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Postado em 15-07-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 15-07-2014 00:15


Sertanalia:Diogo Flórez, Aiace e Anderson Cunha,
o núcleo central
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DEU EM A TARDE

Verena Paranhos

O Sertanília pode até ter nascido em Salvador bem pertinho do mar, mas é a Bahia do sertão profundo – aquela do cancioneiro Elomar Figueira Mello – que marca letra e forma das músicas do grupo.

Em quatro anos de estrada, Aiace (vocalista), Anderson Cunha (viola e violão) e Diogo Flórez (percussão) aproximam o sertão do litoral por meio de uma poesia simples, ora bucólica e intimista como as regiões afastadas, ora percussiva, enérgica e festiva como o povo que enfrenta as condições mais desfavoráveis para sobreviver.

De sexta a domingo, o Sertanília faz cinco apresentações na Caixa Cultural Salvador, no Centro, com ingressos a R$ 8 e R$ 4. O show Ancestral, em formato pocket, apresenta canções autorais do primeiro álbum do grupo (homônimo lançado em 2012), releituras de Lenine, Antônio Nóbrega e Elomar, além de inéditas que vão integrar um EP que sai ainda este ano.

“A gente lida com um universo que não é muito comum para as pessoas, um sertão mais antigo do que uma referência a Luiz Gonzaga e Vidas Secas de Graciliano Ramos”, conta Anderson Cunha, que nasceu em Caetité, na região sudoeste do estado e vive na capital há mais de 20 anos. Foi dele a ideia de criar um grupo que resgatasse linguagem e sonoridade do sudoeste baiano, ricas em manifestações culturais como ternos de reis, ladainhas e congadas.

Na oficina gratuita

“Depois de passar muito tempo e ter uma vivência com bandas em Salvador, achei que quanto mais eu cantasse a minha terra, as minhas raízes, mais eu poderia ser verdadeiro, buscando o que poderia ser original”, afirma o músico.

O trabalho começou preocupado com a música de câmara (só Anderson não tem formação na Escola de Música da Ufba) e foi sendo preenchido pelo peso da percussão em pesquisas na região sudoeste e andanças por festivais do Brasil e exterior (já se apresentaram em Lisboa, Madri e Amsterdã).

“Usamos muitos instrumentos de couro, madeira, alfaias, atabaques e muitos efeitos com sementes e materiais naturais. A gente tem desde instrumentos árabes, como o derbac (uma espécie de pandeiro de origem árabe) à moringa de barro, uma influência africana”, explica o percussionista Diogo Flórez.

No pocket show da Caixa Cultural, o trio vai ser acompanhado por Fábio Garboggini (violoncelo) e João Almy (violãoe em cada dia contará com uma participação especial de músicos que completam a formação cheia da banda: Mariana Marin, Raul Pitanga, na percussão, e André Becker, na flauta. A formação completa com sete músicos (entre eles três percussionistas) poderá ser vista no Virote Cultural do Solar Boa Vista, em 2 de agosto.

Dentro e fora

Embora tenha fortes influências sertanejas, de Elomar e Xangai, o grupo também tem olhos para fora do sertão e bebe da música feita por Michael Hedges, Gilberto Gil e Lenine, de modo a aproximar a sonoridade do grande público.

“Essa nossa busca pelo sertão não se limita ao sudoeste baiano, embora essa seja a nossa fonte primária. A gente vai montando a nossa sonoridade, que tanto gera estranhamento quanto encantamento”, diz Aiace.

“Mas não é uma adaptação para um universo pop, porque a gente não tem teclado, não tem guitarra, não tem contrabaixo. É tudo muito acústico. A gente busca manter a sonoridade que se escuta lá (no sudoeste). Embora se proponha comercial, não é tão comercial assim”, tenta definir Anderson Cunha.

As particularidades do Sertanília renderam ao grupo reconhecimento nacional. O primeiro disco foi indicado ao Prêmio da Música Brasileira e vencedor do Prêmio Dynamite de Música Independente na categoria de Melhor Álbum Regional, ambos em 2013.

Apesar da premiação na categoria regional, o Sertanília não se reconhece assim. “Para eles, regional é qualquer coisa que não é do centro sul. A gente faz música brasileira”, defende a vocalista,

“A gente é a banda que não é de lugar nenhum. Aqui, as pessoas não acreditam que somos da Bahia, perguntam se somos de Pernambuco. Em Pernambuco também não nos reconhecem. O pessoal de fora do Brasil questiona se a gente é brasileiro, porque não toca samba, nem bossa”, conta Anderson Cunha.

O músico e repentista Bule-Bule participou do primeiro disco do Sertanília e é um dos que destaca o talento do grupo. “São jovens que têm uma proposta madura e sem dúvida nenhuma vão alcançar um belo lugar no espaço musical. Acho que o caminho da releitura que eles estão fazendo é a junção perfeita de corda e percussão”.

Já o cantor Lazzo Matumbi, que é padrinho de Aiace e sempre acompanhou os passos da vocalista na música, chama a atenção para a singularidade do Sertanília na Bahia. “É um trabalho diferenciado, você não vê muitas bandas trabalhando nesta linha com qualidade musical”.

Oficina e disco

Com base na pesquisa que embasa o trabalho autoral do grupo, o Sertanília ministra neste sábado a oficina gratuita Música e Tradição dos Ternos de Reis, na Caixa Cultural. As inscrições podem ser feitas até quarta, pelo telefone (71) 3421-4200.

Além do EP, a banda trabalha o projeto do segundo disco, que terá livreto ilustrado e textos em português e inglês, e está sendo adiado por falta de financiamento.

Programe-se

O quê: Sertanília
Onde: Caixa Cultural Salvador
Quando: Sexta, 18, às 20h; sábado, 19, e domingo, 20, às 17h e 20h
Quanto: R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia)

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