João Ubaldo e Glauber Rocha: “somos baianos”

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CLAUDIO LEAL

ESPECIAL PARA A FOLHA DE S. PAULO

“Sou uma invenção de Glauber Rocha”, definia-se o auto-irônico João Ubaldo Ribeiro. Escritor ainda sem obra, na Bahia do início dos anos 1960, Ubaldo era celebrado pelos elogios do jovem cineasta, que exigia a escrita de um romance e o anunciava como “grande especialista em literatura americana”, obrigando-o a se lançar aos livros de Hemingway ou Scott Fitzgerald, para justificar o título honorífico.

Glauber e Jorge Amado lhe deram empurrões no mundo dos editores. Mas sua incursão na literatura deve um bom naco à influência do pai, o jurista e professor Manoel Ribeiro, que impunha uma dieta livresca formada pelos clássicos brasileiros e universais, e não havia sequer espaço para a escolha do dicionário —sem discussão, deveria consultar o de Laudelino Freire.

Na biblioteca paterna, leu Antonio Vieira, Manuel Bernardes, Shakespeare, Homero, Cervantes, Machado de Assis, José de Alencar e outros autores cravados na mente pré-adolescente.
João Ubaldo Ribeiro
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Manu Dias/Secom
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O escritor João Ubaldo Ribeiro na Academia de Letras da Bahia

Nascido na ilha de Itaparica (BA), João Ubaldo passou a primeira infância em Aracaju (SE), de onde retornou aos 11 anos para o Estado natal. Nas décadas de 1950 e 1960, atraído por Glauber, Ubaldo se incorporou à geração da revista “Mapa”, participando da cena vanguardista de Salvador. Modernizava-se a literatura, o teatro, a dança, a arquitetura e a música.

Dividia-se entre a Faculdade de Direito e a redação do “Jornal da Bahia”, marcado pela presença de velhos comunistas, no qual escrevia colunas humorísticas sob o pseudônimo de Policarpo. Caía em noitadas intermináveis no cabaré Tabaris e no bar existencialista Anjo Azul —famoso pelo coquetel Xixi de Anjo—, além de alguns pés-sujos em que cantava boleros e podia imitar um bandleader: “Y ahora Pedro Vargas, ¡el Tenor de las Américas!”. Mais tarde, seria o editor-chefe da “Tribuna da Bahia”.

Na ilha de Itaparica, o refúgio preferido, Ubaldo escreveu o clássico “Viva o Povo Brasileiro” em jornadas iniciadas às 4h na Biblioteca Juracy Magalhães. Um dia, zonzo com o esforço literário, quis desistir da obra. Nesse estado de quase depressão, sensibilizou-se com uma ordem do amigo João Carlos Teixeira Gomes: “Essa tradição do escritor no mundo começa antes da Grécia. Portanto, você tem de assumir a importância do seu papel. Termine o romance!”

Em janeiro de 2010, João Ubaldo sustentou uma campanha contra a construção de uma ponte de 13 km entre Salvador e Itaparica, orçada em mais de R$ 7 bilhões, proposta pelo governador Jaques Wagner (PT). Apoiado por um manifesto, o escritor acusou o projeto de ameaçar a baía de Todos os Santos e favorecer empreiteiras.

Militantes petistas contestaram a autoridade de Ubaldo para desafiar o governo, alegando que o romancista residia no Rio de Janeiro e apenas veraneava na Bahia. “Esse pessoal é muito ignorante. Pensa que eu preciso da ilha ‘atrasada’ para me ‘inspirar’. Eu não sou repórter, não vou à ilha anotar coisas ou ver inspirações”, desabafou Ubaldo.

No verão de 2014, vibrou com os atrasos. “Vencemos! Essa ponte não vai sair”, disse em fevereiro, no “convescote” anual organizado por seus amigos. Naquela tarde, fumou, bebeu uísque, cantou samba de roda e, discretamente, retornou a sua casa na ilha, por sentir-se mal.

Em 2012, ao assumir uma cadeira na Academia de Letras da Bahia, fixou sua baianidade: “Não somos brancos, negros ou índios; somos baianos. Não pertencemos, no maior rigor da palavra, a nenhuma religião, nem mesmo somos ateus; somos baianos. Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos”.

jul
19

http://youtu.be/8IpJjO3AO4U

“Última Forma: Composição em parceria musica mais que perfeita de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. É uma das faixas do precioso disco “Cicatrizes”, lançado pelo MPB 4 em 1972 pela gravadora Philips. Sensacional! Confira.

(Vitor Hugo Soares)


BOA TARDE!!!

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CRÔNICA

O sorriso do lagarto perdeu a graça

Janio Ferreira Soares

Já estava concluindo o final de um artigo em forma de carta para os nossos hermanos argentinos (onde parabenizava-os pelo segundo lugar conquistado diante da Alemanha e também agradecia pela aula que eles nos deram de como uma torcida deve se comportar numa Copa do Mundo, sempre pra cima, com gritos de guerra e músicas empolgantes, sem jamais se deixar levar por cânticos fofinhos acompanhados de palminhas ritmadas, do tipo: “yo soy argentino, com muy orgullo, com muy amor…”, que podem até cair bem num culto evangélico lá pras bandas de Córdoba – ou em alguma missa celebrada pelo Papa Francisco em La Bombonera -, mas nunca num estádio lotado de um país cinco vezes campeão do mundo), quando Valéria chega de mansinho e diz: “já soube do seu “amigo”?, e, diante da minha cara de interrogação, me joga na caixa dos peitos a notícia de que João Ubaldo acabara de morrer.

Imediatamente minhas glândulas supra-renais começaram a jogar no meu organismo seus hormônios, a boca secou e uns dois copos d’água se fizeram necessários para baixar a adrenalina e eu soltar um “puta que pariu!” daqueles que valem cada letra exclamada. Em seguida, entro nos sites e lá está a confirmação de sua morte, acompanhada dos blá, blá, blás que mortes repentinas provocam, com depoimentos de amigos, colegas e até de alguns políticos que eram bombardeados pela sua pena, mas que agora, diante da certeza de que não haverá mais réplica, tecem-lhes loas crocodilianas.

No meio dos depoimentos vejo o de Zuenir Ventura, e logo me lembro da vez que eu o usei como ponte para fazer chegar às suas mãos uma brincadeira que eu escrevi sobre ele, que falava exatamente sobre as surpresas e as armadilhas que o destino nos apronta – e que são determinantes para o nosso futuro.

Nela, eu aventava algumas casualidades que poderiam ter mudado sua vida, como, por exemplo, se no lugar de conhecer o jovem Glauber Rocha no Colégio Central, ele tivesse sido apresentado ao então estudante de medicina, Antônio Carlos Magalhães. Seguramente, nesse caso, o escritor dançava e a Bahia, muito provavelmente, teria tido a honra de ser representada no Congresso Nacional pelo senador João Ribeiro que, depois de uma meteórica carreira como vereador, deputado, governador biônico e ministro de Minas e Energia no mandado do seu colega de Academia, José Sarney, estaria sob a liderança de Renan Calheiros e cantando Blowin’in the Wind na companhia de Suplicy.

Brinquei também sobre o que teria acontecido se, durante a sua infância em Aracaju, ele tivesse se apaixonado por uma sorridente morena da cidade de Lagarto, casasse com ela e ficasse morando por lá. Nesse outro caso, o escritor não dançava totalmente, mas, no máximo, teria feito apenas um poema chamado O Sorriso “de” Lagarto, onde cantaria em prosa e verso a dentição perfeita da bela morena que ganhou seu coração.

Pois bem, como eu não tinha o seu e-mail, mandei a brincadeira para Zuenir e, dias depois, chega uma carinhosa mensagem dele, dizendo que tinha gostado muito do meu texto, que fora muito bem escrito, essas coisas todas que, vindas de quem veio, foi fundamental para que eu continuasse nesse lance louco que é arrumar palavras soltas para que, depois de juntas, elas possam ter algum sentido lógico. E nisso, pra mim, ele era o maior de todos.

Pra terminar, daqui de Paulo Afonso, cidade onde sargento Getúlio veio buscar um preso em um de seus melhores romances, faço votos que o farol da Ilha continue guiando e protegendo os passos do seu filho mais porreta, agora flanando invisível pelo bar de Espanha, Leblon e adjacências. Viva João!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

jul
19
Posted on 19-07-2014
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-07-2014


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Rafael, hoje, no jornal O Povo (CE)

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ARTIGO DA SEMANA

Rio – Bahia – Califórnia: Ubaldo e o legado da Copa

Vitor Hugo Soares

“O problema está em nós. Nós, o povo.”

(Do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que acaba de partir e nos deixar a todos mais pobres de inteligência, humor e indomável espírito crítico.)

Mal curado da ressaca moral causada pela sova no futebol, semana passada, com o baque da Copa, constato que os dias seguintes ainda conseguiram reservar uma notícia de perda inclemente para o povo brasileiro: A morte, de repente, sem comunicados prévios, do escritor e jornalista (ex-editor chefe da Tribuna da Bahia) João Ubaldo Ribeiro. Nascido na heróica e sempre bela ilha baiana de Itaparica, cenário de Viva o Povo Brasileiro, e de muitos outros de seus fabulosos e consagrados escritos.

Luto geral no Brasil mais profundo. Na madrugada de quinta-feira, 17, deste julho perverso para não esquecer, Ubaldo foi fulminantemente abatido por uma embolia pulmonar. Notícia trágica e terrível, principalmente porque atinge o País no âmago da sua inteligência, bom humor, indomável espírito crítico e extrema capacidade de manter olhos bem abertos e alertas, mesmo nos momentos dos maiores desastres e de grandes desesperanças.

Abatedora notícia, ainda mais na quadra desanimadora que atravessamos. No Brasil e no mundo. Da ausência de autores transcendentes como ele; da falta de princípios políticos, sociais e morais, esmagados pela sede de poder, ganância desenfreada e despudor ético.

Ubaldo se vai na época sombria de aviões civis de carreira, lotados de passageiros e tripulantes, abatidos por mísseis e foguetes em pleno vôo, em guerras boçais (Ubaldo gostava muito dessa expressão em suas conversas sobre a política e muitos de seus personagens). Nada, ou quase nada a fazer. A não ser persistir e ser fiel aos inúmeros exemplos de resistência, vida e inteligência aguda deixados pelo filho dileto do professor Manoel Ribeiro e da Bahia. Guardar para sempre, também, o seu inesgotável bom humor de grande boêmio , culto pensador e notável escritor de jornalismo e de romances.

Afinal, era João Ubaldo quem gostava de repetir: “Quem não morre, fica velho”. Ouvi a frase certa vez ao entrevistá-lo para a revista VEJA, em uma mesa de bar coalhada de garrafas de cerveja, sorvidas durante horas, na pracinha do centro de Itaparica, quando do lançamento do romance “O Sorriso do Lagarto”. O fotógrafo da revista semanal, Mário Leite, (não sei por onde ele anda, mas tenho saudade) e também respeitável boêmio que então trabalhava na redação da sucursal que eu chefiava em Salvador, é testemunha.

“Vida que segue”, diria João Saldanha, outro mestre e saudoso símbolo da nossa inteligência e humor irreverente, que até dói as vezes.

Assim, para concluir estas linhas de opinião semanal, conto um caso que é, ao mesmo tempo, um sinal de esperança e a única passagem amena e estimulantemente vivida pelo autor nestes dias de terríveis pesadelos e amargas notícias.

É noite de quarta-feira, 16, do ano da nossa maior desgraça no futebol, e Ubaldo vivia as suas últimas horas no apartamento do Leblon, Rio de Janeiro. Em Salvador, o telefone chama dos Estados Unidos e, da outra ponta da linha escuto o “olá” com o sotaque inconfundível do compadre e querido amigo Oscar Vallejos, chileno de Valparaiso, que mora há mais de quatro décadas na Califórnia.

Na defensiva desde a humilhante goleada alemã de 7 a 1, no Mineirão, penso com meus botões: “Ih, lá vem gozação internacional, via Embratel”. Engano e maldade da minha parte, reconheço logo em seguida, meio envergonhado de meu pensamento desastrado.

De San Francisco, onde ele reside e nos reencontramos ano passado – dias de reafirmação de amizade, boa e farta mesa, regada ao melhor vinho do mundo -, no cenário do magistral filme de Woody Allen, “Blue Jasmine”, que deu o Oscar de Melhor Atriz à Cate Blanchet -, o compadre transborda em contentamento.

Não sinto nenhuma malícia ou gozação nas suas palavras ou no comportamento amável e sempre generoso. É alegria pura, intensa, fraterna, sincera, no mais lato sentido da palavra. Parecida com aquela que, na quinta- feira, demonstraram Podolski, Ozil e a turma vencedora de craques alemães, durante os impressionantes festejos pela conquista da Copa no Brasil, transmitidos simultaneamente para o mundo, direto da praça monumental do Portão de Brandenburgo, em Berlim.

“Mi compadre, recebi ontem ascamisas da seleção brasileira que você e Margarida (minha mulher e também jornalista) mandaram para mim e para Pablo (meu sobrinho). Estou muito feliz com o presente e agradeço muito a lembrança e a generosidade. Que beleza, mi compadre, thank you, muchas grácias, obrigado”, diz ele misturando idiomas, com emoção.

Em Salvador, na ponta brasileira da inesperada conversa telefônica, sou eu quem fica desconcertado, então, supondo que o interlocutor possa estar imaginando uma desfeita ou brincadeira de mau gosto do amigo distante.

Lembro então de ter despachado as camisas há muitos dias, muito antes do jogo Brasil x Chile. Aconteceu, em seguida, uma pane total no sistema elétrico da sede dos Correios, em Salvador. O acidente paralisou por semanas o envio de Sedex, daí o atraso e a chegada das camisas nos correios da Califórnia bem depois de consumada a vergonhasa derrota dos Canarinhos, sem luta e sem brio.

O compadre Oscar, amante inveterado do futebol, no entanto, parece não dar a mínima para o desastre esportivo. Só quer saber “das maravilhas do Brasil”, que viu pela TV durante a Copa: “Que festa, hein compadre?”. “Aquela praia maravilhosa, cheia de índios, onde os alemães ficaram, é mesmo na Bahia?”, pergunta impressionado com Santa Cruz Cabrália, na Costa baiana do Descobrimento”. “E o Rio de janeiro, hein mi compadre. Que ciudad!”.

E completa, antes de encerrar a emocionada ligação: “Vou começar a poupar uns dólares para desembarcar em breve aí na Bahia. Pode esperar”.

Fico contente também. E imagino: deve ser esse encanto feiticeiro do País e o alegre encantamento do povo brasileiro, afinal, o grande e tão falado legado da Copa no Brasil.

Viva João Ubaldo ! Viva o povo brasileiro! .

Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra. com.br

http://youtu.be/Ee6YvHbW81s

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Postado no Bahia em Pauta em 14 de Janeiro deste, na festa anual em homenagem a João Ubaldo na Ilha de Itaparica

Dá-lhe Waltinho! Capricha no acompanhamento maestro Tom Tavares! Ajuda no coro Olivia Soares, Claudio Leal,Patrícia França,Joacy Góes, dom Isidro Otávio del Amaral Duarte, ministro Ayres Brito e a turma toda que foi para o abraço anual em João Ubaldo na sua Itaparica.

Sem ponte, a não ser a da amizade inteligente e verdadeira.

SOM NA CAIXA, MAESTRO

(Vitor Hugo Soares)

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João Ubaldo, cercado de amigos em Itaparica.

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“Waltinho Queiroz cantando marchinhas de antigos carnavais, show de bola! O maestro Tom Tavares na roda”,

(postado no Twitter por Olívia Soares)
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19 DE JULHO DE 2014

SAUDADES. MUITAS SAUDADES, GRANDE UBALDO!!!

(Vitor Hugo oares)

(

DEU NO UOL/FOLHA

por Eduardo Militão

Os custos para a manutenção dos salários e benefícios atrelados aos deputados e senadores já chegam passam de R$ 1 bilhão por ano. De acordo com levantamento exclusivo do Congresso em Foco, as despesas para cada deputado somam R$ 143 mil por mês. No caso dos senadores, a conta é mais salgada, são R$ 160 mil mensais.

Ao final de um ano, a despesa total será de R$ 1,1 bilhão, sendo R$ 939,2 milhões gerados pelos 513 deputados e R$ 164,8 milhões pelos 81 senadores. Em média, cada deputado custa R$ 1,8 milhão por ano; a despesa anual com um senador é de R$ 2 milhões.

Com despesas correntes desse montante, é possível apurar que, no recesso parlamentar “branco”, que começou nesta sexta-feira (18) e vai até as eleições de outubro, serão gastos R$ 228 milhões, como mostrou o Congresso em Foco. Nesse período de 79 dias, os deputados e senadores só vão se reunir para votar projetos em quatro dias.

Parlamentares custarão R$ 228 milhões no recesso

O cálculo do Congresso em Foco inclui o subsídio parlamentar, de R$ 26.723 por mês, e uma série de benefícios como ajudas de custo, auxílio-moradia, verba de gabinete para contratar mais de 20 funcionários, verbas para bancar passagens aéreas, locação de veículos, serviços de segurança, combustíveis, correspondências, telefones, além de ressarcimentos médicos e odontológicos. Os salários, afora os encargos trabalhistas, somam R$ 206 milhões por ano na conta da Câmara e do Senado.

Veja a lista completa de benefícios

Passagens

Na Câmara e no Senado, os parlamentares têm direito ao chamado “cotão”, apelido da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceaps), uma verba multiuso que serve para pagar inúmeras despesas, mas, principalmente, passagens aéreas, combustíveis e aluguel de veículos. Sozinho, o benefício custa até R$ 253 milhões por ano às duas Casas.

A verba varia de estado para estado. Entre os deputados, a média é de R$ 35 mil mensais; entre os senadores, de R$ 34 mil. Deputados do Distrito Federal recebem R$ 27.977,26, enquanto os de Roraima, R$ 41.612,80. No Senado, o benefício varia de R$ 21.045,20, para parlamentares do Distrito Federal e de Goiás, a até 44.276,60, para os do Amazonas.

Os senadores têm uma vantagem sobre os colegas da Câmara. Para eles, as despesas com serviços postais, telefone fixo e celular e assinaturas de jornais são pagas à parte, fora do cotão. É permitido aos senadores o uso ilimitado do telefone celular.

Funcionários

Outro benefício importante para um deputado e senador é a contratação de servidores em seu gabinete em Brasília ou nos escritórios estaduais. Essa medida custa cerca de R$ 606 milhões por ano à Câmara e ao Senado, bem mais que os salários e o cotão.

Na Câmara, são R$ 78 mil por mês disponíveis para contratar ate servidores comissionados, os chamados secretários parlamentares. No Senado, não há um valor específico, mas uma lista de cargos que podem ser preenchidos. Cada gabinete tem direito a possuir até 61 funcionários, sendo até seis efetivos. Uma estimativa da ONG Transparência Brasil aponta que isso significa uma despesa mensal de R$ 82 mil.

Quatro rodas

Os deputados têm direito a apenas 11 carros oficiais. Eles são destinados ao presidente da Câmara, ao outros seis integrantes titulares da Mesa, ao procurador parlamentar, à procuradora da Mulher, ao ouvidor da Casa e ao presidente do Conselho de Ética.

No Senado, cada parlamentar tem direito a um veículo oficial, que é alugado pela Casa para esse benefício. O combustível para rodar em Brasília é garantido. São 320 litros de gasolina ou 420 litros de álcool todo mês.

Pelos menos para os deputados que não têm carro oficial, o combustível tem que ser comprado por eles mesmos. Mas podem usar a verba do cotão para isso, a mesma que garante o aluguel de veículos se necessário. A compra de gasolina e álcool, porém, é limitada a R$ 4.500 por mês.

Estimativas

Uma parte dos benefícios sequer pode ser estimada, como as assinaturas de jornais no Senado e os materiais impressos na Câmara, ou a disponibilidade de apartamentos funcionais em Brasília. O levantamento usou como base os valores máximos disponíveis para deputados e senadores e, quando foi possível, os gastos efetivamente

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OPINIÃO
“Estadania” e eleições

Rosane Santana

A cidadania é um conceito histórico intrinsecamente vinculado ao contexto no qual se desenvolve. Em outras palavras, equivale dizer que ser cidadão no Brasil é diferente de sê-lo na América do Norte ou na Europa, por exemplo.

Segundo José Murilo de Carvalho, no Brasil, diferentemente do que ocorreu na maioria dos países de tradição democrática, como a Inglaterra, foi invertida a sequência de direitos – civis, políticos e sociais – que forma o tripé daquilo que historicamente é definido como cidadania no mundo ocidental, a partir da Idade Moderna. Esta inversão, herança do absolutismo português, ocasionou o fenômeno da “estadania”, pelo qual o Estado ocupa papel central na conquista dos direitos sociais, inibindo a participação popular na vida pública. Disto decorre a hipertrofia do Poder Executivo sobre os demais poderes, com a transformação do Poder Legislativo em um instrumento de mediação de interesses corporativos e troca de favores.

O resultado desse processo é uma organização de movimentos corporativos em torno do Estado, os quais buscam reivindicar melhorias pontuais para as categorias com maior poder de organização. Enquanto isso, a sociedade como um todo permanece sem vínculos que, em qualquer outra sociedade, transformam-na em um todo capaz de fazer avançar as conquistas sociais.

A “estadania” estimula o surgimento de líderes messiânicos, os quais a população acredita serem a solução para seus problemas, dispensando a intermediação da representação parlamentar. Este fenômeno também favorece o autoritarismo e a centralização, desencorajando, ao longo da história do país, a participação política.

Rosane Santana é jornalista, mestre em História Social, doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas e membro do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital da UFBA.

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