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CRÔNICA

O MENINO

Gilson Nogueira

O Cristo, a lua e o céu azul! São sete horas e cinco minutos da quarta-feira, 16, sem Brasil hexa campeão de futebol. Antes, iluminado de amarelo e verde, parecendo abraçar a seleção da Alemanha, fito o Cristo, agora, todo branco, da cabeça aos pés, lá, no alto do Morro do Corcovado, abençoando-me, e o mundo inteiro, com um recado: Volte Sempre!

O vento frio, que inibiu-me a vontade de sair para ver a festa argentina escornada na areia de Copacabana, domingo passado, é o mesmo. Parece vir da Argentina, trazendo o tango de Gardel para encontrar o calor da Bossa de Os Cariocas. Dormi e sonhei chorando o Brasil que fez o Brasil sorrir a oportunidade de mudar, para melhor, a gestão do seu futebol. Não pipocam mais as bombas julinas em homenagem ao tetra alemão, conquistado contra a Argentina de um certo ídolo não eterno, como Pelé é.

Não gritos, nem buzinaços, tampouco, vozes altas escapando pelas janelas. A rua não grita Argentina. O Rio de Janeiro é Alemanha, nas cores do Flamengo. E segue aceso, colorido, movimentado e, sobretudo, blasé. Assim, como se não houvesse mundo lá fora. O carioca é festa e trabalho. Voltou à rotina sorrindo a cidade mais bonita do mundo, tanto que o Cristo mora aqui. E sabe-se abençoado aberto 24 horas, por dia.

O Brasil de Neymar ficou para trás. Agora é Vasco, Fluminense, Botafogo…A Copa é jornal velho. O que ficou de lado em verde e amarelo nos tabuleiros da festa servirá para as olimpíadas de 2016. Mas, a corneta de acordar o gato que dormia na marquise da Barata Ribeiro continua sendo ouvida longe. .O menino que a soprou, como milhares deles, no país, pensa, ainda, que Neymar é uma mistura de Herói da TV e Papai Noel.

Na manhã da segunda-feira, 14, quando despertou,o garoto imaginou-se hexa campeão, o Brasil o melhor do mundo do futebol. E chorou. Sua lágrima vai doer até o dia em que meninos como ele chegarem à Seleção.O gol do título, que não veio, irá torturar-lhe o sono. Talvez, a forma de gritar Brasil, até que, no fundo do peito, uma nova batucada, sem as desafinações de uma certa família de chorões sem brio, anuncie sua chegada triunfal, em um desfile de esperanças de novos gritos de é campeão.

Havia, no meio da noite, no domingo do tetra alemão, o latido forte de um cão, impedindo-me sonhar um Brasil melhor. Acho que ele queria, também, comemorar a vitória espetacular do time, no idioma que, de algum modo, considerando o sangue do meu bisavô materno, também é meu. Viva o menino! E o povo alemão!

Gilson Nogueira é jornalista baiano em temporada carioca.

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Comentários

Murilo Fiuza on 16 julho, 2014 at 11:06 #

Caro Gilson, que texto magnífico! Nos anos que trabalhei no Jornal do Brasil, tinha um chefe que dizia que o jornal de hoje vai embrulhar o peixe na feira de amanhã. A Copa, como vc diz, é jornal velho. Agora, é olhar pra frente, trabalhar e esperar que esse menino de sua crônica possa ser feliz – como jogador, médico ou advogado. – num país melhor para se viver. Abs e parabéns


luiz alfredo motta fontana on 16 julho, 2014 at 16:27 #

Caro Gilson

“A Copa é jornal velho”

Brilhante, preciso, como deve ser navegar.

Mas confesso!

Dói! Não pela Copa, ma pelo significado de jornal velho. Não mais aquelas pilhas da Folha da Manhã, hoje Folha de São Paulo, na garagem da casa de minha infância. Nela Arapuã e suas crônicas, “Cavalo comedor e cabresto curto”. Imagino o que ele diria sobres esses alemães afáveis que nos visitaram e sorrindo levaram a tal taça.

Falta no rádio, ou melhor, falta o velho rádio com Vicente Leporace folheando as manchetes. Falta o”O trabuco”

Caro Gilson, a pilha de jornais velhos, no que me diz respeito, está maior do que as dos que eu ainda lerei, assim como as Copas, as minhas se foram, poucas virão, talvez nenhuma.

O triste, caro Gilson, é que além da Copa ser jornal velho, a esperança anda rota, a novidade é que Tomasi di Lampedusa, que tal qual você nesta crônica, cunhou uma frase para se guardar, a dele, por azar, perfeita tradução da ideologia dos que nos governam, seja lá de que partidos forem.

“Algo deve mudar para que tudo continue como está”. (O Leopardo)

Hoje, reconheço, estou apenas triste.

Tim Tim!


vitor on 16 julho, 2014 at 19:42 #

Murilo Fiuza

Muito bom saber de sua presença por estas bandas do Bahia em Pauta.Eu também estava no Jornal do Brasil, quando esta frase sobre o efêmero destino jornal impresso era corrente na redação da Avenida Brasil

A escutei várias vezes em conversas com João Saldanha e sempre pensei que a frase fosse dele, mas acho que vinha desde o tempo de Dines.

Juarez Bahia, ex-editor Nacional do JB, meu chefe e saudoso amigo,
também a citava muito.

Mas isso é para mostrar minha alegria com sua presença por aqui, mandar um abraço e desejar que vc apareça sempre. Não só na área de comentarios, mas escrevendo tb no BP, quando e sobre o que vc desejar.
Grande abraço

Vitor Hugo Soares


Murilo Fiuza on 16 julho, 2014 at 21:46 #

Caro Vitor Hugo,

Muito obrigado por suas gentis e elogiosas palavras, ainda mais vindo de um grande jornalista como vc. Há alguns anos acompanho seu site, que me foi apresentado pelo sogro e escriba Gilson Nogueira. O saudoso JB foi minha escola, como a de muitos jornalistas. O grande Alfredo Herkenhoff lançou recentemente o livro Memórias de um secretário – Pautas e Fontes, que conta a história do jornal. Vale a pena a leitura. Por falar em livros, aproveito este prestigioso espaço para divulgar o livro que eu e a colega Ciça Guedes estamos lançando no início de agosto. Chama-se “O Caso dos Nove Chineses”, que conta a história do primeiro escândalo internacional de violação dos direitos humanos da ditadura militar brasileira. O Elio Gaspari publicou uma coluna sobre ele (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2014/07/1479566-o-caso-dos-nove-chineses.shtml). A obra tb já está em pré-venda no site da Livraria Saraiva (http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/7854839).

Vitor Hugo, desejo vida longa e muito sucesso ao BP.

Grande abs

Murilo Fiuza


Olivia on 17 julho, 2014 at 15:42 #

Salve o jornalismo.


laura on 17 julho, 2014 at 17:41 #

Belo artigo… “a copa é jornal velho” por enquanto! Afinal “Algo deve mudar para que tudo continue como está”. Belíssimo comentário Luis Alfredo Fontana!


Gilson Nogueira on 17 julho, 2014 at 17:48 #

Caro Luiz Alfredo Motta Fontana, admiro-o, desde a primeira vez em que li comentário seu.Fez-se, então,alí, o encanto e mais luz de quem sabe o que diz e escreve passou a fazer parte de meu universo.Seu comentário, em cima da crônica na qual afirmo ser a Copa jornal velho, é um gol de letra.Obrigado.Costuremos a esperança! Com alegria.
Um forte abraço.Gilson


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