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CRÔNICA

Ideias para os programas de Souto e Rui

Janio Ferreira Soares

Cena 1 – Imagens antigas de um encontro de Trios na Praça Castro Alves, Caetano e Gil cantando A Filha da Chiquita Bacana para uma entorpecida galera sem corda, sem selfie e sem juízo. A câmera se afasta deixando pra trás o som de “na minha ilha, iê, iê, iê, que maravilha, iê, iê, iê” ecoando na cabeça como se fora uma loló retardatária e chega na antiga Fonte Nova, na tarde de 13 de maio de 1973, Dia das Mães e de um BA X VI inesquecível. Na sequência, lances de Osni driblando Romero e se ajoelhando sobre a bola, se misturam à reação do lateral do Bahia, que puxa o baixinho pelos cabelos qual um Apache pronto para o escalpo de um soldado do general Custer. Porrada generalizada entre os jogadores, closes em Roberto Rebouças e André Catimba, e em Beijoca, já no dia seguinte (de olho roxo), tomando um caldo de sururu no velho Bar Popular, acompanhado de algumas garotas e de muitos cascos de Malt 90 embaixo da mesa. Corta pra Varela dando um murro na mesa, dizendo: “bons tempos em que a violência na Bahia era só isso!”, acompanhado por imagens da greve da polícia e de trombadinhas assaltando turistas num arrastão do Chiclete. Entra a trilha sonora de Tropa de Elite e surgem quatro silhuetas, uma delas de estatura mediana, estilo Karatê Kid. Surgem Souto, Geddel, Joacy e Neto de braços cruzados, como se fossem lutadores de UFC (categoria supersênior cansados) ou uma variante dos four tops da cocada preta. Um saveiro passa pelo Forte de São Marcelo ao som de “eu vou navegar, eu vou navegar nas ondas do mar eu vou” na voz de Gerônimo, quando um aviso de direito de resposta interrompe o programa.

Cena 2 – Uma voz grave diz: “eles mentem descaradamente, baianos e baianas. Observem estas imagens”, e aparece a cena em que os trombadinhas assaltam turistas no arrastão do Chiclete. “Olhem atentamente quem está por trás da bandana de Bell”, continua a voz, agora acompanhada dos sons característicos que antecedem às denúncias. “Reparem nesse cocar!”. Com a imagem congelada, aparece a figura do Cacik Jonne empunhando sua guitarra, enquanto a voz diz: “quando Jonne tocava no Chiclete, eram eles que governavam a Bahia. Mentiras e malvadeza, nunca mais!”. Surgem imagens do velho ACM pisando no pé do repórter na eleição de 1986 e de “Karatê Kid” falando que vai dar uns tapas em Lula. Em seguida, entram as animações de Rui Costa, Otto e Leão dançando um arrocha cantado por Nara Costa (seria parente ou uma mera coincidência fonética, como Gal, Nanda e Alaíde?) com uma desenvoltura que, na boa, não combina em nada com seus estilos Brooksfield de ser. Aí então, quando eu me preparava pra colocar Wagner e Lídice na dança, a notícia da morte de Eduardo Campos cortou o barato e me deixou completamente sem graça pra continuar a brincadeira.

Acho que a sua morte pode ter sido culpa de Ariano Suassuna. É que, com seu jeito peculiar de contar histórias, ele deve ter falado tão bem do “sobrinho” para a tropa que o levou, que neguinho deve ter dito, bem ao seu estilo: “Oxente, um cabra desse tope no meio de Renan e Sarney? Traz ele pra cá!”. De todo modo, foi uma enorme sacanagem do acaso com o pai do pequeno e sorridente Miguel.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco e na porta de entrada do Raso da Catarina.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 16 agosto, 2014 at 13:12 #

Caro Janio

Pior será a colheita, o recolher carpideiras, o som da velha matraca, o entoar conveniências, tudo sob o tom cinza necessário.

Ele quis,
ele dizia,
ele aprovaria,
ele confiava,
ele confidenciou
ele…

Mas não será ele, muito menos seus desejos, isto tudo se perdeu na gravação que Saito não encontrou.

Cenas de luto com horas contadss, afinal a urna espera. Eletrônica e apressada, não aceita lágrimas.


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