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Postado em 09-07-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 09-07-2014 00:13

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DEU NO JORNAL ESPANHOL EL PAÍS (EDIÇÃO BRASILEIRA)

Humilhação, pesadelo, tristeza, vexame, praticamente um estado de choque. O Brasil foi do céu ao inferno em 93 minutos. Na Vila Madalena, o bairro boêmio de São Paulo, que acolheu todas as torcidas desde o dia 12 de junho, foi sintomático: os clientes fecharam suas contas antes do final do primeiro tempo, deixavam cadeiras vazias, numa imagem desoladora que não combinava com o clima de festa poucas horas antes. Houve quem chegou ao cúmulo de queimar a bandeira do Brasil, o que foi lamentado por quem não acreditava que o patriotismo havia durado menos de 30 dias.

Em Curitiba, no Paraná, a derrota foi desculpa para vandalismo. Ônibus foram queimados ou apedrejados, segundo o jornal Gazeta do Povo. A raiva e a desolação saíram do controle.

Os torcedores, de modo geral, não escondiam o espanto. “Não dá para acreditar nisso, está virando um chocolate. É melhor o Brasil nem voltar para o segundo tempo e perder de W.O.”, disse a advogada Ana Claudia Arantes, que checava nos três televisores do bar onde assistia à partida, em São Paulo, para se convencer que o Brasil estava perdendo de cinco a zero. “Nenhuma seleção tomou uma surra como esta na Copa”, reclamava Felipe Gomes. Outros tentavam diminuir a tristeza apelando para o bom humor: “que bom que não foi contra a Argentina”, ouvia-se em uma das mesas.

Nas redes sociais, o desabafo dos brasileiros ia na mesma linha: “estou com medo de abrir a geladeira e ter um gol da Alemanha lá dentro!”, “Brasil a um gol do hexa”, brincavam os internautas, antes de tomar o sexto gol no segundo tempo. A jornalista Annamaria Marchesini, porém, fez uma análise mais séria. “Vão dizer que esta vergonha é porque o Neymar não está jogando. É mais fácil usar esta desculpa e ignorar a verdade. Mas a seleção pegou a primeira seleção forte e está levando uma surra.” O garçom Evandro Oliveira, que trabalha no bar próximo à residência de Felipão lamentava: “nunca vi uma goleada deste tamanho. É uma vergonha para o Brasil”.

Para amenizar a tristeza, as piadas começaram a correr de celular em celular antes do fim do primeiro tempo. “A Copa fica”, dizia uma na qual o Cristo do Corcovado sustentava duas metralhadoras. “Rumo ao hexa, 6-0”, dizia outra que ainda não calculava a magnitude do desastre. Em outro bar, o garçom morria de rir ao ver a foto no Facebook de um braço com a tatuagem “Hexa 2014” em pleno antebraço. “Talvez dê para corrigir com um oito…”.

O país mais mal acostumado com as vitórias no futebol não escondia a tristeza: 7 x 1 foi mais decepção do que se podia imaginar. Houve quem tentou resgatar os ecos da indignação que haviam ficado enclausurados durante a Copa. “A gente não tem nada, falta saúde, transporte, educação… E até futebol!!”, disse a paulistana Claudia Hypólito. A vontade de gritar gol era tanta que tinha gente que começou a torcer para a Alemanha. No trágico sétimo gol, ouviram-se buzinas, cornetas e um coro “É, gooooool da Alemanha!”

A conversa já mudava de tom no decorrer da partida, quando os clientes que continuavam assistindo ao jogo começavam a questionar quem seria o outro finalista junto com a Alemanha. “Eu prefiro dar a taça pra Holanda”, dizia o publicitário Alan Ferreira, de 41 anos, que carregava uma taça da Copa do Mundo nas mãos, e abraçava uma bandeira. “Desde que eu nasci nunca vi um placar daqueles, apontando para o telão”, reclamava ele, que torce agora para que a Argentina também caia nesta quarta-feira, diante da Holanda.

Esse foi o final da saga brasileira. Da euforia que reina há quase um mês no Brasil à vergonha em apenas 93 minutos. “Emoção?” Estamos comprando a emoção”, dizia Alexandre Sáez, de 32 anos, apontando para uma caixa de cervejas em outro bar de Pinheiros, zona oeste da cidade. Todos falavam com tristeza de Neymar, mas não lhe atribuíam a derrota: para a maioria essa seleção não convencia, “a pior da história”, segundo Fernando Augusto, de 50 anos e proprietário de um quiosque. “É bom. No Brasil, o futebol é uma anestesia para a realidade. Pelo menos agora pensamos nas eleições (em outubro)”, se consolava Renan Ramos, cozinheiro, de 31 anos. “Os que participavam dos protestos (de junho passado) também estão vendo as partidas”, opinava Fernando.

As mesas foram se esvaziando à medida que a tarde caia. E a decepção era tão grande que, em dado momento, se transformou em humor. “Um a zero seria para chorar. Isto é parar rir”, suspirava Livia Barcelos, uma estudante de 25 anos que, depois das cervejas, entrou nas caipirinhas com uma amiga, para esquecer.

A partida terminou em silêncio enquanto o adorado David Luiz chorava diante dos repórteres como um menino e o locutor repetia no vazio, várias vezes, duas ideias. “O Brasil é o único país com cinco títulos mundiais”. “Nós somos o país do futebol”. Então, os garçons desligaram a televisão.

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Comentários

regina on 9 julho, 2014 at 21:32 #

Fica difícil, por mais que se tente e seria correto fazer, não ligar as duas coisas, esporte e política, quando se trata de Copa Mundial. Primeiro por que o nome do time é BRASIL, depois os recursos públicos são gastos numa festa que deveria ser privada, já que a FIFA é uma empresa privada e a festa, o evento, é dela.
O que nos faz ficar assim excitados com os resultados, obviamente, é porque nos parece que o país está na disputa, e assim sendo, perder ou vencer tem um significado alterado da realidade, magnificado sem sentido racional.
Para mim, o que se viu refletido naquele placar aniquilador de 7×1 foi simplesmente o resultado de um trabalho exemplar por parte da Alemanha, em todos os detalhes, a partir da escolha do local para estacionarem e começarem a jornada, Santa Cruz Cabrália, berço da nossa cultura, onde procuraram conviver com os habitantes nativos em perfeita harmonia. Já no lado brasileiro tivemos um treinador ultrapassado, intransigente e petulante, que não escuta ninguém, senão seus próprios chavões, ademais dos incidentes naturais, ou não, que ocorreram durante os jogos. Nós não tinhamos uma equipe capaz de ganhar a copa quando os melhores vão chegando ao final das competições, os Alemães sabiam disso, mas, até eles, não esperavam que fosse tão fácil…


regina on 10 julho, 2014 at 16:14 #

Do Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.

http://outubro.blogspot.com.br/

A DIMENSÃO DA TRAGÉDIA

Nei Duclós

A cada dia que passa, fica mais nítida a percepção do estrago provocado pelos 7 gols a 1 que o Brasil levou da seleção da Alemanha na semifinal do Mineirão da Copa de 2014. O primeiro prejuízo, fundo como todos os outros, é querer relevar o evento, como se fosse apenas um jogo de futebol,quando foi a imolação suicida de uma nação na cena internacional, que estava inteira focada em nós. O Brasil provocou esse haraquiri, pois se iludiu que estava abafando e que poderia triunfar frente a um time disciplinado, coeso e objetivo, mesmo tendo chegado no confronto fatal depois de um sufoco de sucessivos resultados pífios.

Os alemães aproveitaram a recepção de bordel que o Brasil ofereceu ao mundo inteiro sem se deixarem levar pela sacanagem. Descobriram cedo que o país não tinha um lugar à altura para a sua seleção se hospedar, por isso construíram um resort, longe das armadilhas da torcida e da mídia, que se locupletou, junto com c cartolagem bandida e a publicidade invasiva, enquanto escorregávamos para o abismo. A Alemanha treinou nos horários senegalescos dos jogos e se adaptou ao clima, como expedicionários em missão num território hostil. Outras seleções acreditaram na hospedagem e foram cedo para casa, como Inglaterra e Espanha.

De nossa parte, confiamos num técnico que já provou sua competência em outras competições inclusive na Copa da Confederações, mas que deixou-se levar pelo improviso e a soberba. Armou o time ofensivo sem ter atacantes à altura, escancarando um espaço no meio de campo, exatamente o lugar onde a Alemanha governa. Foi como construir a linha Maginot diante da Blitzkrieg. O resultado foi a invasão da nossa capital, o futebol., depois que os tanques do adversário passearam pelo campo como se fossem os conquistadores vikings em vinhas tépidas do Mediterrâneo. Provamos assim que somos um tesouro a céu aberto, pronto para ser dilapidado.

Por que deixamos isso acontecer? Nossa culpa. Destruímos nossas riquezas permitindo que grupos de criminosos dominem o país e o entreguem de bandeja para todas as máfias, que aqui encontraram seu pouso definitivo. Com mais de 50 mil homicídios por ano, e quase 30 mil roubos em São Paulo só no mês de maio último, sabemos a quem pertence a nação que um dia foi soberana: às inumeráveis quadrilhas dentro e fora da cadeia que se servem da cidadania em pânico.

A prostituição institucionalizada, a venda ilegal e permissiva num varejão inominável de drogas em bairros residenciais, a putaria generalizada, a alegria forjada, a neutralização dos protestos, os acordos com o crime para maneirar agora e se deitar na sopa depois, a ineficiência policial, devastada por políticas públicas da insegurança total, a falta endêmica de educação, dos líderes à população, as negociatas políticas, as traições à Justiça, a corrupção permeando cada detalhe da vida nacional, a expropriação indébita via sistema extorsivo de tributos, a economia decrescente convivendo com a propaganda mentirosa, como nas mais célebres tiranias, são a soma que resultaram no fiasco absoluto do jogo decisivo, quando perdemos o direito até de colocar a cara num saco, porque nele está explícito, em letras luminosas e garrafais, a humilhação que cavamos em nossas vísceras e veio à superfície no momento em que mais precisávamos de autoestima.

Lamber as feridas não adianta. Achar que os alemães estão sendo generosos e elegantes depois de nos dar uma surra é considerá-los racialmente superiores. Aturar a soberba e a barbárie argentina, que soube enfrentar os conflitos em campo com a mesma caradurice de seus maus e desprezíveis hábitos, é o que nos resta. Fizeram a festa enquanto nós ficamos com o lixo. Todos somos culpados. Nos iludimos quando estávamos prestes a ter um lampejo de lucidez. Baixamos as armas no momento exato em que a política nos atropelava.

Agora virão as eleições.A totalização digital dos votos, manipuláveis até minutos antes do encerramento do expediente das urnas, como disse um hacker numa palestra (e ninguém deu bola) é que vai decidir quem continuará nos governando. Retalhamos o país em postas e atiramos os pedaços para a voragem das feras. Não somos mais um país. Somos um bando. A derrota suprema, humilhante e acachapante arrancou do nosso peito as cinco estrelas arduamente conquistadas. Voltamos à estaca zero. Chorar só piora. Ignorar o estrago só dará continuidade ao crime. O mínimo que podemos fazer é enxergar direito onde fomos nos meter.

E a paisagem não é bucólica. É de horror.


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