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Artigo/Psicologia, cinema e futebol

Psicologia, “Malévola” e a Copa no Brasil

Laura Tonhá

A derrota da seleção do Brasil para a Alemanha ainda é a pauta do dia, mas não a questão central deste artigo. Vamos falar de psicologia. Tema das entrelinhas, onipresente, não foi diferente na Copa de 2014. Da mordida de Suarez a derrota histórica da seleção brasileira, a nossa constante tentativa de entender e explicar acertos e revezes no comportamento humano.

A overdose de comentários durante a cobertura relacionados à presença de psicólogas na Granja Comary, estado emocional dos jogadores, cartas e visita do técnico ao quarto dos jogadores para motivar pode indicar que o suporte motivacional foi tratado como salvador da pátria de chuteiras.

Aparentemente focou-se mais em motivação do que em planejamento, estratégia e treino. Esta seria uma justificativa para a comissão técnica dar declarações sempre confiantes e arrogantes e a seleção, nas vésperas da semifinal, estar preocupada em postar selfies #tois, #forçaneymar.

Olivier Burkeman, escritor inglês, lançou um livro recente Manual Antiautoajuda. Neste livro o jornalista investiga a relação entre pensamento positivo, negação do fracasso, desejo de superação e pessoas bem-sucedidas. Conclui que não existe formula, nem os 10 passos para alcançar o topo e que no fundo as pessoas buscam avidamente por uma resposta pronta.

O escritor, porém, argumenta favoravelmente sobre o estoicismo e defende uma certa indiferença quanto às emoções externas tanto boas quanto ruins. De acordo com ele, o equilíbrio – e com ele a segurança e a felicidade – estariam no cultivo de uma certa indiferença em relação às circunstâncias individuais.

Esta dose de frieza e equilíbrio nos bons e maus momentos a que o autor se refere fez diferença no jogo da última terça. A seleção alemã, normalmente fria e equilibrada, jogou em cima da falta de controle emocional do time brasileiro, abalado com a saída de dois jogadores importantes e completamente desnorteado depois de levar o primeiro gol.

A psicologia esportiva e todas as outras modalidades navegaram por um período de descoberta no séc. XX e instalaram-se definitivamente em todos os ambientes do séc. XXI. Nada mais natural em se tratando do estudo do comportamento humano.

Aqui eu chego ao filme “Malévola”. Moderno, genial e singelo. Aviso que estou prestes a contar o final do filme. Continuar esta leitura é uma decisão sua querido leitor.

Malévola traz brilhantemente questões atuais para a fantasia, surrealismo e subjetivismo – terreno da psique humana. A garota, que se chama Malévola, é uma espécie de fada que protege a natureza. A fada se apaixona e confia em um rapaz, ambicioso e individualista. Este rapaz corta as asas da garota para conseguir status junto ao rei. O cortar de asas no filme é literal e simbólico.

Malévola se torna então uma mulher/fada seca e má – com as asas cortadas pelo homem que amou. Poderosa e vingativa, a sua redenção virá através do amor maternal.

Em outra passagem a princesa do filme, a bela adormecida para toda eternidade, é acordada com um beijo. O beijo que acorda a princesa, beijo do amor verdadeiro, vem da sua fada madrinha – Malévola.

O filme quebra paradigmas históricos dos contos de fadas: ao invés de um romance a questão central é uma mulher em busca da superação; o amor por um homem pode lhe cortar as asas e não “lhe dar asas”; o beijo que acorda a princesa para o mundo, não vem do príncipe e sim de uma figura feminina que ela ama e admira e que é a sua mentora, amiga, mãe.

Pura psicologia do feminino em um filme para crianças e adultos que oferece a menina, telespectadora, conteúdo para construção, pelo simbólico e imaginário, do seu espaço na sociedade sem seguir padrões antigos e opressores. O subjetivismo por trás do filme oferece força e suporte para a autonomia feminina.

Voltando a seleção brasileira estivemos amparados por discursos motivacionais desgastados e vazios que não foram suficientes para manter o time de pé.

Fernando Cozac, psicólogo do esporte e presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte diz que “a Seleção de Scolari é um reflexo do preconceito e da desinformação que ainda existe em relação à psicologia do esporte no Brasil”. O especialista ainda informa que atualmente, Alemanha, Estados Unidos e Holanda são algumas seleções que mantêm há mais de dez anos um trabalho psicológico desde as categorias de base.

A redenção da Malévola chegou com o tempo e muito aprendizado, com a seleção não será diferente.

A copa de 2014 passou para o Brasil, Malévola segue em cartaz.

Laura Tonhá é publicitária. Fundadora deste site blog, Bahia em Pauta.

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Comentários

Mariana on 10 julho, 2014 at 15:19 #

Muito bom, Laura! Texto e conteúdo brilhantes!
Parabéns pela bela e realista análise!
Adorei o filme, também!
Quanto a seleção, além de um pouco de técnica, precisam de uma boa dose de controle emocional.
Foi bom enquanto durou…e a vida continua seguindo…


Laura on 10 julho, 2014 at 22:25 #

Obrigada Mariana! Eu tb adorei o filme. Achei super pertinente uma nova forma de contar os contos de fadas, mais coerente com o mundo em que vivemos.
A seleção vai voltar… acho um exagero o massacre: somos os oba oba e a Alemanha a rainha da técnica parece que sempre vivemos no improviso. E os 5 títulos que ganhamos?! Enfim!
Beijão para vc!


Gracinha on 11 julho, 2014 at 13:57 #

Ótima abordagem! Parabéns!!!
No jogo, como na vida, se perde, se ganha… o importante é aprender com os erros e para tal, imprescindível conhecer os seus determinantes. O que houve??? Diante da perplexidade com o 7X1, inclusive por parte de técnico e jogadores, difícil saber a resposta. Fatores psicológicos, variáveis emocionais, tai assunto instigante e por certo análises e estudos surgirão, por parte dos profissionais da área . Por enquanto, Rumo ao 3º lugar Brasil !!!


Gracinha on 11 julho, 2014 at 14:07 #

Em tempo: Não assisti ainda “Malévola”. Deve ser realmente bastante interessante.


Laura on 11 julho, 2014 at 22:06 #

O filme é ótimo! Vale muito a pena. Pois eh… na nossa subjetividade estão as respostas. Bjos!


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