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ARTIGO DA SEMANA

Rio – Bahia – Califórnia: Ubaldo e o legado da Copa

Vitor Hugo Soares

“O problema está em nós. Nós, o povo.”

(Do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que acaba de partir e nos deixar a todos mais pobres de inteligência, humor e indomável espírito crítico.)

Mal curado da ressaca moral causada pela sova no futebol, semana passada, com o baque da Copa, constato que os dias seguintes ainda conseguiram reservar uma notícia de perda inclemente para o povo brasileiro: A morte, de repente, sem comunicados prévios, do escritor e jornalista (ex-editor chefe da Tribuna da Bahia) João Ubaldo Ribeiro. Nascido na heróica e sempre bela ilha baiana de Itaparica, cenário de Viva o Povo Brasileiro, e de muitos outros de seus fabulosos e consagrados escritos.

Luto geral no Brasil mais profundo. Na madrugada de quinta-feira, 17, deste julho perverso para não esquecer, Ubaldo foi fulminantemente abatido por uma embolia pulmonar. Notícia trágica e terrível, principalmente porque atinge o País no âmago da sua inteligência, bom humor, indomável espírito crítico e extrema capacidade de manter olhos bem abertos e alertas, mesmo nos momentos dos maiores desastres e de grandes desesperanças.

Abatedora notícia, ainda mais na quadra desanimadora que atravessamos. No Brasil e no mundo. Da ausência de autores transcendentes como ele; da falta de princípios políticos, sociais e morais, esmagados pela sede de poder, ganância desenfreada e despudor ético.

Ubaldo se vai na época sombria de aviões civis de carreira, lotados de passageiros e tripulantes, abatidos por mísseis e foguetes em pleno vôo, em guerras boçais (Ubaldo gostava muito dessa expressão em suas conversas sobre a política e muitos de seus personagens). Nada, ou quase nada a fazer. A não ser persistir e ser fiel aos inúmeros exemplos de resistência, vida e inteligência aguda deixados pelo filho dileto do professor Manoel Ribeiro e da Bahia. Guardar para sempre, também, o seu inesgotável bom humor de grande boêmio , culto pensador e notável escritor de jornalismo e de romances.

Afinal, era João Ubaldo quem gostava de repetir: “Quem não morre, fica velho”. Ouvi a frase certa vez ao entrevistá-lo para a revista VEJA, em uma mesa de bar coalhada de garrafas de cerveja, sorvidas durante horas, na pracinha do centro de Itaparica, quando do lançamento do romance “O Sorriso do Lagarto”. O fotógrafo da revista semanal, Mário Leite, (não sei por onde ele anda, mas tenho saudade) e também respeitável boêmio que então trabalhava na redação da sucursal que eu chefiava em Salvador, é testemunha.

“Vida que segue”, diria João Saldanha, outro mestre e saudoso símbolo da nossa inteligência e humor irreverente, que até dói as vezes.

Assim, para concluir estas linhas de opinião semanal, conto um caso que é, ao mesmo tempo, um sinal de esperança e a única passagem amena e estimulantemente vivida pelo autor nestes dias de terríveis pesadelos e amargas notícias.

É noite de quarta-feira, 16, do ano da nossa maior desgraça no futebol, e Ubaldo vivia as suas últimas horas no apartamento do Leblon, Rio de Janeiro. Em Salvador, o telefone chama dos Estados Unidos e, da outra ponta da linha escuto o “olá” com o sotaque inconfundível do compadre e querido amigo Oscar Vallejos, chileno de Valparaiso, que mora há mais de quatro décadas na Califórnia.

Na defensiva desde a humilhante goleada alemã de 7 a 1, no Mineirão, penso com meus botões: “Ih, lá vem gozação internacional, via Embratel”. Engano e maldade da minha parte, reconheço logo em seguida, meio envergonhado de meu pensamento desastrado.

De San Francisco, onde ele reside e nos reencontramos ano passado – dias de reafirmação de amizade, boa e farta mesa, regada ao melhor vinho do mundo -, no cenário do magistral filme de Woody Allen, “Blue Jasmine”, que deu o Oscar de Melhor Atriz à Cate Blanchet -, o compadre transborda em contentamento.

Não sinto nenhuma malícia ou gozação nas suas palavras ou no comportamento amável e sempre generoso. É alegria pura, intensa, fraterna, sincera, no mais lato sentido da palavra. Parecida com aquela que, na quinta- feira, demonstraram Podolski, Ozil e a turma vencedora de craques alemães, durante os impressionantes festejos pela conquista da Copa no Brasil, transmitidos simultaneamente para o mundo, direto da praça monumental do Portão de Brandenburgo, em Berlim.

“Mi compadre, recebi ontem ascamisas da seleção brasileira que você e Margarida (minha mulher e também jornalista) mandaram para mim e para Pablo (meu sobrinho). Estou muito feliz com o presente e agradeço muito a lembrança e a generosidade. Que beleza, mi compadre, thank you, muchas grácias, obrigado”, diz ele misturando idiomas, com emoção.

Em Salvador, na ponta brasileira da inesperada conversa telefônica, sou eu quem fica desconcertado, então, supondo que o interlocutor possa estar imaginando uma desfeita ou brincadeira de mau gosto do amigo distante.

Lembro então de ter despachado as camisas há muitos dias, muito antes do jogo Brasil x Chile. Aconteceu, em seguida, uma pane total no sistema elétrico da sede dos Correios, em Salvador. O acidente paralisou por semanas o envio de Sedex, daí o atraso e a chegada das camisas nos correios da Califórnia bem depois de consumada a vergonhasa derrota dos Canarinhos, sem luta e sem brio.

O compadre Oscar, amante inveterado do futebol, no entanto, parece não dar a mínima para o desastre esportivo. Só quer saber “das maravilhas do Brasil”, que viu pela TV durante a Copa: “Que festa, hein compadre?”. “Aquela praia maravilhosa, cheia de índios, onde os alemães ficaram, é mesmo na Bahia?”, pergunta impressionado com Santa Cruz Cabrália, na Costa baiana do Descobrimento”. “E o Rio de janeiro, hein mi compadre. Que ciudad!”.

E completa, antes de encerrar a emocionada ligação: “Vou começar a poupar uns dólares para desembarcar em breve aí na Bahia. Pode esperar”.

Fico contente também. E imagino: deve ser esse encanto feiticeiro do País e o alegre encantamento do povo brasileiro, afinal, o grande e tão falado legado da Copa no Brasil.

Viva João Ubaldo ! Viva o povo brasileiro! .

Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra. com.br

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Comentários

rosane Santana on 19 julho, 2014 at 7:48 #

Viva o povo brasileiro! Lindo texto, Vitor!


Graça Azevedo on 19 julho, 2014 at 10:30 #

Mais um lindo texto produzido pelo querido editor. Valeu Vitor!


Cida Torneros on 19 julho, 2014 at 10:44 #

Viva o texto do jornalista brasileiro Vitor Hugo Soares em homenagem ao João Ubaldo!


luiz alfredo motta fontana on 19 julho, 2014 at 13:30 #

Caro VHS!

Qual a cor da ausência?

É primária?

Penso que não.

A vida mistura essências, uma aqui, outra acolá, pula duas, soma mais três, escorre, aquece, esfria, dilui, respinga, e vai seguindo, por vezes sem rumo, eu diria até que, quase sempre, sem rumo certo.

Então primária não é!

Secundária seria se João fosse ainda menino. Até era, é possível, mas só quando queria e para poucos que perceberiam..

Terciária?

É pouco, de há muito ele não era adolescente, e como conter João em apenas seis opções?

Quentes ou frias, análogas ou complementares, as cores, por hora rendem suas homenagens e sonham em ser escolhidas.

Talvez Caymmi soubesse, talvez tivesse vislumbrado em algum detalhe do encontro do céu da Bahia com o mar que lhe cabia. Talvez pela manhã, mas desconfio que o tempero da preguiça era mais forte e atento ao entardecer.

Seja lá qual for, essa cor da ausência, hoje a Bahia a veste.

Tim tim!


Carlos Volney on 19 julho, 2014 at 22:14 #

Que bom estar vivo e lúcido para poder conhecer, contemplar e se emocionar com tanta poesia. Sim, poesia sim, desde o texto preciso, marcante e indelével do mestre Vitor Hugo, até o “comentário” – as aspas são propositais e necessárias, ao meu ver – antológico dessa figura indispensável, para dizer o mínimo, que é o poeta Fontana.
Boêmio assumido e orgulhoso da condição, resta-me concluir, TIM TIM!


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