================================================================

CRÔNICA

Candidatos na TV

Janio Ferreira Soares

Cena 1 – Imagem aérea do Mineirão, milhares de semblantes embasbacados. A câmera foca no rosto de um brasileirinho chorando no colo de seu pai que, por sua vez, está com a máscara de Neymar numa mão e uma infinidade de copos da Budweiser na outra. Corta para uma cena de 7 segundos, onde os 7 chutes alemães são seguidos por 7 baquetadas do toque Bantu do tambor de dona Mercês, que serve de introdução para um pot-pourri de Oh! Minas Gerais, Peixe Vivo e Manuel, o Audaz, na guitarra de Toninho Horta. Casarões de Ouro Preto se fundem com obras de Aleijadinho, enquanto Tiradentes caminha em direção à forca, fazendo o sinal de “é nóis!” para inconfidentes com máscaras de Sininho. A câmera passeia por montanhas e cerrados, e capta o voo de um tucano que, repentinamente, se transforma num jatinho que vai voando, voando, até pousar num aeroporto de uma fazenda. A porta se abre e descem Aécio Neves e Luciano Huck, com uma camiseta onde se vê um tênis Osklen tamanho 45 e a frase: “Somos Todos Pezão”. Aécio toma a bênção ao seu tio-avô (descansando numa rede na sala de embarque), abre a porteira e parte em direção às centenas de pessoas com máscaras de Tancredo, cantando Coração de Estudante. Quando chega na parte que diz pra se cuidar do broto pra que a vida dê frutos, o garotinho que soluçava no Mineirão surge correndo pela pista e se atira nos seus braços. Lágrimas, emoção, desculpas e fé.

Cena 2 – Plano aberto de um entardecer nos pampas, silhuetas de bombachas enlaçando dorsos de cavalos crioulos. Corta pra poemas de Mario Quintana rabiscados nas mesas do Café dos Cataventos (“Rechinam meus sapatos rua em fora/tão leve estou que já nem sombra tenho…”) ao som de uma balada de Vitor Ramil. No Palácio Piratini, Adriana Calcanhoto abre a porta do gabinete da então secretária de Energia, Dilma Rousseff, pega o violão e canta que ela só tem meia hora pra mudar de vida. Corta para o Guaíba, onde uma pensativa Dilma caminha por entre bandos de quero-queros. Flashbacks de fotos de Alceu Colares, Teixeirinha, Figueiroa, Mary Terezinha, Caçapava e Kledir flutuam sobre sua cabeça (ainda sem laquê), enquanto ela monta num cavalo-ferro e voa até o Planalto Central, onde, segundo Ednardo, se dividem (se dividem, se dividem) o bem e o mal. Imagens de candangos se fundem com closes de Palocci, Francenildo e Renato Russo, que canta Que País é Esse, acompanhado da guitarra do ministro Luiz Fux. Corta pra Severino Cavalcante conferindo o caixa do restaurante da Câmara dos Deputados e exigindo um ministério que fura poço. Gabrielli sorri, enigmático. Num acampamento do MST, Gilberto Carvalho e Stédile valsam ao som dos bandolins, ao tempo que Lula e Jader Barbalho – ratificando a teoria de Oswaldo Montenegro de que Brasília não é assim tão longe de Belém do Pará -, passeiam de braços dados sob o traço do arquiteto. Dunga faz um sinal de “é nóis, de novo!” pra Dilma, enquanto Caetano Veloso, com uma máscara de Murtosa, diz que a lasanha da Seara é que é foda.

Cena 3 – Sob a direção de Guel Arraes, uma câmera corre por dentro de uma plantação de cana na Zona da Mata pernambucana, pendurada na cabeça de um bode. Sons dos chocalhos da introdução de Maracatu Atômico (versão Chico Science), se misturam com o suingue de João Donato cantando Vento no Canavial, criando a primeira ponte Acre/Pernambuco. Corta para um filme em preto e branco, onde Miguel Arraes segura seu netinho Dudu no colo, tendo ao fundo a canção O Meu Guri, de Chico Buarque (que, descobriu-se mais tarde, foi introduzida segundos antes de o programa ir ao ar por um hacker amigo de Franklin Martins). Caju e Castanha cantam numa embolada que Marco Maciel é o Avatar de Marina Silva depois da gripe. Bonecos gigantes de Eduardo Campos e Hugo Chaves desfilam pelas ladeiras de Olinda e, sem querer querendo, vão parar na refinaria Abreu e Lima, bem no meio de uma Ciranda comandada por Cerveró, Gabrielli, Paulo Roberto Costa e Lia, coitada, que, como no poema de Drummond, mora na Ilha de Itamaracá e não tem absolutamente nada a ver com essa história.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos