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DEU NO JORNAL A TARDE

João Ubaldo Ribeiro

JC Teixeira Gomes

Ter visto João Ubaldo estendido num caixão funerário e, um dia depois, sendo colocado na tumba do mausoléu da Academia Brasileira de Letras foi uma experiência brutalmente traumática para quem com ele convivia. Para mim, em primeiro lugar, pela profunda amizade que nos unia desde a adolescência, reunidos no Central sob a égide da “Geração Mapa”. Em segundo lugar, porque toda a vida de Ubaldo foi radicalmente antagônica à ideia da morte: sua obra é uma interpretação irreverente do Brasil, consequência da alegria e do otimismo que ele irradiava na sua convivência diária.

Essa predisposição para o humor floresceu em Ubaldo já nos instantes iniciais da sua trajetória. Nos primórdios da década de 60, ele assinou colunas no Jornal da Bahia que logo o transformariam num dos jornalistas mais admirados do nosso Estado, pela graça com que abordava seus assuntos. Era o começo da obra múltipla que o consagraria no Brasil e lhe daria renome internacional, como intérprete da brasilidade.

Não vim, porém, fazer crítica literária, mas apenas reafirmar a enormidade da perda humana e cultural que a morte de João Ubaldo acarreta. Conforme assinalei no longo ensaio que dediquei ao amigo no livro Obra Seleta, com o qual Sebastião Lacerda, em 2005, reuniu os principais romances de Ubaldo, foi ele o único escritor que elaborou duas vezes, em línguas diferentes e com igual competência, uma única obra: Viva o povo brasileiro, escrita em português e depois vertida pelo próprio autor para o inglês, em feito inédito na literatura mundial.

Trata-se de façanha literária portentosa: essa obra-prima da literatura brasileira está repleta de modismos, giros de frase exclusivos, toda uma carga semântica e sintática tão distante do inglês que dificilmente alguma outra pessoa conseguiria aproximar, numa tradução, idiomas tão diferenciados. Pois Ubaldo o fez: verteu ele próprio para o idioma de Shakespeare o que tinha escrito no português itaparicano, baiano e nordestino, proeza que nenhum crítico literário registrou.

Essa capacidade inventiva não surgiu por acaso: as crônicas de Ubaldo em jornal, cheias da verve que encantava os leitores, saíam da mesma pena que produzia obras de grande densidade cultural. A formação literária de João Ubaldo foi construída no severo aprendizado dos clássicos.

Não devo, porém, estender-me. Já todos sabem o que o Brasil perdeu. Como jornalista, não tenho o direito de dizer que me faltam palavras para comentar a morte do amigo, mas posso confessar que o tumulto dos sentimentos recomenda comedimento diante da perda.

Não vim aqui para chorar perante o público, nem acredito que a literatura possa substituir a grandeza da vida. No entanto, não será na presumível imortalidade acadêmica, mas sim na pujante permanência do seu legado que Ubaldo continuará vivo nos corações e na lembrança de leitores e amigos. É, enfim, na magia dos livros que o grande escritor transcenderá para sempre o esquecimento dos homens ou o nefasto poder da morte.

João Carlos Teixeira Gomes é Jornalista, membro da Academia de Letras da BahiaA Artigo publicado originalmente no jornal Tarde/BA (26/07/2014)

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