Guido com a avó Estela Carlotto:o reencontro afinal

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ARTIGO DA SEMANA

A Avó e o Músico: Lições da Plaza de Mayo

Vitor Hugo Soares

Sou passageiro de inúmeras viagens pela Argentina. Desde o começo dos anos 70, quando de férias do Jornal do Brasil (sucursal da Bahia) aportei em Buenos Aires pela primeira vez. Viajei com o Brasil mergulhado na cruenta ditadura do general Garrastazu Médici.

Desembarquei no terminal de “Aliscafos”, do porto da capital argentina, com cidade florescente, igual à letra do tango Anclao em Paris, que Gardel tornou famoso no mundo. A capital portenha vivia na época uma saborosa lua de mel com a democracia plena e, diante de mim todas as liberdades proibidas na cidade e no país de onde eu vinha.Parecia um sonho, desses maravilhosos, de nunca esquecer.E era tudo (ou quase) real.

Depois disso, andei pelas bordas do Rio da Prata em tempos de ouro, prata e chumbo. Em quatro décadas de idas e vindas vi de quase tudo por lá, para o bem e para o mal. Pensava que nada mais seria capaz de me surpreender, causar espanto ou servir para citar como exemplo nas inevitáveis comparações entre Brasil e Argentina. Em termos de fato, notícia e conteúdo jornalístico, político, social e humano.

Estava redondamente equivocado.

É o que demonstra esta incrível história de resistência, fé, denodo e entrega pela recuperação da verdadeira identidade do neto de Estela de Carlotto, dirigente principal do grupo Avós da Praça de Maio. Grupo que vi nascer com a pejorativa denominação de “Locas de La Plaza de Mayo”, aplicada por políticos e saudosistas da ditadura, na imprensa local e aqui no Brasil também. Estela é admirada combatente em seu país (odiada igualmente por muita gente ainda), de reconhecimento internacional por sua atuação de fibra à frente do famoso grupo de mulheres argentinas em busca dos netos sumidos e que se recusam calar diante dos crimes da ditadura que enlutou inumeráveis famílias no país.

Na terça-feira desta semana o impacto que emociona Buenos Aires e o mundo. Ficou confirmado, depois de conhecidas as provas do exame de DNA, que o músico, pianista e compositor Ignácio Hurban, de 36 anos, é, na realidade, Guido Montoya Carlotto, o neto desaparecido do tempo de uma das mais ferozes ditaduras do continente, que Estela nunca desistiu de procurar.

Bela lição de de luta e disponibilidade. Magnífica afirmação de coragem política e cívica em busca da verdade.

Faz-me recordar da primeira viagem à capital portenha dos 70 e a constatação da imensa capacidade do povo argentino de brigar, com intensidade, pelas coisas em que acredita e busca, e de surpreender sempre, mesmo quando não raramente se equivoca ou é trapaceado.

Nas ruas da majestosa Buenos Aires, ainda incrédulo e assustado, logo depois de passar pela Imigração, no porto, deparei-me com uma das mais esplendidas e intensas campanhas presidenciais que os olhos deste jornalista já viram.

Nos comícios abertos, a exemplo do de Hector Campora, que me levou à localidade de San Andrés de Gilles (na volta de Isabelita Peron ,de Madri, precedendo o retorno do marido e mito maior dos argentinos).Uma apoteose política e de participação popular (dos jovens principalmente) indescritível.

Ou nos atos em recintos fechados, a exemplo daquele do qual participeientão, na sede da União Cívica Radical- UCR (ao lado do saudoso jurista Pedro Milton de Brito, ex-presidente da OAB-BA e conselheiro federal da Ordem, referência no combate a perseguições políticas e na defesa dos direitos humanos na Bahia e no País). Presente o candidato Raul Alfonsin – modelo exemplar de político, tribuno, administrador, homem público e estadista, que faz imensa falta à errante democracia na Argentina de hoje.

Estadistas como Alfonsin fazem falta, também, na conjuntura da América Latina em geral, como demonstra esta campanha eleitoral em curso no Brasil: desfibrada, candidatos frágeis e vacilantes, sem propostas, sem princípios, sem protagonismo, sem povo e, por isso, desmotivada e sem empolgação. A cada nova pesquisa de opinião pública divulgada, essa triste realidade fica mais evidente. Apatia geral e preocupante.Onde tudo pode acontecer, ou oermanecer do jeito que está.A conferir.

Vibremos então com esta belíssima historia de Guido e de sua heróica Avó da Praça de Maio. Ou com as mensagens de fé e esperança do argentino Papa Francisco.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 9 agosto, 2014 at 9:19 #

Grande VHS!

“…esta campanha eleitoral em curso no Brasil: desfibrada, candidatos frágeis e vacilantes, sem propostas, sem princípios, sem protagonismo, sem povo e, por isso, desmotivada e sem empolgação. A cada nova pesquisa de opinião pública divulgada, essa triste realidade fica mais evidente. Apatia geral e preocupante.Onde tudo pode acontecer, ou permanecer do jeito que está.”

Perfeito diagnóstico, dentre os sintomas o enjoo. Aquela ânsia que nos prostra, nos transforma em meros bois de abate na imensa fila nacional, em busca da urna acima de qualquer suspeita, posto que é eletrônica, coisas de Macondo, o mesmo encantamento do menino frente ao gelo.

VHS o que fizemos dos anos 60?

A culpa era tão avassaladora?

O sonho era só para inglês ver?

Nos anos 70 viramos presas de Médici, nos 80 flagelamos Ulisses, ele, ao menos teve o glamour de encantar-se no mar. Perda de tempo falarmos em Sarney e Collor. FHC, o entediado gongórico, vendeu a todos a inutilidade de um sonho feito às pressas numa padaria de Higienópolis, apropriado nome para o bairro de quem passou a vida lavando as mãos e retocando parágrafos esquecidos. Por fim criamos o inenarrável, viramos o país do “eu não sabia”.

Dilma, Aécio, Campos, a tríade do desencanto, a escolha entre “o não vai dar certo”, “a já deu errado” e “o nem colando acerta”.

Já os financiadores são os mesmos, dentre eles, destaca-se o Friboi, o mesmo que comparece generosamente com milhões em comerciais na TV, fazendo até Roberto Carlos virar carnívoro. Como acreditar, depois disto, na isenção dos diletos jornalistas que, em tese, “entrevistarão” estes candidatos. A crise anda feia, patrocinador é deus e anda arredio nas TVs.

Resta o encantamento, de alguns e algumas, com candidatos próximos de casa, aquele velho e anacrônico compadrio provinciano, fora isso, cada qual com seu antiemético.


Carlos Volney on 9 agosto, 2014 at 20:23 #

Concordo com o Poeta, o diagnóstico de Vitor Hugo é preciso e singular, ninguém definirá melhor o que estamos a ver e ainda veremos nesta campanha que nos deprime ainda mais.


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