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DEU NO JORNAL A TARDE

Verena Paranhos

Com batidas sutis na caixa de fósforo, Batatinha (1924 – 1997) dava vazão à poesia em forma de samba que ia da melancolia a crônicas bem-humoradas. 17 anos depois de sua morte, a obra de Oscar da Penha, músico que completaria 90 anos nesta terça-feira, 5, poderá ser acessada com alguns cliques, em breve.

Por meio de financiamento de R$ 159 mil do projeto Natura Musical, será lançado em outubro um acervo digital direcionado a pesquisadores e ao grande público.
O projeto também prevê um song book com gravações, letras e cifras das 34 músicas registradas em discos pelo sambista, além de uma inédita.

“A intenção é fazer a obra de um dos grandes poetas do samba circular de forma confiável. Existe muita informação retalhada e deturpada na internet”, afirma o historiador Rafael Rosa, que coordena a pesquisa.

O site vai trazer músicas em streaming, histórias dos discos, documentos, entrevistas, depoimentos e também funcionar como um portal que redireciona para outros materiais na rede.

O projeto Acervo Batatinha tem a família como proponente e surgiu a partir de conversas com produtores que frequentam o bar Toalha da Saudade, nos Aflitos. O espaço batizado com um dos sucessos do compositor foi fundado em 1982 por dois dos dez filhos de Batatinha e sempre funcionou como um reduto do samba no Centro.

“O nosso desejo é que este seja o primeiro passo para que depois possamos criar um memorial com o acervo físico no Toalha da Saudade”, diz Artur Emilio dos Santos Penha, filho do sambista.

Além dos filhos Jorge e Galo, o neto Gabriel é um dos herdeiros do talento para a música. Juntamente com Rafael Galeffi, o violonista e percussionista de 20 anos está à frente do processo de elaboração das cifras e partituras do song book. “A gente se cobra para fazer algo ao nível da obra do Batatinha”, diz.

Nas terças-feiras de agosto, Gabriel Batatinha comanda no Cabaré dos Novos do Teatro Vila Velha um projeto que reúne jovens músicos para reverenciar sambistas consagrados. Amanhã, às 20 horas, com ingressos a R$ 20 e R$ 10, a noite será de comemoração dos 90 anos de Batatinha, com a participação de Juliana Ribeiro.

Risada boa

Boa parte da pesquisa do Acervo Batatinha tem como base três horas e meia de entrevistas gravadas nos últimos dois anos de vida por Paquito e J. Velloso durante o processo de produção do LP Diplomacia (1998).

“A gente queria ouvir tudo que ele lembrasse. À medida que ele foi lembrando das canções, foi lembrando da vida também. Queríamos um disco à altura da obra de Batatinha, porque não existia”, conta Paquito.

O parceiro J. Velloso completa: “Queríamos registrar as músicas dele, porque as conhecidas eram poucas (cinco ou seis), e trabalhar com outras inéditas, que descobrimos e colocamos no disco” , diz o produtor, que ainda criança conheceu o sambista já grisalho. “Sempre gostava daquela forma doce, daquela risada boa”.

Batatinha morreu de câncer aos 72 anos, pouco depois de ter gravado as 12 faixas que canta em Diplomacia. Outras cinco composições são interpretadas por Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Jussara Silveira. O álbum ganhou o Prêmio Sharp de Melhor Disco de Samba.

“Ele nunca cantou com tamanha expressividade como nesse disco. Acho que sabia que não ia viver muito tempo”, comenta Paquito.

Sambista que é sambista cumpre uma série de requisitos que fazem do ritmo quase uma religião. Da boemia à simpatia, com Batatinha não foi diferente.

O órfão que aos dez anos começou a trabalhar para criar os irmãos, descobriu o samba nas ruelas do Centro Histórico, onde viveu a maior parte da vida. Aos 15, já trabalhava como contínuo no Diário de Notícias, empresa do grupo Diários Associados que mais tarde adquiriu a Rádio Sociedade da Bahia.

“Meu pai não tinha estudo. Trabalhando no jornal, a vida dele estava ligada à política, aos artistas. Lá ele fez amigos e aprendeu muita coisa que o ligou ao mundo”, conta o filho Artur.

Na Sociedade, ele começou a cantar nos programas e campeonatos do samba e recebeu o apelido de Batatinha do músico pernambucano Antônio Maria. A alcunha surgiu por inspiração no ídolo carioca Vassourinha, de quem Oscar da Penha era muito fã e interpretava várias canções.

“No início ele não gostava, porque o pessoal satirizava. Chamava de tomate, não sei o quê, batata podre”, explica Joseval, outro herdeiro.

Trabalho sério

Apesar de todo culto ao samba, Batatinha não abria mão do trabalho de gráfico, que garantia o sustento dos dez filhos.

“Eu ficava esperando dar meia-noite pra pegar ele no trabalho e depois ir pras farras”, lembra Edil Pacheco, sambista duas décadas mais jovem.

“Batatinha não era só boêmio, era um príncipe, uma liderança natural. Cantava baixinho, com uma sutileza impressionante. Me ensinou tudo”, completa Edil Pacheco, que integrava a turma de Batatinha, juntamente com Riachão, Gordurinha, Tião Motorista, Valmir Lima e Nelson Rufino.

“Batatinha faz parte de uma geração que ainda não era dos cantores profissionais. Começou muito cedo como intérprete e depois passou a compor. A vida dele sempre teve o trabalho como foco. Tanto é que depois que ele se aposenta como linotipista, na década de 1970, é quando a carreira encorpa mais”, conta o pesquisador Rafael Rosa.

Segundo ele, a alcunha de “diplomata do samba” vem da música Diplomacia que diz “Sou diplomado em matéria de sofrer”, mas combina muito bem com o papel que o sambista desempenhava no meio.

“Parceiros, pessoas que conviveram com ele falam que era uma espécie de conciliador e mediador. Era elegante, não falava muito, só quando pertinente e solicitado”, afirma o historiador.

Diversidade da obra

Jamelão foi o primeiro a gravar uma composição de Batatinha (Jajá da Gamboa), mas foi Maria Bethânia quem deu ao músico projeção nacional. Em seu disco de estreia, de 1965, ela apresentou Diplomacia e Só Eu sei.

Além de Bethânia, nomes como Caetano Veloso, Moraes Moreira e Jair Rodrigues gravaram canções do compositor.

Fora do eixo Rio São Paulo, ele só teve a obra registrada em seis discos: um como compositor homenageado (Batatinha e Companhia LTDA, de 1969), cinco gravados em estúdio (incluindo o póstumo Diplomacia) e outro feito a partir de um programa de TV (MPB Especial, com Riachão e Ederaldo Gentil, de 1974).

“Não faltou a Batatinha reconhecimento e fama, principalmente no meio. Todo mundo o reverenciava, ninguém tinha dúvida do grande sambista e da importância dele. O que eu percebo é que Batatinha se ressentia que fama e reconhecimento não se convertiam financeiramente. Ele viveu a vida toda do trabalho”, afirma Rafael Rosa.

Gênio

“Como Batatinha compunha sem linha harmônica, só na caixa de fósforo, ele vem por um caminho e surpreende. É genial, porque tinha liberdade que talvez quem compusessem com um violão, por exemplo, não teria”, diz a cantora e historiadora Juliana Ribeiro.

No trabalho que vem desenvolvendo, Rafael Rosa tem se preocupado em não reduzir a obra do sambista. “Batatinha tinha esse lado da melancolia com músicas existencialistas, mas existem outras que são crônicas engraçadas. É o caso de Babá de Luxo, Bebê Diferente e Fora do Meu Samba, música que ele fez quando roubaram os instrumentos do bloco de Carnaval”.

O compositor baiano é frequentemente colocado entre os grandes do samba brasileiro. “Ele não tem o reconhecimento que deveria ter. A dificuldade está em valorizar o que é nosso, o que é próprio. Paulinho da Viola afirma que Batatinha é como Cartola e Nelson Cavaquinho. Para mim não há diferença entre eles, pela complexidade e diversidade da obra. Batatinha vai dos sambas melosos mais lindos, às marchas carnavalescas e ao samba de partido”, defende Juliana Ribeiro.

Em meados da década de 1990, J. Velloso percebeu que o samba da Bahia tinha mais reconhecimento fora do estado do que aqui mesmo. O projeto de Diplomacia, por exemplo, não foi selecionado pelo Prêmio Copene e custou a conseguir patrocínio da Fundação Cultural do Estado.

“Apesar da história de Batatinha e do compromisso de nomes como Maria Bethânia de participar, o descaso com o samba na Bahia era muito grande. Hoje o momento é diferente. Tenho a maior alegria de ver como o samba é querido aqui e de como os jovens se identificam. Atualmente, o projeto seria facilmente aprovado”, acredita o produtor.

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