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DEU EM O GLOBO

É uma crise que se arrasta há dois anos. Fechado desde 2012 e com uma dívida de R$ 105 mil de IPTU, o Tempo Glauber, centro cultural mantido pela família de Glauber Rocha e depositário de parte importante do acervo do diretor baiano morto em 1981, começa a passar para outras instituições os documentos que ainda guarda consigo, pela impossibilidade de preservá-los.

A primeira leva, formada por 400 desenhos feitos pelo cineasta desde jovem, será transferida para o Instituto Moreira Salles, em regime de comodato. O contrato entre os herdeiros e o IMS acaba de ser assinado. A outra parte, formada pelo chamado Acervo Lúcia Rocha — composto por cartas, objetos pessoais, livros com anotações e documentos guardados pela mãe do diretor — entra em breve em processo de recuperação e digitalização, o que deve levar três meses. O dinheiro veio de um convênio do Ministério da Cultura, aprovado no fim do ano passado, de R$ 320 mil — metade do valor necessário, diz Paloma, que já procura uma instituição para doar os documentos assim que o processo estiver concluído.

Na impossibilidade de manter o espaço com recursos próprios, o Tempo Glauber segue fechado. E os documentos estão armazenados em condições que nem de perto são as ideais. Apesar de a reserva técnica contar com infraestrutura de preservação, o ar condicionado fica desligado — já que as contas de luz, afirma Paloma, costumam chegar a pelo menos R$ 2 mil. Eles ainda estão em boas condições, mas a sala onde ficam guardados têm cheiro forte de mofo. Durante a semana retrasada, o local chegou a ficar com a luz cortada.

— Minha avó (morta em janeiro) perdeu tudo o que tinha para manter a memória do filho. E ela era uma pessoa de posses, de uma família de fazendeiros de Vitória da Conquista, na Bahia — afirma Paloma. — Até uma casa ela vendeu, e morreu pagando aluguel. Isso aqui é resultado de 30 anos de trabalho dela e 20 anos meus.

Sobre a dívida de IPTU do imóvel, localizado em um casarão na rua Sorocaba, em Botafogo, a filha de Glauber tem esperança de negociá-la com o município. Segundo ela, desde a fundação do centro cultural, em 1987, o imposto nunca foi pago.

— Tudo aqui foi montado com dinheiro público. Mas não tenho como manter.

Uma parte importante do material produzido pelo cineasta, batizado de Acervo Glauber Rocha — que reúne 80 mil documentos, películas, roteiros, cartas e outros — foi recuperada e digitalizada em 2008. Na época, o espaço recebeu quase R$ 1 milhão em patrocínio da Petrobras, e instalações de preservação foram construídas. Em 2010, esse acervo foi comprado pelo MinC, por R$ 3 milhões, e transferido para a Cinemateca Brasileira.

Depois de fracassar na tentativa de receber verba de outros convênios, Paloma conta que o dinheiro da venda foi investido todo na manutenção do espaço.

— Minha prioridade é garantir a integridade dos acervos. Ainda estou aqui, porque tem documento aqui dentro. Tenho uma responsabilidade comigo, já que sou herdeira, e com a sociedade. Não posso querer ficar com eles e botá-los em risco — diz Paloma.

Apesar de já ter cogitado fechar o Tempo Glauber — o que é uma possibilidade constante —, Paloma gostaria de manter o espaço aberto como um centro de memória depois que os acervos não estiverem mais em seu poder. Para isso, está em conversas com a Secretaria municipal de Cultura, que afirma já estudar a situação para ver o que é possível fazer.

GLAUBER NA ‘SERROTINHA’

O IMS ainda não tem planos de expor os desenhos de Glauber, mas já vai inclui-los na “Serrotinha”, edição especial da revista “Serrote” que circula na Flip.

— Conheço esses desenhos há muito tempo. Eles são espécies de anotações para ideias cinematográficas, mas são independentes. São mais conceitos para um filme do que imagens de um plano, embora alguns sejam esboços de montagens — afirma José Carlos Avellar, coordenador de cinema do IMS.

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Comentários

Mario Vieira on 7 julho, 2014 at 17:23 #

É uma pena que não apareceu pessoa competente para fazer do Tempo Glauber um espaço de estudos e agitações cinematográficas. E olha que existem pessoas (não citarei nomes) que bem poderiam transformar o espaço em algo excitante. Mas como estamos cheios de gênios…


Argemiro Antunes - MIRO on 7 julho, 2014 at 21:10 #

Doei, entre 1985 e 1988, cerca de 50 trabalhos originais por mim elaborados ao Tempo Glauber, então administrado por Lúcia Rocha. Gostaria que esses trabalhos não se perdessem. Eles foram expostos em Santos em 1983 e 1984 e parte deles em 1988, no Teatro Dulcina. Também fizeram parte da exposição “Glauber por Glauber”, no SESC-Pompeia.


Letícia Luiz on 8 julho, 2014 at 12:42 #

É triste demais ver que a Cultura no nosso Páis não é respeitada, acho muito hipocrísia do nosso governo que grita aos 4 cantos que Devemos valorizar nossas artes, nossa história, nossos acervos, quanto que um fato como esse acontece ele continua com os olhos fechados.
Acorda Brasil, uma das coisas que não podemos deixar morrer é a história registrada por aqueles que tanto fizerem por nós!


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