jul
26


Suassuna:despedida memorável no TCA

====================================================


Rui Costa (com Otto Alencar): apuros no terreiro de Mãe Stella

===============================================================

ARTIGO DA SEMANA

Suassuna no TCA e PT no terreiro de Mãe Stella

Vitor Hugo Soares

Corre de boca em boca, e está nos melhores registros tradicionais do saber popular, na Bahia, que a mistura da política com o candomblé é, sempre, um grande salto no escuro: Insondável e perigoso.

Quando este sincretismo se manifesta em períodos de disputas eleitorais, como agora (políticos, militantes, candidatos e governantes à beira de um ataque de nervos), tudo fica mais nebuloso e imponderável ainda.

“Tanto pode resultar na doçura do melhor mel de engenho de açúcar, quanto o caldo pode azedar, a ponto de ficar insuportável até de provar”. A frase é emblemática nesta semana da corrida de candidatos do PT e de agremiações aliadas do Governo Jaques Wagner ao famoso terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, em busca das bênçãos de Mãe Stella (a poderosa Ialorixá, membro da Academia de Letras da Bahia, uma das mais tradicionais casas de cultura e saber literário do Brasil).

A frase acima usa imagens verbais e literárias nordestinas, bem ao gosto do mestre Ariano Suassuna. Uma semana depois da morte repentina de João Ubaldo Ribeiro, ele também acaba de partir, cobrindo de luto outra vez a vida inteligente e a cultura erudita e popular do Nordeste e do País, já tão carentes de autores e seres tão extraordinários quanto os dois.

E aqui peço licença para um interlúdio, antes de retomar ao caso dos sabores e dissabores da desastrada expedição do candidato petista a governador, Rui Costa, ao Candomblé de Mãe Stella. Antes, digo apenas que ele segue desajeitado e derrapando feio, carregando a “lanterna” entre os três principais concorrentes, apesar de toda máquina governamental atuar a plena carga em seu favor.

Na pesquisa mais recente do Ibope-TV Bahia (da Globo), divulgada no dia seguinte à incursão no terreiro, o petista está em terceiro lugar, com com 8%, contra 42% de Paulo Souto, do DEM, em primeiro, e a socialista Lídice da Mata, com 11%, em segundo.

O interlúdio é para um registro informativo e um tributo do coração a um ser humano raro, que aprendi a seguir e admirar desde menino, nascido nas margens baianas do Rio São Francisco. Ouvidos e olhos sempre voltados para os toques do frevo e da inteligência que pulsavam na margem pernambucana do rio da minha aldeia. Morei em cidades pernambucanas da outra margem e nelas vivi alguns dos melhores anos de infância e juventude.

Em uma delas, Petrolina, tive o deslumbramento da descobertae da primeira leitura das aventuras de Zé Grilo, do “Auto da Compadecida” (tantas vezes relido por prazer ou como tarefa escolar), encontrado em um criado-mudo na cabeceira da cama, entre os livros preferidos de meu pai.

Semana passada, Salvador foi penúltima escala do mestre Suassuna, para ministrar mais uma fabulosa “aula-espetáculo”, em noite memorável no histórico Teatro Castro Alves. A lendária casa de espetáculos completamente lotada por um público vibrante de 1.500 pessoas de todas as idades. Gente que escutou atenta, sorriu, brincou, cantou, chorou emocionada e mais uma vez ficou encantada com o visitante querido. E novamente o aclamou, sem nem de longe imaginar que era a última vez.

O público transbordava de felicidade. Tanto quanto parecia feliz- e em plena forma física e intelectual – o próprio palestrante. Na aula de múltiplos assuntos e temas, Suassuna fez questão de destacar seus laços estreitos de afetos com a Bahia, com sua gente do povo e com seus artistas e intelectuais. Com a música sertaneja de temas ligados a Canudos, de Fábio Paes, ou a relação próxima que desenvolveu com o teatro baiano, seus autores e intérpretes, a exemplo de Gil Ferreira, premiado por sua atuação em “A Santa e o Porco” ((2002).

No TCA, conta o repórter Gabriel Serravalle, em A TARDE, Ariano lembrou quando recebeu o título de Cidadão Baiano, em 2007, e foi homenageado pelo cantor, compositor e professor de História, Fábio Paes. Ao recordar, Suassuna se emocionou até as lágrimas, e largou uma de suas frases impagáveis: “A coisa mais feia do mundo é um sertanejo mole. Choro, só em mulher bonita. Em um homem como eu, é a coisa mais grotesca”.

Verdade ou mentira do mestre? Entre lágrimas, de mulheres e homens, cai o pano no TCA.

Depois de Salvador, Suassuna passou ainda por Garanhuns, no festival de inverno pernambucano. Foi aclamado de novo, antes de voltar para casa, em Recife, sofrer o derrame sorrateiro, ser internado no Hospital Português da capital pernambucana e, em seguida, morrer cercado dos seus. O resto é memória. Para sempre.

E estamos de volta ao terreiro baiano Axé Opô Afonjá, na quarta-feira da expedição dos candidatos governistas, durante uma cerimônia para Xangô, em busca das bênçãos de Mãe Stella. Vestido de branco, Rui Costa, candidato petista a governador, não conseguia esconder o desconforto de um quase neófito dos segredos dos cultos afro brasileiros. Ou mesmo de fatos mais abertos e de conhecimento quase geral.

Acompanhado de Otto Alencar, candidato ao senado, o petista precisou, a todo momento, se socorrer do séquito de assessores para “dialogar” com a líder religiosa. Otto, um matreiro ex-carlista bandeado para o governo de Wagner, parecia bem mais à vontade. Ex-aluno aplicado da escola política de Antonio Carlos Magalhães – que se sentia em casa em qualquer terreiro -, Otto mostrou mais conhecimento e afinidade com as coisas e pessoas de santo. “Não é uma coisa que eu venho só em tempo de eleições”, disse o ex-carlista, segundo registro do repórter Fernando Duarte em A Tarde.

Mas nenhum dos dois escapou de broncas da ialorixá, por mazelas administrativas que mãe Stella cobrou, sempre com sabedoria e bom humor dos iluminados. Quase no final da visita, ela perguntou: “Cadê o governador?”. Depois de ouvir de assessores que Jaques Wagner estava em viagem ao interior do estado, Rui repassou a informação. Mãe Stela então perguntou: “E o próximo?”. Desconcertado, Rui Costa murmurou, apontando para si: “Está aqui. Pelo menos eu espero”.

Mas não obteve a esperada confirmação da líder religiosa. Mãe Stella disse apenas que a sua casa está aberta para todos os demais candidatos. E comentou: “Todo mundo pensa, “eu vou lá e vou ser eleito”. Mas não é assim”.

E cai o pano, também, no terreiro de Mãe Stella.O resto, doce ou amargo, o tempo dirá.

Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 26 julho, 2014 at 10:53 #

Caro VHS

Em ano de Xangô políticos desta estatura sofrem, mesmo assim ousam.

Wagner não fará sucessor, a Bahia, pelo que vejo e leio, cansou-se. Já era tempo.

Parece, aqui de longe, que Paulo Souto já levou. O que talvez seja um novo adiar na esperança dos baianos. Tem cheiro e jeito de passado, sem razão de volta, afora os erros dos adversários.

Paulo vai levar, primeiro por falta de opção ao cansaço dos baianos com este Wagner, que sonhou com uma ponte e acabou ilhado, em fim de governo, sem discurso.

Segundo pela estatura acanhada da terceira opção, essa Lídice da Mata que gastou horas e horas de tribuna, no senado, para afagar ninguém menos do que Wagner, ao lançar-se candidata, ficou sem ter o que dizer, limitando-se a discorrer sobre factóides, pequenas reuniões e encontros com aqueles e aquelas que lhe são próximos, é um exemplo vivo do compadrio provinciano em extinção, ao menos é o que assisti nestes últimos tempos na TV Senado.

Lembro ainda que na Bahia os que foram prefeitos de Salvador, exceção feita ao ACM, não se elegeram governadores. É a sina, é o gosto amargo. O eleitor de Salvador parece ser bom em julgar, e cobrar, os que lhes governaram.

Enquanto isto, Suassuna transforma a saudade em alegoria de frevo.

Melhor festejar, porque hoje é sábado.

Melhor ainda, é não ter de receber essas visitas, mesmo que só ocorram em períodos eleitorais. Mãe Stela , com certeza, concorda.

Tim Tim!!!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos