Ignacio Hurban, o Guido: mãe foi morta pela ditadura argentina dois meses após seu nascimento – Reprodução/La Nación
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DEU EM O GLOBO

Ignacio Hurban, o Guido: mãe foi morta pela ditadura argentina dois meses após seu nascimento – Reprodução/La Nación

BUENOS AIRES — Há quatro anos, sem saber, o 114º neto encontrado pelas Avós da Praça de Maio se apresentava em um recital, bem perto de sua avó, Estela Carlotto, a presidente do grupo. O músico Ignacio Hurban, que até a última terça-feira não sabia ter nascido num cativeiro da ditadura militar argentina em 1978, se apresentava como pianista e compositor no ciclo “Música pela Identidade”, organizado justamente pelas Avós da Praça de Maio.

— Ele não fazia ideia desta realidade quando participamos da apresentação. Ele sentia afinidade com esse recital de música pela identidade, como todos nós — disse um músico e amigo de Ignacio ao jornal argentino “La Nación”.

Ontem, os comentários dos amigos e dos alunos encheram as redes sociais, após a surpresa com descoberta da verdadeira identidade de Ignacio Hurban, o “Pacho”: Guido Miguel Carlotto, o filho de Laura Carlotto, militante da Juventude Universitária Peronista e assassinada pelo regime.

Em 26 de junho de 1978, depois de ter sido sequestrada com dois meses de gravidez, Laura foi levada ao Hospital Militar de Buenos Aires, onde teve Guido. Cinco horas depois do parto, ela foi separada do bebê. Laura foi assassinada com um tiro na cabeça dois meses depois.

Hoje, aos 36 anos, Guido é diretor da Escola Municipal Hermanos Rossi e vive em Olavarría com a mulher, a estilista Celeste Madueña. Segundo os jornais argentinos, ela teria sido uma das motivações para que Guido se apresentasse voluntariamente à associação das avós e fizesse um teste de DNA. Celeste teria apontado ao marido a semelhança física entre ele e a avó Estela. Os pais adotivos, “uma família rural que nada tem a ver com a ditadura”, segundo Abel Madariaga, integrante das Avós, vivem na vila Alfredo Fortabat.

Os amigos de Guido contam que ele não costuma falar muito, é tímido, mas sabem de algumas de suas paixões: o time de futebol River Plate, seu carro, um Fiat 147 branco e, claro, a música.

Guido começou a formação musical com 12 anos, se aprimorou em Buenos Aires e passou pelo Instituto Municipal de Música de Avellaneda. Depois, voltou à Olavarría para estudar no Conservatório Ernesto Mogávero, onde é conhecido como “o profe de música”.

É um amante de jazz, bossa nova e tango, tendo participado de projetos como Orquestra Errante e produzido três discos: “Mujeres argentinas x hombres argentinos”, “Open Dreams” e “Musa Rea”.

— É um músico de muita sensibilidade, com uma linguagem muito original como pianista e arranjador — conta o compositor e pianista Carlos Negro Aguirre, ao jornal argentino “Clarín”.

Guido tocou com a cantora chilena Francesca Ancarola, com Raly Barrionuevo, Liliana Herrero, Adrián Abonizio, Sergio Verdinelli, Jerónimo Carmona, Carto Brandán, entre outros. Também em Buenos Aires, junto com Facundo Barreyra, participa do projeto “Jazz ao sul”.

— Em meu novo disco, Ignacio gravou seu acordeão para a canção “Oda a la tristeza”, que fala de transformar a dor em amor. Ontem, quando fiquei sabendo que ele é o neto 114, me emocionei muito — contou a guitarrista e cantora Agostina Elzegbe.

No site oficial do músico e nas redes sociais Bandcamp e Soundcloud, há ensaios de jazz, tango e também escritos dos últimos anos sobre a memória e os horrores causados pela última ditadura. Guido tornou-se mais reconhecido depois do convite da comunidade musical e da Prefeitura de Olavarría para atuar como pianista e programador dos atos de 9 de Julho, data da Independência Argentina, que se realizaram no principal teatro da cidade.

No último dia 24 de março, ele lançou uma canção chamada “Para a memória”, que, diz: “Camino al sol, que hace la sombra de todo igual/ si al estrujar el viento contra un pecho labriego/ ya no hay heridas que marquen los brazos de un hombre entero/ ni hay canciones que apañen lo que no guarda en el pecho”.

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Comentários

Cida Torneros on 7 agosto, 2014 at 17:30 #

Muito forte essa história. Que ele e sua avó se curtam muito.


Raul Hector Urban on 8 agosto, 2014 at 21:24 #

Identidade as ligações da alma valem muito mais que um RG. A alma clama e busca.


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