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CRÔNICA/COPA

Guerreiros também choram

Janio Ferreira Soares

Plagiando essa rapaziada que vive fazendo malabares nas ruas (“eu podia estar roubando, eu podia estar matando…”), eu podia estar escrevendo sobre a aposentadoria de Sarney, ou fazendo uma análise da campanha eleitoral que começa neste domingo (meu pantoprazol!, meu pantoprazol!), mas não tem jeito. O assunto do momento é esta sensacional Copa, cujo enorme sucesso, na boa, nem os mais ferrenhos otimistas – alô, Aldo Rebelo! Alô, Nizan Guanaes! – esperavam.

A propósito, além dos grandes jogos e da farra em si, o Mundial também teve o importantíssimo papel de desmoralizar números chutados por alguns governos – e reverberados pela imprensa -, de que nos grandes eventos, como o Carnaval, milhares de estrangeiros vão atrás dos trios em Salvador, caem no frevo em Recife e se esbaldam no Sambódromo no Rio, quando, nesse período, só se vê uma meia dúzia de cinturas duras por entre abadás, vassourinhas e pandeiros. Mas agora realmente eles são milhares, são visíveis e invadiram pra valer as ruas do Pelourinho, as praias da Guanabara e as pontes do Capibaribe.

Falando nisso, no último domingo eu estava em Recife visitando meus filhos, quando um amigo me telefona e praticamente me intima a ir assistir ao jogo Grécia e Costa Rica. Animadíssimo, ele vai logo dizendo que já está com meu ingresso e, antes que eu fale qualquer coisa, desfere o golpe fatal: “é isso ou ficar em casa vendo o jogo na TV. Mas lembre-se que antes tem o Esquenta e depois o Faustão! ”.

Ainda meio zonzo pela possibilidade de poder ver ao vivo o que só tinha visto pela TV, rapidamente o cérebro projeta minhas alternativas dominicais: ficar em casa vendo Regina Casé com sua mortalha florida, ou ver alguma descendente de Afrodite sorrindo no telão? Cochilar no sofá assistindo a Arlindo Cruz improvisando um samba, ou arriscar esbarrar com um conterrâneo de Demis Roussos assoviando Forever And Ever na fila da cerveja a 13 reais o latão? Suportar Faustão enaltecendo o exemplo de vida de algum artista medíocre, ou permanecer sentado sem esboçar nenhuma reação quando a famigerada “hola” passar por mim? Imediatamente coloquei um tênis e desci pra esperar o velho e animado Los Baixos, que logo chegou vestindo uma camiseta com o rosto de Sócrates (o jogador, não o grego), sobre a frase: “Cicuta on the rocks! ”. A tarde prometia.

Ao longo dos 20 km até a Arena Pernambuco, a quantidade de policiais era tanta que eu, qual o judeu da velha piada (que ao ver todos os filhos presentes no seu leito de morte, pergunta quem está tomando conta da loja), penso comigo: “quem está policiando as ruas do velho Recife? ”.

No entorno do estádio, torcedores com camisas e bandeiras de vários países dão o maior confere nas provocantes brasileiras vestidas com o kit Copa (camiseta amarela, shortinho, Ray-ban e salto alto), que por sua vez dão mole para dezenas de garotões sem camisa, que estão mais preocupados em usar seus bíceps para carregar uma pilha de copos da Budweiser, talvez para tomar seus suplementos enquanto malham nas academias.

Quanto ao jogo, confesso que não foi lá grande coisa. Mas isso é o de menos. O que importa mesmo é a muvuca e suas consequências. Como no caso das duas pernambucanas que conversavam em minha frente, morrendo de inveja de uma amiga que estava no maior amasso com um grego fantasiado de Poseidon: “ôxe, mulher, com um grécio desses eu me lascava toda! ”.

P.S. – Concluo este artigo no comecinho da tarde de sexta-feira e – veja que loucura – neste exato instante em que você o lê, o agora já é ontem. Portanto, o jogo do Brasil com a Colômbia, que ainda vai começar pra mim, já acabou pra você. E qualquer que tenha sido o resultado, é provável que alguns desses olhos que ora me dão a honra tenham vertido lágrimas. É provável também que os nossos jogadores tenham chorado mais uma vez. Se de alegria, serão guerreiros. Se de tristeza, serão meninos. De todo modo, como na canção de Gonzaguinha, eles precisam de um descanso, precisam de um remanso, precisam de um sonho que os tornem perfeitos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

PEDRO BACELLAR on 6 julho, 2014 at 21:43 #

como sempre, na mosca e na pleura, janio acerta. ele é realmente um cronista de muita verve e inspiração, leve e lúdico, suave e telúrico.


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