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CRÔNICA

O sorriso do lagarto perdeu a graça

Janio Ferreira Soares

Já estava concluindo o final de um artigo em forma de carta para os nossos hermanos argentinos (onde parabenizava-os pelo segundo lugar conquistado diante da Alemanha e também agradecia pela aula que eles nos deram de como uma torcida deve se comportar numa Copa do Mundo, sempre pra cima, com gritos de guerra e músicas empolgantes, sem jamais se deixar levar por cânticos fofinhos acompanhados de palminhas ritmadas, do tipo: “yo soy argentino, com muy orgullo, com muy amor…”, que podem até cair bem num culto evangélico lá pras bandas de Córdoba – ou em alguma missa celebrada pelo Papa Francisco em La Bombonera -, mas nunca num estádio lotado de um país cinco vezes campeão do mundo), quando Valéria chega de mansinho e diz: “já soube do seu “amigo”?, e, diante da minha cara de interrogação, me joga na caixa dos peitos a notícia de que João Ubaldo acabara de morrer.

Imediatamente minhas glândulas supra-renais começaram a jogar no meu organismo seus hormônios, a boca secou e uns dois copos d’água se fizeram necessários para baixar a adrenalina e eu soltar um “puta que pariu!” daqueles que valem cada letra exclamada. Em seguida, entro nos sites e lá está a confirmação de sua morte, acompanhada dos blá, blá, blás que mortes repentinas provocam, com depoimentos de amigos, colegas e até de alguns políticos que eram bombardeados pela sua pena, mas que agora, diante da certeza de que não haverá mais réplica, tecem-lhes loas crocodilianas.

No meio dos depoimentos vejo o de Zuenir Ventura, e logo me lembro da vez que eu o usei como ponte para fazer chegar às suas mãos uma brincadeira que eu escrevi sobre ele, que falava exatamente sobre as surpresas e as armadilhas que o destino nos apronta – e que são determinantes para o nosso futuro.

Nela, eu aventava algumas casualidades que poderiam ter mudado sua vida, como, por exemplo, se no lugar de conhecer o jovem Glauber Rocha no Colégio Central, ele tivesse sido apresentado ao então estudante de medicina, Antônio Carlos Magalhães. Seguramente, nesse caso, o escritor dançava e a Bahia, muito provavelmente, teria tido a honra de ser representada no Congresso Nacional pelo senador João Ribeiro que, depois de uma meteórica carreira como vereador, deputado, governador biônico e ministro de Minas e Energia no mandado do seu colega de Academia, José Sarney, estaria sob a liderança de Renan Calheiros e cantando Blowin’in the Wind na companhia de Suplicy.

Brinquei também sobre o que teria acontecido se, durante a sua infância em Aracaju, ele tivesse se apaixonado por uma sorridente morena da cidade de Lagarto, casasse com ela e ficasse morando por lá. Nesse outro caso, o escritor não dançava totalmente, mas, no máximo, teria feito apenas um poema chamado O Sorriso “de” Lagarto, onde cantaria em prosa e verso a dentição perfeita da bela morena que ganhou seu coração.

Pois bem, como eu não tinha o seu e-mail, mandei a brincadeira para Zuenir e, dias depois, chega uma carinhosa mensagem dele, dizendo que tinha gostado muito do meu texto, que fora muito bem escrito, essas coisas todas que, vindas de quem veio, foi fundamental para que eu continuasse nesse lance louco que é arrumar palavras soltas para que, depois de juntas, elas possam ter algum sentido lógico. E nisso, pra mim, ele era o maior de todos.

Pra terminar, daqui de Paulo Afonso, cidade onde sargento Getúlio veio buscar um preso em um de seus melhores romances, faço votos que o farol da Ilha continue guiando e protegendo os passos do seu filho mais porreta, agora flanando invisível pelo bar de Espanha, Leblon e adjacências. Viva João!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

Carlos Volney on 19 julho, 2014 at 22:28 #

Esta crônica do Janinho me dá a oportunidade de dizer-lhe que nutro por ele a mesma simpatia e admiração que ele tem por Caetano Veloso, conforme confessou em um crônica pretérita em que contou de seu encontro em um bar, no sempre majestoso Rio de Janeiro, com o nosso grande poeta, músico e cantor – pra ficar por aí.
Também eu tenho vontade de te dar um abraço um dia, Janinho, e sou leitor ávido de tuas crônicas.
E me perdôe a intimidade do tratamento pois ela é fruto de estímulo de pessôas que habitam parte mais íntima de meu universo afetivo – e que te conhecem bem – dentre elas minha adorada e inseparável amiga Olivinha.


Paulo Sampaio on 20 julho, 2014 at 12:11 #

Prezado Jânio: leio todos os artigos de sua lavra que são publicados quinzenalmente no jornal A TARDE. Gosto de sua redação, sou um admirador do seu estilo de escrever, e no texto à epígrafe, publicado na edição de ontem, você se superou. É certo que JOÃO UBALDO sabia, como ninguém, “arrumar palavras soltas para que, depois de juntas, elas possam ter algum sentido lógico”, mas você também o faz com maestria, e pode ser o substituto dele.
Parabenizo-lhe pelo excelente artigo, que já li por três vezes, e por mim será guardado.
Grande abraço.
Paulo.


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