg, ministro da Economia, se colocou na porta de saída do Governo ao atacar duramente as diretrizes econômicas do Executivo em uma entrevista ao jornal Le Monde. Montebourg desafiou a receita de contenção de gastos da Alemanha: “É preciso dar prioridade à saída da crise e colocar em segundo plano a redução dogmática do déficit, que nos leva à austeridade e ao desemprego”.

Nesta manhã, antes do anúncio da crise de Governo, Montebourg deu uma entrevista à rede de TV Europe 1 na qual ratificou sua posição e afirmou não saber por quanto tempo ainda seria ministro já que não leva a sério a possibilidade de uma reforma do Executivo. Suas declarações soaram como uma provocação a Manuel Valls: “Me parece que alguns não se separam dos ministros que fazem propostas dentro de um debate legítimo”. Em sua opinião, “não houve nenhum questionamento da solidariedade governamental”.

Benoît Hamon, ministro da Educação e outra importante voz crítica às políticas de austeridade da dupla formada por Hollande e Valls, apoiou no domingo os comentários de Montebourg, no jornal Le Parisien e em uma festa do Partido Socialista (PS) em Frangy-en-Bresse, a chamada Festa da Rosa. E ainda se declarou próximo aos 41 deputados socialistas rebeldes que criticaram as reformas na Assembleia Nacional.

Com Montebourg e Hamon, outros ministros também se mostraram críticos com as reformas, embora de forma mais moderada. É o caso das ministras de Justiça, Christiane Taubira e da Cultura, Aurélie Filipetti. Esta última declarou hoje que não deseja continuar no próximo Gabinete de Valls.

A crise no Governo também tem seu impacto a nível europeu. A França, muito criticada em Bruxelas por não cumprir as metas de déficit, não tinha precisamente em Montebourg um apoio diplomático. Profundamente germanófobo e euro-hostil, além de tradicional inimigo da imprensa liberal anglo-saxã e alemã, Montebourg atacava com frequência as políticas de contenção de Bruxelas e de Berlim. Dispensando-o, Hollande abre caminho para negociações fundamentais, como as com os membros da nova Comissão Europeia de Jean-Claude Juncker. Hollade pretende que Juncker conceda uma importante pasta econômica a Pierre Moscovici, ministro da Economia até março passado.

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