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ARTIGO DA SEMANA

Decálogo do Estadista e Mandamentos de Marina

Vitor Hugo Soares

A impaciência é uma das faces da estupidez. Paciência é a competência para fazer a hora, não se precipitar… A santa paciência de escutar! A misericordiosa paciência de ouvir os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo, os chatos que “não o deixam ficar só e não lhe fazem companhia”, como lamentava o filósofo Benedetto Croce.

( Ulysses Guimarães, sobre a Paciência, IV Mandamento do seu Decálogo do Estadista. Morto (e desaparecido no fundo do mar ) quando o helicóptero em que viajava caiu na costa do Rio de Janeiro).

Dias de fogo, turbulências, triunfos, cascas de bananas e algumas armadilhas mais perigosas e traiçoeiras para Marina Silva, agora oficializada candidata do PSB à presidência da República nas eleições deste ano. De fato, direito e merecimento, a ex-senadora ambientalista do Acre é – a olhos e números vistos – substituta a altura e justa do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos na corrida eleitoral.

O moderno e testado líder político regional, socialista e promissor administrador público “cujos sonhos e projetos para o País explodiram no ar”. A definição é da premiada dramaturga baiana Aninha Franco, visitada em sua biblioteca, no Pelourinho, por Eduardo dias antes do pavoroso e ainda não de todo esclarecido desastre aéreo da quarta-feira, 13 de agosto, em Santos.

Na campanha que ganha gás, tensão, participação, aguerrimento e emoção, Marina já larga em segundo lugar, um ponto à frente de Aécio Neves (PSDB), no primeiro turno. Os dados da recente pesquisa Datafolha apontam a líder ambientalista em vantagem sobre a presidente candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), para vencer no segundo turno.

Pesquisas para consumo interno (não divulgadas no todo, mas vazadas aqui ali, apontam vantagem e possibilidades ainda maiores para a candidata do PSB-Rede). Nos dois casos, respectivamente, fora do carimbo “empate técnico”. Daí o alvoroço dos arraiais partidários e as reuniões de emergência registradas desde quinta-feira nos comandos das campanhas de Dilma e de Aécio.

No primeiro caso, em Brasília, com a presença do ex-presidente Lula, arauto-mor do petismo nacional e principal avalista político da candidata à reeleição. No segundo caso – do candidato tucano- , até o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), considerado uma espécie de “talismã eleitoral” pelo neto de Tancredo, foi levado às pressas a São Paulo, para participar da reunião de avaliação dos furos causados por Marina na até então relativamente tranqüila embarcação de Aécio.

Este fim de semana o candidato do PSDB desembarca em Salvador, a capital estadual do quarto maior colégio eleitoral do País. A cidade governada pelo neto de Antonio Carlos Magalhães foi a escolhida para o lançamento do “Programa para o Nordeste” de um eventual governo tucano. E cai o pano para a reentrada de Marina no palco principal.

Triunfal. Esta é a expressão de encaixe perfeito para o momento. As ações e reações da ex-senadora no meio do turbilhão de sensações políticas e emocionais, por ela enfrentado nestes últimos dias, parecem guiadas por mandamentos cruciais do Decálogo do Estadista, genial criação política do Doutor Ulysses. Além da Paciência, sétimo Mandamento, da abertura deste artigo, Marina tem  demonstrado ser, principalmente, uma fiel e denodada seguidora da quarta Lei do decálogo famoso: o Caráter.

Isso só surpreende aos que desconhecem a sua historia de vida e de atuação política. Ou os que guardam escondido sob a manga do paletó alguma mágoa não curada direito, má intenção, interesses submersos, ou simples prazer conspiratório. Afinal, como no filme emblemático, há sempre os que não dispensam uma boa conspiração. “E a melhor conspiração é sempre aquela que não se consegue provar”, ensina o personagem de Mel Gibson em “Teoria da Conspiração”

Ao citar este mandamento, Ulysses repetia sempre o conceito de Milton Campos, segundo o qual o estadista “tem a posição de suas idéias e não as idéias de sua posição”. Não é um oportunista, o que se serve da política em lugar de servi-la, o que só pensa nas eleições futuras, e não no futuro do País.

“Há “democratas” tão furiosos na oposição quão intolerantes no governo. Político de verdade é fiel – as idéias, não à carreira. Pode perder o poder, o emprego, a liberdade, mas não renega as idéias, não perde a vergonha”, completava sempreUlysses na conceituação do quarto mandamento de seu Decálogo.

O jeito e a cara de Marina, não? Diga quem souber. E quiser.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 23 agosto, 2014 at 8:37 #

Caro VHS!

Aqui um rogo de um quase estranho no ninho.

Um povo em busca de um messias?

Talvez, afinal vivemos sob o nada desde o golpe de 64.

Collors, FHCs, Lulas e até Dilmas, uma coleção digna, de filmes de terror B, dos velhos anos 50 e 60.

Uma coisa porém, este poeta distraído, roga, não se misture Ulisses, encantado no mar, com o que se tem neste cardápio, a semelhança de Eduardo Campos com Chico Mendes, no que diz respeito a suposta herdeira, assusta não encanta.

De resto:

A saudade de Cybele que divide agora mesa com Vinicius, Caymmi , Tom e Baden.

Tim Tim!


jader on 23 agosto, 2014 at 9:29 #

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