André Setaro: fim de tarde em um bar no Porto da Barra
Foto:Margarida Neide (Setaro gostava muito desta foto)

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Do cineasta baiano Tuna Espinheira, em sua página no Facebook, sobre a partida do crítico de cinema e professor de Audiovisual da Facom-UFBA, André Setaro, leitor, incentivador e amigo especial do Bahia em Pauta, que morreu nesta tristonha quinta-feira, 10, em Salvador, vítima de enfarte aos 64 anos. O BP subscreve as palavras de Tuna.
(Vitor Hugo Soares)

ESTE VAI FAZER FALTA, SIM, ALUNO DE WALTER DA SILVEIRA, SUPRIU A AUSENCIA DESTE NA CRÍTICA DE CINEMA. TINHA UM PENSAR MUITO PRÓPRIO. NÃO PARTICIPAVA DAS CHAMADAS “IGREJINHAS”, LIGADAS A ESTE OU A AQUELE GRUPO. FREQUENTADOR VORAZ DO ESCURINHO DO CINEMA, VIA TODO TIPO DE FILME. ALGUNS EM SESSÕES CONTINUAS. FALO DE UM TEMPO EM QUE SE PODIA PERMANACER NA SALA E ASSISTIR, QUANTAS VEZES QUIZESSE A FITA. SEM SACOS DE PIPOCA E O FALAR AO CELULAR. TENHO COMO VERDADEIRA UMA ESTÓRIA DELE COMO ESPECTADOR, ASSISTINDO MAIS UMA VEZ, E FORAM MUITAS, O FILME, CIDADÃO KANE, O NÚMERO UM DA SUA PREFERÊNCIA, NO FINAL, COMO SEMPRE LAMBIA OS LETREIROS E DEIXAVA OS OUTROS ASSISTENTES SAIREM, ELE, MEDUSADO DE OLHOS NA TELA. NO LETREIRO FIM, LEVANTOU-SE, E SÓ ENTÃO, OLHANDO PARA O LADO VIU A SUA NOIVA EM ESTADO DE SONO PROFUNDO. HORRORIZADO A DEIXOU NOS BRAÇOS DE MORFEU, E ERA UMA VEZ O NOIVADO. NO MOMENTO, ATURDIDO, SEM QUERER ACREDITAR NA NOTÍCIA TÃO AMARGA, ME VEIO ESTE CASO COM PITADA DE HUMOR. POR QUE SEMPRE VALORISAMOS EM NOSSAS COVERSAS E TROCAS DE IDEIAS, O MOLHO DO HUMOR. MAIS TARDE VOU TENTAR ESCREVER OUTRA ESPÉCIE DE TEXTO, LEMBRANDO O SAUDOSO AMIGO. QUE MERDA!!!!
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Comentários

Claudio on 11 julho, 2014 at 1:29 #

Querido Tuna: nosso amigo Setaro se orgulhava muito de ter representado um dono de funerária em seu filme “O cisne também morre”.
Que merda!, sim. Muitas saudades.


regina on 11 julho, 2014 at 10:09 #

Quando o sujeito é autêntico, sagaz, inteligente, sábio, erudito, humano, amigo, detesta o “politicamente correto”, vive à sua maneira, ama o que faz, é fissurado na eterna Brigitte Bardot e ainda por cima amante do cinema, não tem como não amar, impossível é esquecer!!!

CERREM A CORTINA, DESCANSE EM PAZ ANDRÉ

ww.youtube.com/watch?v=som4dmHQasg


regina on 11 julho, 2014 at 10:16 #

regina on 11 julho, 2014 at 16:01 #

André Setaro

POR INACIO
11/07/14 11:32
http://inacioaraujo.blogfolha.uol.com.br/2014/07/11/andre-setaro/

Ah, não! Andre Setaro, não! Fico sabendo por Marcelo Miranda que foi um infarto agudo de miocárdio.

Desta vez a perda é nossa: da observação, da análise, do discurso sobre o cinema.

Eu o conheci em Tiradentes. Naquele calor, sempre de óculos escuros e calca comprida, nunca uma bermuda.

Um tipo estranho, todos se diziam.

Nos debates, a platéia esperava, tensa, sua intervenção. Tinha ar de quem ia destruir tudo.

Não. Era sensato, gentil, mas suas observações eram sempre agudas, fortes.

Um desbaiano.

Não antibaiano, claro. Mas sem patuá, sem fitinha…

Sei lá; vai ver que tinha até pai de santo!

Não importa.

Pessoalmente, era uma conversa muito culta e sempre agradável.

Abrir seu blog era uma alegria (que nos últimos tempos não conseguia desfrutar, admito).

Ele não se incomodava muito com o presente. Como se o essencial do cinema estivesse atrás. Como se o grande momento fosse o da Nouvelle Vague e, depois, reflexos, decadências, sobras.

Sua perda é terrível para a cultura cinematográfica, para a Bahia, para o Brasil. Saber que não poderei mais desfrutar de sua conversação, algum dia, a qualquer momento, uma desgraça.

É provavelmente um dos meus muitos defeitos: pensar que as pessoas são eternas, deixar para depois.

Mas ele, também, fez o contrário: sumiu de repente. Queria que tivesse lido o livro que vou publicar: não haverá.

Que em descanso haja muitos sonhos com Godard & cia.


Laura on 11 julho, 2014 at 22:02 #

Triste perda para tantos amigos e para a intelectualidade baiana. Ce la vie!


regina on 12 julho, 2014 at 18:56 #

Aqui, um depoimento que faz jus ao André Setaro que conheci:

Um homem de outros tempos
– Raul Moreira
Jornalista e cineasta
raullbm@hotmail.com

No passado domingo, escutei a
voz pausada de André Setaro
declinar ao convite para assistir
O Grande Hotel Budapeste. O
havia visto pela última vez pouco
antes do início da Copa do
Mundo: vislumbramos, lado a
lado, Hiroshima Mon Amour, do
recém-falecido Alain Resnais.
Depois da projeção em 35
mm, que fazia parte do ‘cardápio’
do Cine Clube GlauberRocha,
Setaro, na condição de convidado,
discorreu a respeito da
obra-prima de Resnais. Foi
aplaudido de forma entusiasta
na sua última ‘apresentação pública’
e, ironia da sorte, derradeiro
filme que assistiu em tela
grande.
Era um homem deslocado no
tempo André Setaro. O cinema
atual não o empolgava, assim
como os seus pupilos da Ufba,
pois, como dizia ele, eram, na
sua maioria, “muitos do mesmo”.
Restava, então, a memória,
o relembrar dos bons tempos
da Cidade da Bahia, quando
flanava livre, leve e solto pelas
ruas mal iluminadas, depois de
uma sessão de cinema.
E, foi no escuro das salas dos
cinemas de rua, como era praxe
na formação dos críticos de outrora,
que ele alimentou a sua
alma cinéfila. De início era adepto
do cinema americano. Depois,
deu-se à sétima arte europeia,
revolucionária, aos ‘cinemas
novos’, inclusive o brasileiro,
estimulado pelo ensaísta
Walter da Silveira, de quem foi
discípulo.
Naturalmente que a sua formação
foi aquilatada pelos textos
assinadosporcríticosdoeixo
Rio/SãoPaulo,dentre eles FranciscoLuizdeAlmeidaSalles,
Alex
Viany, Moniz Vianna, Paulo Emilio
Salles Gomes, Rubem Biafora
e tantos outros. No início dos
anos1970,tornou-seresenhista
e crítico da Tribuna da Bahia.
Na qualidade de professor,
Setaro se aprofundou no estudo
dos fundamentos da sétima arte
ao mesmo tempo em que foi
aprimorando a sua escrita,
criando um estilo: era leve e
fluído, qualidades que, associadas
ao chamado conhecimento
de causa, garantia-lhe o que se
chama de ‘excelência’.
Da metade da década de
1970 até os dias de hoje, ainda
que nos últimos anos deu-se à
reclusão, Setaro, autor de livros
que se tornaram referência nacionalmente,
foi o principal teórico
e crítico de cinema da província.
Natural, também, que tenha
colecionado desafetos,
principalmente entre os diretores
locais, que o acusavam de
perseguir o dito e quase inexistente
cinema baiano.
Portador de uma ironia fina,
de uma educação polida e de
uma timidez que desaparecia na
proporção em que solvia goles
de cerveja, sempre acompanhados
pelos inseparáveis cigarros
Marlboro, Setaro sofreu nos
seus últimos anos: a saúde frágil,
associada às dificuldades financeiras,
pois o salário de professordaUfbanãoerasuficiente
para o seu padrão de vida, acabaram
por miná-lo física e emocionalmente.
Para escapar à dor, refugiou-
se ainda mais no álcool e
na memória, prodigiosa. Saía
de casa no máximo para lecionar
no campus da Ufba, em Ondina,
trêsvezesnasemana.Também
havia diminuído suas postagens
no Setaro’s Blog e, aos
poucos, foi deixando as redes
sociais, sem falar que pediu ‘demissão’
do Terra Magazine, portal
no qual assinava uma coluna
semanal, por não se achar mais
crítico: “Abandonei o cinema”.
Filtrava as ligações que recebia
no celular. Sabia que o fim se
aproximava,mas alimentava-se
do otimismo dos sobreviventes.
Atéqueovelho coraçãode guerra
não aguentou mais e nos privou
da sua companhia.
Não suportava funerais. No
seu, ontem, passaram amigos,
desafetos, admiradores e uma
quantidadeinfindáveldeex-alunos,
que o adoravam e se divertiam
com o seu jeito irreverente.
Quem o viu ali, face pálida
e inerte, ficou com a sensação de
que ele pedia para apagar a luz
e começar a sessão.


regina on 12 julho, 2014 at 20:05 #

Seguirei acrescentando aqui o que achar que representa o nosso querido amigo André Setaro, com vossa licença.

http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/andre-setaro-uma-perda-intelectual-para-o-cinema-na-bahia/?cHash=b2b73b0eff99ada2611343594ef6fbb1


regina on 12 julho, 2014 at 20:11 #

Vejam no YouTube seus vídeos…

https://www.youtube.com/watch?v=fEM65k-4ijg#t=57


regina on 14 julho, 2014 at 14:07 #

Lembrando André Setaro – Tuna Espinheira

Cineasta
tunaespinheira@terra.com.br
A Tarde/BA 14/07/2014

É preciso ter o corpo fechado para aguentar
os riscos diários do perigoso ofício de
crítico na área das linguagens artísticas,
em todas elas. Comentar analisando, dissecando,
apontando os prós e contras, sempre foi a
maneira mais ligeira de contrair inimizades.
Nestas areias movediças, o indômito André
Setaro escolheu o cinema como matéria de
pesquisa principal dos seus variados estudos.
Daí até o difícil texto analisando filmes foi um
pulo. Na Tribuna da Bahia, na época, um novo
jornal que se implantou na Bahia trazendo
inovações, uma espécie de revolução na imprensa
local, conseguiu o posto de crítico da
sétima arte, como cronista diário. Por décadas
cumpriu esta missão. Sem perder de vistas que
ele foi aluno de Dr. Walter da Silveira, na universidade,
além de habitué constante das matinês
sagradas, todos os sábados, do Clube de
Cinema da Bahia. Quando a província pôde
conhecer o de melhor da cinematografia internacional,
com introdução analítica do mestre
Silveira antes das projeções.

Mas os desígnios do destino tiraram de cena,
ainda novo, o desbravador dos caminhos para
o cinema baiano, passando o bastão para Guido
Araújo, coma sua luminosa Jornada de Cinema
da Bahia, que virou nordestina, nacional e, por
último, Jornada Internacional de Cinema da
Bahia. Por 40 anos, foi o oásis das produções
do cinema cultural neste país inzoneiro. Cabendo
ao André, através da crítica de qualidade
e trabalhando com os alunos na universidade,
enfatizando o assunto vital, a linguagem cinematográfica…
Eles cobriram o hiato deixado
por Dr. Walter. E o cinema baiano pôde dar a
volta por cima, sacudir a poeira…

Na década de oitenta, André aceitou um
convite meu para o papel de um dono de
funerária. Ele, digo, o personagem bebia conhaque
comgotas de formol. Setaro vestiu com
perfeição o dono da funerária, média-metragem,
com enredo de fatos extraídos do realismo
mágico do próprio Anísio, o poeta citado.
Certa feita, André levou uma noiva para assistir
a Cidadão Kane, que ele já havia visto vezes sem
conta, na saída notou que ela estava em sono
profundo, largou-a lá… e era uma vez o noivado…
Paixão pelo cinema é isto aí! Ou não?!
Evoé, amigo André Setaro!


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